terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Sonho de Consumo

Meu sonho de consumo atual é ser filhote da Manchinha. Não gosto de usar o termo “sonho de consumo” porque parece que tenho vinte anos: idade de pirralho universitário que discute, e resolve o Brasil numa reunião de lanchonete. Você já está pensando que começa a ler um texto escrito por um velho, não é? Pois saiba que não é nada disso. Eu só tenho cinco décadas de vida e mais alguns quebrados. Ando de mountain bike por aí quase todo final de semana. É bem verdade que de vez em quando dou umas raladas nos joelhos e cotovelos, mas isso faz parte da cartilha dos usuários de veículo de duas rodas.

Deixemos de lado essa discussão de idade, até porque não leva a nada. Outra expressão que não gosto: até porque. Esse jargão é usado muito freqüentemente pelos políticos que penteiam seus cabelos com fixador em gel antes de concederem entrevista para a emissora de tv local. Se for para um programa em nível nacional, além do fixador usam um produto no rosto para tirar o brilho da pele. Querem mesmo que o brilho seja somente deles. Nenhum outro concorrente pode ameaçá-los.

Vamos ao que interessa, já que o leitor começa a achar que eu não tenho método para escrever e nem mesmo sei o que quero transmitir. Não posso passar, nem de longe, essa vaga idéia de enrolação escriturística.

O que eu quero mesmo é ter sessenta dias de vida; dezoito centímetros de altura e trinta centímetros de comprimento, fora o rabo. Quero receber o alimento todo dia no meu quarto de dormir, porque é lá que os filhotes ficam o tempo todo. Comer lagartixas fresquinhas trazidas pela mamãe Manchinha todos os dias, sem preocupar onde foi que ela conseguiu, e a que preço. Quero permanecer deitado na cama, mesmo que seja nos pés da cama, sem lembrar que o gás pode acabar a qualquer momento. Se ainda não aumentou, terei que desembolsar trinta e cinco reais. Desejo ardentemente ficar deitado na barriga da mamãe e de vez em quando dar uma mamadinha e depois dormir até o sono acabar.

Quando o sono acabar eu quero pular da cama no chão e brincar com minha irmã, a Cris, uma brincadeira que não tem hora para terminar. Se terminar uma começa outra e assim vai até...

Eu quero mesmo é pular do meu varal de roupas armado no quarto, feito com um caibro de madeira boa, na altura de um metro e oitenta.

Noutro dia eu a vi pular de lá ao chão. Só ouvi o “toc” de suas patas no piso. Pulou e continuou a brincadeira que tramava com Manchinha e Cris. Dez vezes sua própria altura. Não aconteceu nada além do pulo e da minha surpresa. Se eu pulasse da mesma altura, proporcional ao meu tamanho, já estaria no envelope de madeira envernizada. Eu tenho um metro e setenta e quatro centímetros de altura. Está aposto no meu certificado de reservista de hum mil novecentos e sessenta e nove, emitido pelo Exército do Brasil. Não encolhi nada, pois ando empinado como um mastro de bandeira nos braços de uma escolar que desfila no sete de setembro, quando passa em frente ao palanque do Lula e seus...

Há poucos instantes, quem eu sonho ser estava em cima da cadeira, embaixo da mesa de jantar. Enquanto eu tomava uma cuia de chimarrão ela esperava a hora de receber nova porção de ração balanceada. Não faz a menor idéia do valor do quilo da comida que come. Eu, que a comprei, andei feito romeiro de Canindé, pesquisando preço, sabor e qualidade. Paguei no cartão de débito. Tentei o primeiro cartão – foi recusado. Não tinha fundo, é claro. Tentei o segundo cartão – passou. Depois fui ao banco e constatei que estava usando o cheque especial para comprar comida do animal dos meus sonhos. Juro de cheque especial anda mais alto do que as torres gêmeas que não existem mais. Bem que os juros poderiam ter caído como elas, mas não foi assim que aconteceu. Permaneceram lá, como o Pico da Neblina: nas alturas, bem próximo das nuvens geladas, me colocando numa fria todo mês.

Só uma coisa não me agrada nessa história. O animal dos meus sonhos está com medo se sair de casa. Os cinco cães estão na espreita esperando uma oportunidade para correrem atrás. Isso é acerto de contas que não sei de quando vem. Não tenho notícias do fato que causou tamanha animosidade entre as partes. O certo é que não combinam a séculos. Por isso fica fechada dentro de casa. Para mim isso não faz a menor diferença, eu também fico fechado com medo do ladrão levar minhas coisas. Fico de guarda de dia, de noite, de guarda de feriado, de guarda de qualquer coisa... pensando que fazendo assim vou evitar a chegada do guardador da coisa alheia.

Quando ela crescer sairá, com certeza, mas à noite, pela báscula da janela. Irá fazer seus passeios noturnos enquanto os inimigos cochilam deitados nos panos espalhados no chão da varanda.

Bel, eu queria ser você, minha querida gatinha. Sua vida é ótima, mesmo tendo que bater de frente com a Sara, com o Tigre, com a Amanda, com o Iggy e com a Nina. Ah! se eu pudesse!

Chácara Betânia
Brasília-DF, 07 de outubro de 2004



PORTIFÓLIO

Como Administrar Câimbra

Os comentários que farei a seguir não estão embasado em estudo científico mas somente na minha experiência de ciclista de MtB durante esse quase quatro anos de pedal.

Já vi muitos atletas contorcendo no chão segurando uma das pernas e gritando como um condenado. A maldita câimbra.

Uma boa notícia! Isso pode ser evitado ou administrado com certa facilidade, basta ter algum conhecimento de causa.

Alguns motivos pelos quais a câimbra se manifesta:

Primeiro: - câimbra acontece com quem está despreparado fisicamente para o exercício em curso. Ou seja, se exigir do corpo mais do que ele pode responder existe uma possibilidade grande de acontecer. Exemplos: tentar subir uma ladeira forte em ritmo acelerado quando não se treinou gradativamente esse exercício. É mais ou menos como querer levantar um peso de 100 kg sem antes ter levantado pesos menores várias vezes. Participar de competição com duração de três horas quando não se preparou com treinos de duração maior que esse tempo.

Segundo: - ter uma alimentação que não contempla potássio. É por isso que se vê grande quantidade de ciclistas comendo banana durante os treinos. Banana tem alto índice de potássio. Frutas secas também o tem. O mineral “POTÁSSIO” evita a câimbra.

Para quem tomou os cuidados com o treinamento adequado e a alimentação correta e durante a prova sente uma fisgada ou um indício de câimbra há como administrar o problema para conseguir chegar ao fim sem ter prejuízo, ou tê-lo menor.

Senão vejamos: depois de muito tempo de prova aparece o sintoma. O melhor que se deve fazer é criar formas de alongar ou não deixar contrair. Pois a câimbra é nada mais nada menos do que uma contração involuntária da musculatura.

Lembro de um caso que aconteceu comigo na prova dos 100 km de cerrado de 2006, quando, depois de mais de quatro horas pedalando forte, na descida do Colorado, minha panturrilha direita deu sinal. Imediatamente posicionei o pé no pedal de tal forma a obrigar a panturrilha a alongar. Foi tranqüilo. Terminei a prova sem prejuízo algum.

É importante estar atento para esses cuidados porque são de fundamental importância durante a prova, e pode colocar tudo a perder a não observância deles.

Se mesmo assim a câimbra aparecer será de forma fulminante. Então, caído no chão e gritando feito um louco, procure alguém para te ajudar a alongar, porque o bicho pegou geral.

A persistir os sintomas procure um educador físico ou um nutricionista ou um médico.

Flecha afiada

Fevereiro 2008

PS. Para complementar o acima exposto vejam o que me aconteceu dia 10 de fevereiro agora.
Eu estava de molho por causa de uma gripe e por isso fiquei parado 9 dias. Não pedalei, não fiz nada, só com gripe. No sábado dei um pedal leve de 2h em speed e no domingo fui fazer o reconhecimento da prova de Sobradinho-DF. Muita gente, motivação, coisa e tal, percurso duro com muuuuuuita subida, e eu lá quebrando a regra (fazendo um esforço maior do que deveria) no final não deu outra - tive que administrar câimbra forte nas duas pernas. Então é muito bom lembrar que câimbra é mais ou menos como 2+2 é sempre 4. Esforço além do que está acostumado vai aparecer a maldita.