Todos estávamos prontos mas faltava um que demorava chegar. Quando chegou, em poucos minutos iniciamos nossa incursão.
Pelo que sabia, alguns iriam até as sete-curvas e voltariam, outros iriam até o Jerivá, como era nosso objetivo.
Pelos dias anteriores já sabíamos que naquele também faria muito calor. O céu estava limpo e o sol aparecia com todo vigor.
Saímos pedalando sem pressa, naquela manhã de “todos os santos” – primeiro de novembro. Fernando e Boi na frente, eu logo atrás juntamente com Adélia. Assim fomos, até que Adélia diminuiu sua marcha, e então, nós três seguimos em frente. Os outros ficaram para atrás, ao ponto de não serem vistos.
Depois do rio das sete-curvas, no retorno, Boi disse que esperaria Adélia ali e voltariam. Nos despedimos e fomos.
Agora, era eu e Fernando somente. Um no vácuo do outro, revezando de vez em quando. As decidas eram muitas e freqüentes. O vento estava às nossas costas. A temperatura ainda estava dentro do normal. Tudo ajudava para uma pedalada confortável. Desse modo, com duas horas e vinte e oito minutos, chegamos ao Jerivá.
Eu havia consumido setecentos mililitros de bebida – metade malto, metade repositor hidro-eletrolítico. Tinha em mente a necessidade de me hidratar bem, visto o calor e o sol.
Tiramos todo o equipamento. Acomodamos as baiques de forma segura e fomos nos alimentar e hidratar. Fernando comprou três litros de água e uma coca-cola de um litro e meio. Tomamos o refrigerante e um pouco da água. Abastecemos nossas caramanholas. Eu levava uma grande e uma pequena, historicamente suficiente para um pedal de setenta e cinco quilômetros.
Às onze e vinte pagamos a conta e preparamos para o retorno. Saímos em seguida.
Sabíamos que a volta seria com mais calor, com vento-contra e com mais subidas. Na primeira hora de pedal me senti bem. Tudo o que esperava acontecer estava acontecendo. Sol, calor, vento-contra e subidas. Mas comecei a não render como sei que rederia. Alguma coisa estava errada e eu não identificava. Fernando começou notar a diferença. Agora era somente ele que puxava. Eu ficava sempre no vácuo, mesmo assim, várias eu sobrava.
A velocidade média de volta é menor, sem dúvida. A topografia contribui para isso, além do tempo de pedal e do cansaço, que, com o tempo, chega.
Depois de Alexânia, depois da fábrica da cerveja e depois de uma longa subida, tinha a venda da Baiana. Paramos e tomamos uma coca-cola de seiscentos mililitros. Eu tomei mais que o Fernando. Ficamos devendo o refri pois não havia troco para cinqüenta pilas. Eu só tinha aquela nota. Fiquei de pagar em outra oportunidade, quando por ali passasse.
Dali em diante, o corpo foi fraquejando de forma assustadora. Eu não me reconhecia. O pedal não rendia. A força estava se esvaindo. O calor cada vez mais intenso maltratava sem dó. As subidas pareciam paredes. A baique que era leve pesava o dobro. O hodômetro do ciclo-computador parecia que estava danificado – não aumentava nunca aquela quilometragem. Os cento e cinqüenta e cinco quilômetros ainda estavam longe de serem completados. O tempo estava passando e nada de avistar, no horizonte, algum detalhe do Distrito Federal. Eu sonhava com um balde de água fria sendo derramado na minha cabeça. Seria a solução. Meu corpo pedia água fria.
Com muita demora subimos as sete-curvas. Fernando comentou e eu concordei que, graças a Deus, tínhamos vento contra. Imaginamos subir aquela ladeira interminável sem vento para aliviar um pouco do calor intenso. Já não fazia efeito tomar bebida. Ela estava quente. Parecia que o corpo não agradecia. A boca secava, e eu, em períodos curtos, voltava à caramanhola. Nessa agonia entramos no Distrito Federal e paramos em um mercado no povoado Engenho das Velhas.
Tirei o capacete, as luvas e as sapatilhas. Sentei-me no chão com as pernas estendidas. Escorei as costas na parede.
Fernando comprou uma coca-cola de um litro e meio. Tomamos tudo e logo em seguida preparamos para sair. Não podíamos deixar o corpo esfriar. Faltava pouco para concluir, o que para mim, estava sendo um suplício. Um vexame para mim mesmo e para a segunda pessoa que mais conhece de mim – meu filho; meu treinador. Ele me animava, o que, naquela altura do campeonato adiantou pouco. Como sempre, ele estava à frente e eu tentava seguir no vácuo, o que não conseguia mais, nem nas decidas. Com isso ele foi distanciando, visto que aproximava a chegada.
Na reta final, que é longa e plana, com vento leve, eu não conseguia passar de vinte quilômetros por hora em uma speed. Sem comentário!
Avistei primeiro a rede de alta tensão, e depois, o posto da Polícia Rodoviária Federal. O posto de combustível era logo depois.
Cheguei arrastando. Muito mal. Sem forças. Debilitado. Um vexame para a família Vilela.
Fernando, que chegara primeiro, já havia comprado dois litros e meio de coca-cola e me esperava à porta da lanchonete, onde estava nosso carro.
Sentei-me na calçada. Tirei tudo que podia. Permaneceu a bermuda. À sombra do prédio tomei um litro de refrigerante quase numa virada. Fernando me apressou para sairmos. Atendi o reclamo e fomos. Menos de quinze minutos minha boca estava seca que nem língua de papagaio. Fiquei preocupadíssimo com o que ocorria. Quando passamos pelo Núcleo Bandeirante, uns vinte quilômetros do posto de abastecimento, parei para comprar água. Tomei meio litro. Dessa forma cheguei em casa.
Fazendo as contas, depois de me pesar na saída e na chegada, considerando a bebida consumida, descobri que, ao total, perdi oito quilos de líquido e só consegui repor quatro. Esse déficit foi suficiente para me nocautear.
Chácara Betânia, 13 de novembro de 2008
Flecha Afiada