Comecei esta temporada muito animado, e continuo animado. Não é fogo em palha. É fogo em basalto. É cratera de vulcão ativo. É só olhar para dentro e ver, lá no fundo, a lava incandescente borbulhando.
Com esse ardor todo, iniciei a temporada dois-mil-e-nove em dezembro de dois mil e oito. De lá para cá, já se foram quatro meses de treinos metódicos e científicos.
Não sei o que me deu a partir do final de dois mil e oito: a vontade de melhorar meu rendimento é tão grande que pareço criança quando ganha sua primeira bola. Pelo menos era assim na minha infância. E isso não faz muito tempo, ora bolas!
Me preparei para a prova de Araxá treinando muito circuito. Do lado de casa tem circuito de todo jeito. Para engrossar a casca do treino eu vou sempre para o circuito do Abraão. Ainda mais que estou muito chique: suspensão Reba Team de 100mm. É tão boa quanto suspensão ativa de um fórmula-um. Uma coisa eu sei: melhorei bastante meu desempenho em XCO. Da muita adrenalina. É adrenalina o tempo todo. Não tem descanso. Isso é bom; provoca a gente. Insulta. Desafia. Eu gosto disso.
Com tudo isso, eu fui para Araxá na sexta-feira passada, dia três de abril. Saí daqui com Fernando meu filho, e a nora Cristina. Seiscentos e trinta e seis quilômetros percorridos, em pista ótima, é o que nos separa de Araxá. Chegamos ao hotel Colombo às vinte e uma horas. Avistei, bem de perto, a estrutura montada. Tudo pronto para a festa que não é pequena, e cada vez aumenta, mais em todos os sentidos: estrutura, participação (nesse ano: mais de novecentos inscritos), qualidade nos detalhes, e assim vai.
Jantamos em um restaurante bem perto. Fomos a pé.
Dormi quase bem. Igual meu colchão não tem nenhum no mundo.
Acordei às seis e trinta.
Peguei a Nikon e saí para fotografar enquanto esperava o casal acordar. O tempo estava nublado. Não tinha nenhum ponto azul no céu. Era tudo cinza.
Fiquei pensando naquele circuito enlameado. Sacudi a cabeça jogando fora aquele pensamento. Era muito ruim. Melhor mesmo era ter um terreno úmido e sem lama, no ponto de plantar milho.
Fiz algumas fotos, mas sem muito entusiasmo. A luz era muito difusa. Pouco contraste e nenhum brilho. À frente estavam grande paineiras com suas flores roxas, mas nem assim produziam boas fotos. Sem luz quente não tem foto de qualidade. Nem a pau!
Voltei para dentro do hotel e logo encontrei o casal-vinte pronto para o café.
Fomos para o salão e tomamos um café da manhã de primeiríssima qualidade. Que coisa de louco! Contudo - a cabeça estava lá fora – no circuito.
Fernando e eu nos preparamos para o reconhecimento. A pista estaria aberta para os treinos a partir das dez horas. Descemos as baiques pela escadaria do hotel e ganhamos a rua numa descida muito forte. Da porta do hotel até a estrutura do evento era coisa de duzentos metros. Nada mais que isso.
Confirmamos nossas inscrições. Eu recebi o numeral 2004. Esse é meu para todo o ano de 2009.
Às dez horas em ponto a pista foi aberta. Entramos no circuito no primeiro momento.
- Inicia-se num pátio pavimentado e dobrando à esquerda sobe-se um meio-fio à direita e entra-se na mata. Não é bem mata, mas um lugar cheio de grandes árvores sem nenhuma vegetação rasteira, a não ser grama. Curva para a direita; curva para a esquerda, e assim vai numa trilha sinuosa. Chega-se numa rua e tomando-a à direita começa uma subida sem grande importância. Sai-se dela à direita e aí começa o que se pode ser chamado de percurso técnico. Descidas fortes. Subidas íngremes e curtas. Pedras que atrapalham a vida do atleta. Depois desse ponto sobe-se uma rua com pavimento em pedras, onde está o ponto de apoio do atleta, depois disso, ai meu Deus! é sofrimento de dar-com-pau. Entra-se na mata e não sai mais. Mata na encosta de uma serra encravada de pedras. São seis mil e quinhentos metros, em que, pelo menos cinco mil metros, é de subidas e descidas técnicas, com curvas que chegam a trezentos e sessenta graus. Isso mesmo. A gente contorna uma árvore e volta na paralela.
Para alegria de todo mundo - atletas e expectadores - quando se aproxima do final do percurso, próximo ao lago, tem uma velha escada de pedras, com seus degraus desarrumados e com mudança de direção. Quem não tem intimidade com a coisa é melhor descer e empurrar. Quem tem conhecimento do assunto, é só alegria.
Foi assim que eu dei três voltas naquela manhã de sábado.
Não caí nenhuma vez. Também, não zerei tudo. Tem subida izerável. Melhor nem tentar. Nem tentei. Já sabia que era perca de tempo. Quando eu crescer vou zerar tudo. De baixo para cima e de cima para baixo.
O dia continuou nublado. Não mudou hora nenhuma. Não parei de olhar para o céu e de pedir a Deus que, se pudesse, não chovesse até o término da competição, no domingo.
A primeira largada era às sete horas e cinquenta e cinco minutos. Olha aí a precisão do horário. Não era às oito. Sem arredondamento.
No congresso técnico de sábado foi explicado que esses cinco minutos fazia toda a diferença ao final da prova. Aceitei com a maior resignação por conhecer o nível da organização.
Tratei de pedir ao gerente do restaurante a antecipação do café da manhã para não passar sufoco, no que fui atendido prontamente.
Um senhor moreno e ligeiro, com a decisão na ponta da língua, disse sem titubear: “o café será servido a partir das seis e meia”.
Fui dormir olhando para o tempo. Acordei olhando para o tempo. O tempo estava com a cara cinzenta e seca. Aleluia!
Acordei às seis horas.
Fui para o restaurante de roupa de ciclismo, pronto para a largada. Só não calcei a sapatilha para evitar o toc-toc no corredor do hotel.
De café tomado saí do hotel e fui para o aquecimento. Fiquei, juntamente com muitos outros atletas, subindo e descendo a pista que vai à cidade. Foi meia hora de aquecimento contínuo.
Eram vários pelotões no bolsão de largada separados por placas indicativas por categoria.
Me reuni à turma dos mais experientes, à frente dos para-desportistas. Esses sim, são super-homens. Atletas com uma perna só. Um só braço. Perna de metal. Cego de um olho. Todos ali como se fossem completos. Acredito que, na verdade, eles são completos. A gente é que os considera incompletos. Ledo engano.
A largada foi dada na hora marcada. Cada categoria largava com uma defasagem de dois minutos.
Na minha hora tocou a música e a adrenalina subiu à cabeça. O coração acelerou e a concentração aumentou. Olhei para o pé direito clipado ao pedal, conferi as marchas nos câmbios dianteiro e traseiro: coroa do meio com quarta. Logo depois da primeira curva iria para sexta marcha.
Deu-se a largada. Saí com toda a força. Não sou expert em largada. Fiquei entre os cinco primeiros. Percorri a trilha debaixo das grandes árvores fazendo slalons seguidos. Quando chegamos à subida da rua, passei todos que estavam à frente e segui forçando ao máximo.
Lá pelo meio do circuito, numa subida em trilha, um jovem para-desportista me passou pedalando com uma perna só. Depois fiquei sabendo que ele foi à Pequim. Mais adiante eu o passei novamente e adeus.
Eu e Delai trocamos de posição algumas vezes. Antes da escada eu estava em primeiro lugar, e assim mantive até a metade da segunda volta, quando, em uma subida forte, depois da caixa d'água, ele me passou e eu não consegui mais recuperar a posição.
Conclui a prova em segundo lugar – cinquenta e três segundos atrás do primeiro. Para consolo meu, o terceiro só passou depois de seis minutos; menos mal.
domingo, 12 de abril de 2009
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Um comentário:
Ilmo Flecha,
Estive impossibilitado de participar da prova por assuntos "cegonhísticos", mas acompanhei de perto pela web a galera. Fiquei muito contente com o resultado dos companheiros e torci como se fosse final de copa do mundo (ah! Brasil... país "só" de futebol.... que inveja dos franceses do tour).
Grande abraço prá vc e pros "meninos".
At.
Goiano
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