sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Lição Aprendida


Antes das oito da manhã, Fernando e eu, chegamos ao posto de combustível, depois do viaduto para Santo Antônio do Descoberto e antes da Polícia Rodoviária Federal, na BR-060 - Brasília-Goiânia. Procuramos, com os olhos, alguém que fosse identificado com ciclista. Do lado esquerdo do bar, avistamos um carro com uma baique dependurada atrás. Rumamos para lá. O primeiro atleta já estava se preparando. Fizemos a mesma coisa enquanto os outros chegavam. Dentre eles, eu conhecia o Boi, a Adélia, o Kid e o Franco. Éramos, ao todo, uns dez.
Todos estávamos prontos mas faltava um que demorava chegar. Quando chegou, em poucos minutos iniciamos nossa incursão.
Pelo que sabia, alguns iriam até as sete-curvas e voltariam, outros iriam até o Jerivá, como era nosso objetivo.
Pelos dias anteriores já sabíamos que naquele também faria muito calor. O céu estava limpo e o sol aparecia com todo vigor.
Saímos pedalando sem pressa, naquela manhã de “todos os santos” – primeiro de novembro. Fernando e Boi na frente, eu logo atrás juntamente com Adélia. Assim fomos, até que Adélia diminuiu sua marcha, e então, nós três seguimos em frente. Os outros ficaram para atrás, ao ponto de não serem vistos.
Depois do rio das sete-curvas, no retorno, Boi disse que esperaria Adélia ali e voltariam. Nos despedimos e fomos.
Agora, era eu e Fernando somente. Um no vácuo do outro, revezando de vez em quando. As decidas eram muitas e freqüentes. O vento estava às nossas costas. A temperatura ainda estava dentro do normal. Tudo ajudava para uma pedalada confortável. Desse modo, com duas horas e vinte e oito minutos, chegamos ao Jerivá.
Eu havia consumido setecentos mililitros de bebida – metade malto, metade repositor hidro-eletrolítico. Tinha em mente a necessidade de me hidratar bem, visto o calor e o sol.
Tiramos todo o equipamento. Acomodamos as baiques de forma segura e fomos nos alimentar e hidratar. Fernando comprou três litros de água e uma coca-cola de um litro e meio. Tomamos o refrigerante e um pouco da água. Abastecemos nossas caramanholas. Eu levava uma grande e uma pequena, historicamente suficiente para um pedal de setenta e cinco quilômetros.
Às onze e vinte pagamos a conta e preparamos para o retorno. Saímos em seguida.
Sabíamos que a volta seria com mais calor, com vento-contra e com mais subidas. Na primeira hora de pedal me senti bem. Tudo o que esperava acontecer estava acontecendo. Sol, calor, vento-contra e subidas. Mas comecei a não render como sei que rederia. Alguma coisa estava errada e eu não identificava. Fernando começou notar a diferença. Agora era somente ele que puxava. Eu ficava sempre no vácuo, mesmo assim, várias eu sobrava.
A velocidade média de volta é menor, sem dúvida. A topografia contribui para isso, além do tempo de pedal e do cansaço, que, com o tempo, chega.
Depois de Alexânia, depois da fábrica da cerveja e depois de uma longa subida, tinha a venda da Baiana. Paramos e tomamos uma coca-cola de seiscentos mililitros. Eu tomei mais que o Fernando. Ficamos devendo o refri pois não havia troco para cinqüenta pilas. Eu só tinha aquela nota. Fiquei de pagar em outra oportunidade, quando por ali passasse.
Dali em diante, o corpo foi fraquejando de forma assustadora. Eu não me reconhecia. O pedal não rendia. A força estava se esvaindo. O calor cada vez mais intenso maltratava sem dó. As subidas pareciam paredes. A baique que era leve pesava o dobro. O hodômetro do ciclo-computador parecia que estava danificado – não aumentava nunca aquela quilometragem. Os cento e cinqüenta e cinco quilômetros ainda estavam longe de serem completados. O tempo estava passando e nada de avistar, no horizonte, algum detalhe do Distrito Federal. Eu sonhava com um balde de água fria sendo derramado na minha cabeça. Seria a solução. Meu corpo pedia água fria.
Com muita demora subimos as sete-curvas. Fernando comentou e eu concordei que, graças a Deus, tínhamos vento contra. Imaginamos subir aquela ladeira interminável sem vento para aliviar um pouco do calor intenso. Já não fazia efeito tomar bebida. Ela estava quente. Parecia que o corpo não agradecia. A boca secava, e eu, em períodos curtos, voltava à caramanhola. Nessa agonia entramos no Distrito Federal e paramos em um mercado no povoado Engenho das Velhas.
Tirei o capacete, as luvas e as sapatilhas. Sentei-me no chão com as pernas estendidas. Escorei as costas na parede.
Fernando comprou uma coca-cola de um litro e meio. Tomamos tudo e logo em seguida preparamos para sair. Não podíamos deixar o corpo esfriar. Faltava pouco para concluir, o que para mim, estava sendo um suplício. Um vexame para mim mesmo e para a segunda pessoa que mais conhece de mim – meu filho; meu treinador. Ele me animava, o que, naquela altura do campeonato adiantou pouco. Como sempre, ele estava à frente e eu tentava seguir no vácuo, o que não conseguia mais, nem nas decidas. Com isso ele foi distanciando, visto que aproximava a chegada.
Na reta final, que é longa e plana, com vento leve, eu não conseguia passar de vinte quilômetros por hora em uma speed. Sem comentário!
Avistei primeiro a rede de alta tensão, e depois, o posto da Polícia Rodoviária Federal. O posto de combustível era logo depois.
Cheguei arrastando. Muito mal. Sem forças. Debilitado. Um vexame para a família Vilela.
Fernando, que chegara primeiro, já havia comprado dois litros e meio de coca-cola e me esperava à porta da lanchonete, onde estava nosso carro.
Sentei-me na calçada. Tirei tudo que podia. Permaneceu a bermuda. À sombra do prédio tomei um litro de refrigerante quase numa virada. Fernando me apressou para sairmos. Atendi o reclamo e fomos. Menos de quinze minutos minha boca estava seca que nem língua de papagaio. Fiquei preocupadíssimo com o que ocorria. Quando passamos pelo Núcleo Bandeirante, uns vinte quilômetros do posto de abastecimento, parei para comprar água. Tomei meio litro. Dessa forma cheguei em casa.
Fazendo as contas, depois de me pesar na saída e na chegada, considerando a bebida consumida, descobri que, ao total, perdi oito quilos de líquido e só consegui repor quatro. Esse déficit foi suficiente para me nocautear.

Chácara Betânia, 13 de novembro de 2008
Flecha Afiada

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Dois Mundos

Sexta-feira, trinta e um de outubro de dois mil e oito da era cristã, dois dias antes do dia dos finados, eu vi uma mulher sem vida. Era uma senhora de uns trinta anos de  idade, que desgastada pela vida, aparentava uma velha. Um metro e cinqüenta e cinco de altura; morena; esquálida. Vestia um longuete de pano escuro, sem detalhes, de manda curta, e  estava sujo. Calçava sandálias tipo havaiana, que pelo uso tinha, na posição dos calcanhares, dois furos. Seu corpo era magro. Suas pernas muito finas. Seus braços – dois palitos. Seus cabelos, escuros e lisos, estavam amarrados em coque. Seus lábios eram finos e descarnados. Sua boca tinha poucos e cariados dentes. Desviava o olhar quando alguém se aproximava. Falava baixo e sem força. Pronunciava substantivos, verbos e alguns pronomes pessoais, porém sem concordância, fazendo o ouvinte exercitar no entendimento.

              Estava no ponto de ônibus abaixo do Palácio do Planalto, em frente a um órgão do governo federal, construído em tábuas.

              Tinha na cabeça um suporte de pano, como aqueles que as mulheres nordestinas poem para carregar lata d'água. Aos pés, tinha um tambor de plástico azul, cheio de água. Como não conseguia ergue-lo para sua cabeça, pedia ajuda a alguém.

              Tinha vindo buscar água para manutenção da sua casa. Morava logo ali, no meio do cerrado, “onde não mora ninguém, onde não passa ninguém, onde não vive ninguém”.

 

              Segunda-feira, três de novembro de dois mil e oito da era cristã, um dia depois de domingo, eu vi um senhor vívido. Era um senhor de uns quarenta anos de idade. Um metro e sessenta e cinco de altura; claro; pele lustrosa. Vestia camisa de algodão fino,  bermuda, e calçava sapatos esportivo, sem meias. Tinha sobre a cabeça óculos de lentes escuras e aro prateado – um legítimo Armani – disse ele. Tinha uma barriga proeminente e estava acima do peso ideal. Seus cabelos eram grisalhos, bem cortados, e tinha a barba raspada. Era falante. Pronunciava palavras claras e com bom Português. Voz forte e solta. Desinibido e de olhar atento.

              Entrou numa ferragista para comprar cadeados com segredo – um para cada porta de quarto da sua pousada, onde descansava.

              Era conhecido do proprietário da loja. Comentou sobre os óculos dizendo que se ele quisesse um semelhante, seria capaz de conseguir-lhe, a preço de custo -  por volta de mil reais. Eu tenho uma revista com a fotografia do Kaká com um desse – disse ele. Você sabe que eu gosto de óculos, tenho mais de oitenta – completou.

              Paguei minha conta e saí.

              Tinha tido a oportunidade de ver dois mundos: o da senhora do ponto de ônibus e o do senhor dos óculos.

              Estou inquieto, até então, quando escrevo sobre os fatos. Já se passaram cinco dias desde que vi a senhora do ponto de ônibus. Ela não me sai da cabeça. Seu fácies me impressiona. Da mesma forma, o senhor dos óculos me perturba profundamente.

              Ela mora, no meio do cerrado, há um quilômetro do Palácio do Planalto. Sem terra, sem teto, sem dinheiro, sem trabalho, sem perspectiva de melhora, sem dignidade, sem plano de saúde, nem saúde, sem futuro, sem educação, sem oportunidade, sem assistência, com mil sens. Pertence a uma “casta inferior”.

              Ele mora em condomínio fechado de classe média alta. Com casa, com área verde, com piscina, com suíte, com banheira, com água quente, com carro de sessenta mil reais, com família, com dinheiro, com renda, com plano de saúde, com perspectiva de vida boa, com dignidade, com futuro, com educação, com oportunidade, com assistência, com seguro, com mil cons. Pertence a uma “casca superior”.

              E daí, de quem é a culpa? Ou, onde está o erro? Muita coisa se pode dizer. Uma delas eu digo: em países onde quase não tem pobreza, o salário do doutor é pouco maior do que o do técnico. O governo assiste a população – tem respeito por ela. Os impostos são gastos devidamente. Há Ubuntu  - humanidade para os outros.

              É assim que se pensa lá. É assim que se procede lá.


                               Chácara Betânia, 5 de novembro de 2008

                                            Flecha Afiada