quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Fazer a nossa parte - dar o exemplo

Antes de mais nada, sinto-me na obrigação de informar que a matéria que se segue não é fruto de vingança, inimizade, retaliação, contrapropaganda ou qualquer outra forma de atingir a editora Abril. Não é.
Analisando o conteúdo das publicações desta editora, constatei, através de detalhado estudo, que a política da empresa é ter quase a metade de suas páginas como veículo de propaganda comercial. Pesquisei três edições, não continuadas, das revistas Veja e Exame. A porcentagem de comercial, por página escrita em cada uma, era respectivamente, 43,75 e 44,47%. Apliquei esta mesma metodologia na publicação da revista A de outra editora, que veicula matéria de mesmo conteúdo de Veja e Exame juntas. A porcentagem em propaganda era de 14,74% das páginas.
Considerando que a editora da revista A é tão boa quanto a editora Abril, tomei seus 14,74% de propaganda como referência e fiz os seguintes cálculos:
Clique na figura e veja ampliado

Trabalhando com os dados acima, cheguei ao resultado que indica o quanto poderia ser economizado em papel e tinta, no período de um ano, pelas publicações de Veja e Exame.

Revista Veja:
Papel: 3.121,82 t (toneladas)
Tinta: 1.187,00 t
Revista Exame:
Papel: 293,00 t
Tinta: 77,99 t
RESUMO:
Papel: 3.414,82 t
Tinta: 1.264,99 t
PESO TOTAL DE PAPEL E TINTA: 4.679,81 t

Considerando que uma carreta transporta 30 t, encheríamos 160 carretas, ao final de um ano, com papel e tinta.
Planeta Sustentável – campanha da editora Abril. É muito importante, mas a Editora não dá o exemplo. Fica sem credibilidade para continuar a campanha.
Assistindo ao documentário - HOME – NOSSO PLANETA, NOSSA CASA – poderemos ter, se ainda não temos, a noção do que está acontecendo com “nossa casa”, o Planeta Terra.
O poder de recuperar ou destruir “nossa casa” está em nossas mãos. As pequenas ações de cada um são gotas de procedimentos, benéficos ou maléficos. Os oceanos, com bilhões de bilhões de metros cúbicos de água, são formados de gotas. O raciocínio é o mesmo.
O consumidor é o agente mais forte para mudança de paradigmas. Se nós nos conscientizarmos de que o poder nos pertence, poderemos, ainda, salvar nosso lugar de viver. Se acharmos que a coisa não é com a gente, vai chegar a hora em que nossa casa vai pegar fogo, e a casa do vizinho, e a praça, e a rua também. Não teremos para onde correr.
Nos resta pensar detidamente em ações de resultado positivo quanto ao uso e quanto ao consumo das coisas. Cada produto que compramos é um produto produzido a mais e um produto a mais descartado na natureza (o aparelho celular, por exemplo, renovado a cada ano, pois é de graça. A sacola do supermercado).
Durmamos com isso. Pensemos nisso. Falemos disso. Façamos a nossa parte.
Até 2020 sem desmatamento, com o ar menos poluído, e com rios de águas cristalinas.


Obs.: quem desejar a memória de cálculo é só entrar em contato – heliovilela@gmail.com

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

8 ou infinito

8 é um algarismo arábico usado na matemática desde muito tempo.
O 8 se estiver deitado, é, na matemática, o símbolo de infinito no estudo dos conjuntos.

 Dia 26 de julho de 2009 foi um marco na minha vida. Dia em que, pela primeira vez, se quebrou algum osso do meu corpo; a clavícula direita.
 Estava treinando descer de baique com a maior velocidade possível.
Um pozinho solto na pista fez a roda dianteira derrapar. Fui ao chão à 40km/h.

- O médico, quando escreveu no prontuário a forma como eu seria engessado, apontou o 8 como um código para o técnico em gesso proceder a operação de aprisionamento dos meus ombros.
No início, a peça que me foi colocada nas costas puxando os ombros para trás, me pareceu um 8, só que deitado (infinito) .
Como diz o ditado – no escuro todo gato é pardo. Na escuridão da minha ignorância empardecida... As aparências enganam. Pensei que, em se tratando de matemática, uma ciência exata, um 8 era sempre um 8. Não. Era miragem. Eu estava no deserto a 50ºC sem água à dois dias.
O que parecia um 8, era, na verdade, uma peça que me provocaria infinita agonia.
Fui ao dicionário saber o significado de alguns vocábulos.
Por exemplo:
 aflição: padecimento físico; tortura; grande preocupação ou inquietação; ansiedade, angústia.
 tortura: suplício ou tormento violento infligido a alguém; lance difícil.

Na primeira noite, chegando em casa vindo do hospital, posicionei alguns travesseiros de forma adequada para acomodar o braço direito, deitei-me na cama e dormi. Dormi bem.
A partir da segunda noite a coisa pegou. Não sabia que na primeira noite o efeito dos remédios tinha camuflado a dor por que passava meu corpo machucado.
Fui para uma rede. Deitei-me atravessado colocando os pés numa cadeira espreguiçadeira. Abri os braços como sendo crucificado numa cruz de pano e ali passei a noite.
Dali em diante a rede se transformou no lugar oficial para diluir o tempo noturno – dormindo ou tentando dormir. Um chá de capim-santo ajuda muito a tombar um cidadão quase moribundo.

- Quando fui soldado, em plena ditadura militar, soube de que submetiam pessoas contrárias ao regime à tortura. Uma delas era uma gota d'água pingando de tempo em tempo sobre o alto da cabeça.
Uma gota d'água não é nada se pingar uma vez, duas, dez. Mas se não parar vira tortura. Explode a pessoa.

- Meu 8 invertido fez a mesma coisa. No início, por recomendação médica, se ficasse com os braços levantados em asinhas estava resolvido, depois, com o passar das horas, dos dias, e das semanas, pareceu-me como uma gota d'água na cabeça. Alguma coisa que aperta o subaco, aperta as costas. aperta o corpo, e aperta a alma. Faz doer as partes internas dos cotovelos por não ter como apoiá-los devidamente. Obstrui a circulação. Aperta o tendão do supra-espinhal que está completamente rompido motivado por outra queda. Ai, ai, ai...

Essa peça, que significa infinita dor e angústia, me dá muita segurança apesar de sofrimento. Sem ela parece que o ombro tem estrutura de papel. Prefiro sofrer com ela do que viver sem ela. A dor que não passa, o aperto que não cede, e o sufoco que não arrefece estão infinitos, mas não serão para sempre. Esse é o meu consolo. Prefiro
sofrer por um tempo, sabendo que terei uma recuperação satisfatória, do que aliviar a carga e ficar torto para sempre. É um sofrimento que tem um horizonte promissor. É a borboleta saindo do casulo. Se não sofrer para vencer o obstáculo não fortifica suas asas e com isso não voa. Eu quero voar mais longe.

Com tudo se aprende se a mente não é pequena. Se se busca em Deus a tolerância e a força para a superação, recebe como resultado o efeito do vento. Pois o vento que chicoteia a árvore é o mesmo que enrijesse suas fibras.
Tudo isso me tem sido de grande valia.
Tenho tido muitas horas para estudar, para ler, para fazer projetos, para fotografar, para escutar Deus, para falar com Ele, para ouvir o som da natureza, e para acumular energia volitiva para os pedais do ano vindouro.

Dor em dose moderada não é mais problema. Aprendi a conviver com ela.
Agonia me faz sofrer, mas levo numa boa se for suportável. O suportável elevou seu nível, trazendo um diferencial importante.
A tolerância ao sofrimento foi aperfeiçoada. Robusteceu-se.

 Essas coisas ajudam na pedalada de resultado. Não se chega a patamar elevado sem sentir dor, sem ser tolerante com ela. A dor faz parte da vitória. É um ingrediente da receita do sucesso no esporte.

 Flecha Afiada, volta ao texto, desce das nuvens, para de divagações.

 Pelo fato daquilo descobri algumas coisas:
 Que a baique é oxigênio no meu sangue. É vida;
 Que sou apaixonado por pelo menos quatro coisas: família, baique, livros e fotografia.

Na terra, sem essas coisas, viverei menos.



Chácara Betânia, 25 de agosto de 2009



Flecha Afiada

domingo, 12 de abril de 2009

Início de Temporada

Comecei esta temporada muito animado, e continuo animado. Não é fogo em palha. É fogo em basalto. É cratera de vulcão ativo. É só olhar para dentro e ver, lá no fundo, a lava incandescente borbulhando.
Com esse ardor todo, iniciei a temporada dois-mil-e-nove em dezembro de dois mil e oito. De lá para cá, já se foram quatro meses de treinos metódicos e científicos.
Não sei o que me deu a partir do final de dois mil e oito: a vontade de melhorar meu rendimento é tão grande que pareço criança quando ganha sua primeira bola. Pelo menos era assim na minha infância. E isso não faz muito tempo, ora bolas!
Me preparei para a prova de Araxá treinando muito circuito. Do lado de casa tem circuito de todo jeito. Para engrossar a casca do treino eu vou sempre para o circuito do Abraão. Ainda mais que estou muito chique: suspensão Reba Team de 100mm. É tão boa quanto suspensão ativa de um fórmula-um. Uma coisa eu sei: melhorei bastante meu desempenho em XCO. Da muita adrenalina. É adrenalina o tempo todo. Não tem descanso. Isso é bom; provoca a gente. Insulta. Desafia. Eu gosto disso.
Com tudo isso, eu fui para Araxá na sexta-feira passada, dia três de abril. Saí daqui com Fernando meu filho, e a nora Cristina. Seiscentos e trinta e seis quilômetros percorridos, em pista ótima, é o que nos separa de Araxá. Chegamos ao hotel Colombo às vinte e uma horas. Avistei, bem de perto, a estrutura montada. Tudo pronto para a festa que não é pequena, e cada vez aumenta, mais em todos os sentidos: estrutura, participação (nesse ano: mais de novecentos inscritos), qualidade nos detalhes, e assim vai.
Jantamos em um restaurante bem perto. Fomos a pé.
Dormi quase bem. Igual meu colchão não tem nenhum no mundo.
Acordei às seis e trinta.

Peguei a Nikon e saí para fotografar enquanto esperava o casal acordar. O tempo estava nublado. Não tinha nenhum ponto azul no céu. Era tudo cinza.
Fiquei pensando naquele circuito enlameado. Sacudi a cabeça jogando fora aquele pensamento. Era muito ruim. Melhor mesmo era ter um terreno úmido e sem lama, no ponto de plantar milho.
Fiz algumas fotos, mas sem muito entusiasmo. A luz era muito difusa. Pouco contraste e nenhum brilho. À frente estavam grande paineiras com suas flores roxas, mas nem assim produziam boas fotos. Sem luz quente não tem foto de qualidade. Nem a pau!
Voltei para dentro do hotel e logo encontrei o casal-vinte pronto para o café.
Fomos para o salão e tomamos um café da manhã de primeiríssima qualidade. Que coisa de louco! Contudo - a cabeça estava lá fora – no circuito.
Fernando e eu nos preparamos para o reconhecimento. A pista estaria aberta para os treinos a partir das dez horas. Descemos as baiques pela escadaria do hotel e ganhamos a rua numa descida muito forte. Da porta do hotel até a estrutura do evento era coisa de duzentos metros. Nada mais que isso.
Confirmamos nossas inscrições. Eu recebi o numeral 2004. Esse é meu para todo o ano de 2009.
Às dez horas em ponto a pista foi aberta. Entramos no circuito no primeiro momento.
- Inicia-se num pátio pavimentado e dobrando à esquerda sobe-se um meio-fio à direita e entra-se na mata. Não é bem mata, mas um lugar cheio de grandes árvores sem nenhuma vegetação rasteira, a não ser grama. Curva para a direita; curva para a esquerda, e assim vai numa trilha sinuosa. Chega-se numa rua e tomando-a à direita começa uma subida sem grande importância. Sai-se dela à direita e aí começa o que se pode ser chamado de percurso técnico. Descidas fortes. Subidas íngremes e curtas. Pedras que atrapalham a vida do atleta. Depois desse ponto sobe-se uma rua com pavimento em pedras, onde está o ponto de apoio do atleta, depois disso, ai meu Deus! é sofrimento de dar-com-pau. Entra-se na mata e não sai mais. Mata na encosta de uma serra encravada de pedras. São seis mil e quinhentos metros, em que, pelo menos cinco mil metros, é de subidas e descidas técnicas, com curvas que chegam a trezentos e sessenta graus. Isso mesmo. A gente contorna uma árvore e volta na paralela.
Para alegria de todo mundo - atletas e expectadores - quando se aproxima do final do percurso, próximo ao lago, tem uma velha escada de pedras, com seus degraus desarrumados e com mudança de direção. Quem não tem intimidade com a coisa é melhor descer e empurrar. Quem tem conhecimento do assunto, é só alegria.
Foi assim que eu dei três voltas naquela manhã de sábado.
Não caí nenhuma vez. Também, não zerei tudo. Tem subida izerável. Melhor nem tentar. Nem tentei. Já sabia que era perca de tempo. Quando eu crescer vou zerar tudo. De baixo para cima e de cima para baixo.
O dia continuou nublado. Não mudou hora nenhuma. Não parei de olhar para o céu e de pedir a Deus que, se pudesse, não chovesse até o término da competição, no domingo.
A primeira largada era às sete horas e cinquenta e cinco minutos. Olha aí a precisão do horário. Não era às oito. Sem arredondamento.
No congresso técnico de sábado foi explicado que esses cinco minutos fazia toda a diferença ao final da prova. Aceitei com a maior resignação por conhecer o nível da organização.
Tratei de pedir ao gerente do restaurante a antecipação do café da manhã para não passar sufoco, no que fui atendido prontamente.
Um senhor moreno e ligeiro, com a decisão na ponta da língua, disse sem titubear: “o café será servido a partir das seis e meia”.
Fui dormir olhando para o tempo. Acordei olhando para o tempo. O tempo estava com a cara cinzenta e seca. Aleluia!
Acordei às seis horas.
Fui para o restaurante de roupa de ciclismo, pronto para a largada. Só não calcei a sapatilha para evitar o toc-toc no corredor do hotel.
De café tomado saí do hotel e fui para o aquecimento. Fiquei, juntamente com muitos outros atletas, subindo e descendo a pista que vai à cidade. Foi meia hora de aquecimento contínuo.
Eram vários pelotões no bolsão de largada separados por placas indicativas por categoria.
Me reuni à turma dos mais experientes, à frente dos para-desportistas. Esses sim, são super-homens. Atletas com uma perna só. Um só braço. Perna de metal. Cego de um olho. Todos ali como se fossem completos. Acredito que, na verdade, eles são completos. A gente é que os considera incompletos. Ledo engano.
A largada foi dada na hora marcada. Cada categoria largava com uma defasagem de dois minutos.
Na minha hora tocou a música e a adrenalina subiu à cabeça. O coração acelerou e a concentração aumentou. Olhei para o pé direito clipado ao pedal, conferi as marchas nos câmbios dianteiro e traseiro: coroa do meio com quarta. Logo depois da primeira curva iria para sexta marcha.
Deu-se a largada. Saí com toda a força. Não sou expert em largada. Fiquei entre os cinco primeiros. Percorri a trilha debaixo das grandes árvores fazendo slalons seguidos. Quando chegamos à subida da rua, passei todos que estavam à frente e segui forçando ao máximo.
Lá pelo meio do circuito, numa subida em trilha, um jovem para-desportista me passou pedalando com uma perna só. Depois fiquei sabendo que ele foi à Pequim. Mais adiante eu o passei novamente e adeus.
Eu e Delai trocamos de posição algumas vezes. Antes da escada eu estava em primeiro lugar, e assim mantive até a metade da segunda volta, quando, em uma subida forte, depois da caixa d'água, ele me passou e eu não consegui mais recuperar a posição.
Conclui a prova em segundo lugar – cinquenta e três segundos atrás do primeiro. Para consolo meu, o terceiro só passou depois de seis minutos; menos mal.

segunda-feira, 23 de março de 2009

PERIPÉCIAS

PERIPÉCIA 1:
Procurando melhores produtos que aumentassem meu desempenho na baique, comprei nos States, um par de pneus pra lá de top para usar sem câmara. O tal de tubeless, para aderir ao chick do inglesismo, já que não temos personalidade linguística.
Os pneus foram instalados nas rodas conforme manual. Rodei vários dias antes da competição, também, conforme o “manual da experiência ciclística”.

No dia da prova de Sobradinho – 80 km Trip Trial Pedal na Serra – lá estava eu, pronto para competir, e se deixassem, poderia até ganhar.
Na largada, que foi uma desordem total, um dos meus concorrentes conseguiu ir lá para a ponta e largar em posição privilegiada.
Eram muitos competidores. Com isso, até que desembolou, gastou-se muito tempo e com isso fiquei para trás. Muito para trás. Foram trinta minutos de pedal forte para ver “o blusa vermelha” com o numeral 280. Era o cara que eu procurava. Encostei e até descansei um pouco para depois atacar e pegar a dianteira, no asfalto, próximo à fábrica do cimento CIPLAN.

Na subida da vicinal estava à frente sem conseguir identificar meus adversários. Subi forte mas sentindo tranquilidade.
Na descida do quebra-corrente – descida muito técnica e perigosa – há dez metros do seu final o pneu dianteiro estoura e saiu do aro. Não houve acidente, pois estava bem devagar.

Desci da baique. Saí do caminho. Retirei uma câmara de ar que trazia às costas e com o pneu todo melecado do líquido, tive dificuldade para instalar o conjunto na roda. Peguei o gás e injetei-o rapidamente. A câmara furou, ou já estava furada. Nessa hora passou o 280. Depois passaram mais dois. Ia passando um rapaz e eu pedi-lhe uma câmara. Ele prontamente me cedeu a sua. Com a mesma dificuldade dantes instalei o conjunto. Com o segundo gás enchi o pneu. Arrumei as coisas e montei na baique.
Era só prejuízo. Estive parado por doze minutos. Tinha que correr atrás, pois faltavam somente dez quilômetros.

Em pouco tempo estava na pista dos três riachos. Com o coração na boca, coloquei toda força que tinha para avançar o mais que podia.
Por duas vezes avistei atleta com blusa vermelha. Não era o 280. Não arrefeci. Na última descida de pedras, antes de atingir o asfalto, na entrada da cidade, vi, ao longe, outro blusa-vermelha. Dessa vez era o 280. Alcancei-o e passei como uma bala. Faltava um quilômetro para a bandeirada.
Foi o suficiente para colocar um minuto de vantagem.

PERIPÉCIA 2:

Na quarta-feira passada, 18 de março de 2009, meu treino era em subida bem íngreme. A escolhida foi a subida-do-Leo.
Acordei às 5 horas da manhã. Me preparei para o treino com tudo que era necessário: acessórios de segurança, câmara de ar sobressalente, bomba de ar, remendos, caramanhola cheia, etc. Às 6 horas estava saindo de casa.

Fiz o aquecimento e mais dois exercícios subsequentes. Quando olhei para o quadro da baique, para beber água, a caramanhola não estava. Havia caído em algum lugar do planeta. Não sabia onde. Vi que meu treino estava comprometido. De três séries fiz uma e o abortei.

De onde eu estava me encaminhei para o Paranoá, para apanhar o carro no estacionamento do hospital, onde minha esposa o deixou. Encontrei a caramanhola caída, sem tampa e sem líquido, no lado da estrada de terra.
No asfalto, em um cruzamento, com muitos carros passando, levantei na baique para dar um sprint. A corrente saiu da coroa e eu caí violentamente no asfalto rugoso. Levantei muito rápido, com medo de ser atingido por um carro, e ganhei o acostamento de imediato. Senti que avia ralado forte o joelho esquerdo. A palma da mão direita estava dolorida, mas não era hora para averiguar nada. Só senti que não tinha freio traseiro.

Em pouco tempo cheguei onde o carro estava. Fui conferir o prejuízo.
Eu vestia uma calça própria para pedalar. Ainda bem! No joelho direito arrancou uma lasca que foi cortada com uma tesoura quando cheguei a casa. As luvas acabaram. Foram para o lixo. A parte interna do joelho direito foi atingido pelos dentes da coroa e ficaram marcas. O freio traseiro quebrou. Já estava sem freio dianteiro, pois o aro estava nas últimas. A mão direita ficou bem dolorida com a pancada, mas a luva protegeu.
Com isso posto, achei que deveria ter ficado em casa, debaixo dos cobertores, lendo um bom livro e tomando suco de acerola.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Sete Vidas

Exite um provérbio que diz que gato tem sete vidas, ou sete fôlegos. O Alemão, meu gato de estimação, só tem quatro. Já gastou três na boca do Tegus, meu doberman de guarda. Isso porque eu estava perto quando aconteceram os fatos. Se eu não estivesse do lado o coitado tinha ido na primeira.
- Domingo passado, 8 de fevereiro de 2009, feliz da vida, fui fazer mais um treino sério, como sempre treino.
Alex, Gustavo de Goiânia, Felipe Aragão, Fernando e Eu nos encontramos em um ponto, em Sobradinho, para fazermos um percurso, que poderá até ser o percurso da prova Pedal na Serra desse ano.
Saímos socando a bota. Houve até comentário - me disseram que era um treino light e agora vocês socam a bota. Coisa de DNA.
Descemos o “oito-e-meio” na tora e fomos embora, cada um no vácuo do outro, sem afrouxar o ritmo. Eu, é claro, era o elo mais fraco da corrente. Cinquenta e oito anos contra vinte e seis é covardia. Mas como não me importo com esse negócio de idade biológica, pedalava com todas as minhas forças.
Lá na frente, descendo o Mogi, depois de uma virada de noventa graus à direita, tomei a dianteira numa estrada estreita e pedregosa. A pista era em descida suave e sinuosa. Estava de última marcha a uns quarenta por hora, de cabeça baixa, girando forte. Quando vi, a uns vinte metros à frente, uma certa de arame farpado de cinco fios com o colchete fechado cruzando a pista, na entrada da trilha, só deu tempo para o reflexo. Ainda bem que eu estava com a bike de competição que tem rodas de cerâmica e pastilhas de freio do mesmo material. Quando freia a coisa para. Mas para mesmo. Foi a sorte. Freei fortemente. Ela levantou a bunda e eu caí de ponta-cabeça. Parei à cinco metros da cerca. O capacete partiu. A bermuda rasgou. O Cateye quebrou a base. O óculos encheu de terra. O ombro direito bateu com muita força no chão e a coxa direita, na altura da cabeça do fêmur, ficou em carne viva, e outros pontos de contusão de menores proporções.
Todos os outros ciclistas conseguiram parar antes de passarem por cima de mim e darem o golpe de misericórdia.
O Gustavo, que não me conhecia, ficou dos mais preocupado não querendo me deixar levantar, pedindo para eu esperar um pouco.
Levantei meio atordoado. Mapeei os pontos contundidos. Apalpei para ver se estava tudo emendado. Lavei os óculos. Guardei o Cateye no bolso da blusa e começamos de novo.
No início a coisa ficou meio difícil. Ardia tudo, e o ombro direito estava bem comprometido. Desci uma piramba devagar, mas logo a zonzeira passou e eu tomei o ritmo.
Até aquele momento já tínhamos percorrido dez quilômetros dos oitenta. Por experiência, já sabia que não poderia deixar o sangue esfriar. Se deixasse era caixão.
Esfolado, quebrado, e com tudo ardendo, percorremos os outros setenta quilômetros sem quebrar o ritmo.
Eu sentia uma aparência de clavícula trincada. Não conseguia levantar o braço. Não conseguia pedalar em pé.
Passei a mão no ombro. Não detectei ponta de osso saliente. Apertei. Nada mexeu.
Tocamos para frente.
Desse modo chegamos ao ponto de saída, depois de quatro horas de pedal.
Passei as chaves do carro ao Fernando. Ele ajeitou as coisas e voltamos para casa.
Me banhei lavando as feridas. O braço direito era um zero à esquerda. Não conseguia realizar trabalho algum.
Passei pomada anti-inflamatória nos pontos ralados e Gelol no ombro. Tomei um comprimido de Nimesulida (anti-inflamatório) e fui destruir uma montanha de lasanha que me esperava fumegando.
À noite, fui dormir com o corpo dolorido mas sem sofrimento.
Acordei no dia seguinte zerado, pronto para outros oitenta quilômetros de sobe-e-desce.
O único problema que poderia ter acontecido, se eu não tivesse conseguido parar, seria ter sido degolado pelo arame farpado. Só isso.
Acho que queimei uma vida. Agora só restam seis.
Montando uma equação de primeiro grau, considerando minha idade atual como média, e fazendo as contas, chega-se ao seguinte resultado: cinco vezes cinquenta e oito é igual a duzentos e noventa. Mais cinquenta e oito – trezentos e quarenta e oito.
Se não gastar outras vidas pela frente, ainda consigo ir longe.
Vou morrer com uma bela idade.
Ainda vou pedalar muito.


Chácara Betânia, 10 de fevereiro de 2009


Flecha Afiada


sábado, 31 de janeiro de 2009

HÁ PAZ NO TANQUE

Há quase dois anos, construí, aqui na chácara, um tanque para criar peixes.
O tanque tem a forma de uma grande bacia, com seis metros de diâmetro e um metro e oitenta de profundidade, no centro. Mas não parece essas bacias atuais, modernas, de plástico. Parece uma bacia de chapa galvanizada em que eu lavava os pés na segunda, na terça, na quinta, na sexta e no domingo. Faltou quarta e sábado, deu fé? É que nesses dias eu tomava banho completo, lá no calabouço, atrás da casa do monjolo, ao lado da amoreira. Um banho gostoso, debaixo daquele mundaréu de água fria que caía da bica.

Tá achando graça do que? Não faz tanto tempo assim não! Cinquenta anos.
Voltemos ao nosso assunto principal porque já divaguei demais e assim eu terei minha nota de redação diminuída por falta de seguir regras. As tais de regras.
Todo mundo tem que estar “regrado”, mas eu não gosto muito disso não. Se eu fosse um Machado de Assis poderia escrever o que quisesse que os outros iriam bater palmas e achar que quando eu saísse das regras era inovação da língua portuguesa. Mas como não sou Machadinho...

Minha bacia é mais parecida com uma calota de fusca 66. Lembra? Não lembra! É da geração Internet? da turma do MP3, MP4, MP5, Mpx? Pois é, é bSem parecida com uma daquelas.

O volume de água nesse tanque é de trinta e três mil litros. Dá pros peixes nadarem bastante, achava eu, até que um especialista me disse que não posso ter mais que cinquenta peixes. Mais precisamente: um quilo de peixe por metro quadrado de lâmina d'água. Pra quem manja da fórmula de área, é só fazer as contas para ver no que dá. Mas tudo bem. Cinquenta está de bom tamanho para quem não tinha nada até semana passada.

Esse tanque já me deu muito trabalho. Fiz de tudo que a engenharia recomenda em termos de impermeabilização. Gastei grana que daria para comprar muitos quilos de peixe, mas deixa pra lá. “Mais vale um sonho do que uma carrada de abóboras”. Por duas vezes enchi o tanque, e ele continuava perdendo água por pequenas rachaduras provocadas por dilatação e retração do material. Coisa de esquentar e resfriar. Aí a superfície trinca e a água vaza.

Desisti por um tempo. Na verdade dei um tempo ao tanque de peixes.
Esqueci-me de dizer que na construção do tanque fiz duas canaletas externas, como bigodes, para coletar enxurrada e conduzi-la para dentro do tanque. É uma forma de economizar água.

Começaram as chuvas e com isso o tanque começou a encher.
Percebi que os vazamentos acabaram. Ué! O que houve? É que a água da chuva ao escorrer pelo solo mistura com terra e transforma em lama. Lama não é nada mais do que terra fina dissolvida na água. E terra fina dissolvida na água é o que as rachaduras precisavam para serem seladas. Aleluia! Problema resolvido.
Adicionei mais água para completar o tanque e coloquei cinquenta tilápias, dez piaus e dez matrinxãs. Desobedeci o especialista. Esses setenta peixes são filhotes. Os piaus e as matrinxãs são para comer um pouco dos filhotes das tilápias, porque as tais reproduzem pra caramba.

Hoje à tarde, quando o sol se pôs atrás do monte e a sombra tomou conta do lugar, me assentei na borda do tanque e fiquei olhando para aquela água calma, esperando o instante, quando um peixinho pulasse para movê-la. De vez em quando isso acontecia. E não é filial do tanque de Betesda.

Era uma paz que só Jesus pode dar. Coisa de louco.
Um silêncio perturbador, só interrompido pelo canto dos pássaros.
As árvores verdes rodeando o tanque e um céu azul intenso cobrindo-o. O chão forrado de capim cortado, depositado em forma de colchão.
Eu sozinho sentado ali, olhando o reflexo das nuvens na água, esperando a hora em que algum anjo, aliás, peixinho iria movê-la.

Meu dia acabou assim.



Chácara Betânia, 30 de janeiro de 2009


Flecha Afiada