terça-feira, 2 de novembro de 2010
Vi, conheci, contaram-me
Como em qualquer viagem, vê-se muita coisa fora do costume. Eu também vi.
Vi prédios antigos, e não poucos, caindo aos pedaços. Prédios que retratam a história e a cultura de uma época. Vi, também, prédios restaurados, aparentando novo, que nos transporta à época e nos mostra os costumes, como trabalhavam, o convívio social e a economia. Como empregavam o dinheiro e quais eram os valores para a sociedade. Como as classes sociais se relacionavam e como o negro era tratado.
Vi igreja de branco rico. Vi igreja de branco pobre. Vi igreja de negro. A primeira está no centro da cidade, é grande, tem arquitetura requintada e encima duas torres na fachada. A segunda situa-se fora do centro, é menor, simples, e tem uma torre só. A terceira está na periferia, é pequena, modesta, e de uma só torre.
Vi muita gente sentada nos bancos das praças. Praças calmas. Gente traquila, que só sabe que o tempo passou porque dá fome: é hora do almoço; é hora do jantar; é hora do café. Gente que pede um coco gelado, e dele retira a água como quem sorve a vida.
Vi pau-de-arara como único meio de transporte coletivo. Trafega pelas estradas de areias profundas levando e trazendo gente, verdura, fruta, galinha, cachorro, recado, encomenda...
Vi cartel familiar de pau-de-arara. Um irmão tem a linha da cidade A à B. Na cidade B espera-se, por uma hora, outro irmão que chegará da cidade C. Enquanto isso, já que é meio-dia, almoça-se no restaurante da esposa do outro irmão. Este irmão tem a linha da cidade B à C. Ele chega quando termina o almoço. Então sobe-se no segundo pau-de-arara e continua a viagem, feliz, de barriga cheia, e alguns tostões há menos no bolso.
Conheci uma cidade que é quase um céu. Não tem shopping. Não tem Câmara Legislativa. Não tem violência. Não tem asfalto, nem outro material cobre o chão a não ser areia. Não tem carro com velocidade superior a vinte quilômetros por hora: a areia não deixa. Com isso, não tem atropelamento de pedestre. Não tem semáforo. Não tem barreira eletrônica nem pardal. As ruas são traçadas pela lei-do-menor-esforço. Para ir do ponto A ao B contorna-se o brejo, ou o pé de caju, ou a casa do Seu Zé, ou o morro, ou a duna, ou qualquer outra coisa. O caminho se transforma em rua, e, desta forma, todas as outras ruas seguem a mesma lei. As ruas não têm calçadas. Para quê calçada se se pode usar toda a rua para caminhar? Suas larguras são estabelecidas pelas cercas de arame de um lado e de outro dos lotes. As galinhas, os bodes, os cães, os cavalos, as crianças, os adultos... andam sossegadamente. Não vão longe, é claro, tudo está perto. O parque de diversões pode ser um barco velho, caindo aos pedaços, depositado no gramado em frente a casa. As cisternas são inusitadas: fura-se um buraco com um trado de diâmetro de 20cm. Coloca-se um tubo de PVC de 100mm. Cobre-se o espaço com areia e pronto. Com um instrumento próprio (um tudo de PVC de 75mm) retira-se a água que acumula no tubo maior.
Nesta cidade, vi casas que não têm portas nem janelas. Só têm os vãos. São ventiladas naturalmente.
As pessoas andam descalças ou de chinelo de dedo. De salto, não vi nenhuma senhora andando.
Vi carroças tracionadas por bois. Os cavalos são fracos para o serviço. A areia é mais forte que os cavalos.
A cidade é quase um céu, porque vi botecos, bêbados e cemitério.
Nela, vi uma criança triste que não me sai da memória. Seu olhar fixo no infinito, desconhecendo minha presença e as fotos que dela fazia, me fuzilou. Estava em pé, com as mãos para trás, escorada numa árvore fina. Seu corpo estava sujo. Usava calção azul celeste, calçava chilenos e não vestia blusa. Seus cabelos eram compridos. Não soube se era menina ou menino. As galinhas passavam ao lado correndo atrás de alguma coisa. O casebre, construído no barranco do rio, era de pau-a-pique e coberto com capim.
Vi uma pessoa que vivia o próprio dia. Sua casa estava sendo tragada pala duna. Mas, enquanto isso, esquiava-se de kite surf nas ondas em frente.
Vi gente construindo palhoça em frente a duna que caminha célere para cima dela, como se não existisse duna em movimento.
Vi duna engolindo mangue. Vi mar engolindo duna.
Vi ilha onde se plantava melancia. Hoje só tem areia. A maré-alta lava toda a ilha.
Vi motoqueiro pilotando a moto em areia fofa com uma só mão no guidão, enquanto olhava as horas no relógio no outro braço. Eu era o da garupa. Morria de medo e orava sem parar. Estava sem capacete, é claro. Lá não se usa capacete.
Vi malotes dos Correios chegando à agência em carroça.
Contaram-me que um grupo de comerciantes de uma cidade foi ao promotor de justiça reclamar de uma loja que vendia mais barato. Queriam que a autoridade tomasse providência.
Conheci uma família que me recebeu em sua casa, na ilha do Coroatá, no delta do Parnaíba. Me ofereceu farinha de puba, café, siri e água mineral. Ao final, não me cobrou nada. Disse que era um prazer receber pessoas.
Conheci pescador que não tira férias porque férias não lhe faz o menor sentido. Ele vive de férias o tempo todo.
Vi multidão, todos os dias, subindo a duna para ver o pôr-do-sol no meio do mar como se fosse o último pôr-do-sol.
Vi gente de todos os continentes. Vi gente de tudo que é jeito. Vi gente muito bonita. Vi gente de beleza normal. Vi gente rica. Vi gente simples. Mas não vi mendigo. Nem pedinte. Nem miserável. Não, porque desviasse o olhar de sobre ele, mas porque não o encontrei no meu caminho.
Flecha Afiada
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Alcântara
Dormi aos trancos pensando na viagem. Acordei antes da hora porque o sono se foi. Iria descobrir outro lugar em breve.
Não tive tempo de tomar café no restaurante do hotel por um motivo óbvio: se tomasse café perderia a partida do barco.
Desci a ladeira até a Praia Grande. Comprei o bilhete e esperei sentado dentro do ônibus que levaria os passageiros ao barco que esperava em outro porto. O porto da Praia Grande estava seco. A maré estava baixa.
Chegamos à praia onde o barco estava fundeado. Entreguei o bilhete, que o comissário conferindo, destacou e entregou-me o canhoto.
Subi a escada em que a mulher do francês, dias atrás, se machucou – ouvi o comentário quando aproximei-me da tripulação -. Observei a posição do leste-oeste para descobrir de que lado bateria o sol. Escolhi uma cadeira numa fileira voltada para a lateral do barco. Acomodei-me. Em instantes, o pavimento dos assentos lotou. Logo deu-se a partida. Enquanto estávamos em águas rasas a embarcação singrava tranquila. Depois que ganhou águas mais profundas as ondas aumentaram. O vento soprava forte e o barco era como uma folha ao vento. Passado um tempo, vi pessoas pedindo o saquinho. Não o pedi porque estava de estômago vazio. Aleluia! Deus não deixou-me tomar café poupando-me desse inconveniente.
Chegamos a Alcântara. Porto pequeno e bem estruturado. Uma plataforma recebe os passageiros. Desta, passa-se para uma passarela que leva à terra firme.
Fiz o caminho e cheguei às barracas dos vendedores de comida. Comi um pedaço de bolo de milho acompanhado por um copo de café.
Comprei a passagem de retorno. Garanti, com isso, sair da península no mesmo dia da chegada. A possibilidade de permanecer em Alcântara, por falta de lugar no barco, é reservada aos incautos despreocupados.
A cidade, pelo que ouvi, é do século XVII. Casarões com paredes grossas, construídas com pedras e argamassa. Ruas pavimentadas com pedras irregulares provocam um barulho característico com o passar dos pneus. A moto é o veículo que movimenta com maior desempenho naquelas ruas. Motos altas, como Tornado e Bros, são a maioria.
Visitei casarões. Ouvi histórias de uma sociedade segregacionista. Pouca diferença para os dias atuais. De todas, uma chamou-me a atenção: têm na cidade três igrejas católicas(nada contra a religião católica) – uma, no centro, com duas torres; outra, bem posicionada, mas fora do centro, com uma torre, e uma na periferia, com uma torre. A maior é a primeira. A menor é a última.
A primeira, com duas torres, era a dos brancos ricos. A segunda, com uma torre, era a dos brancos pobres. Esta, longe daquela. A da periferia era a dos negros.
O número de torres, o tamanho da igreja, e sua posição geográfica, era determinado pela cor da pele e da classe social dos fiéis.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
VIAJANDO À NOITE
Para ir de Brasília a São Luís do Maranhão, pagando somente quatro mil milhas do cartão de crédito, é preciso fazer conexão em São Paulo. Foi isso que fiz. Fiquei plantado por duas horas em Guarulhos. Isso não mata ninguém, ainda mais se está de férias.
A aeronave partiu às vinte e três horas e trinta minutos. Levantou vôo e foi. Onze mil metros de altitude. Lá no céu. A Airbus A320 da companhia estava lotado. Eu sentava na poltrona 19F, atrás das asas algumas fileiras.
Li por um tempo até que o sono chegou. Dormi outro tempo, depois acordei. A aeronave estava “parada” no ar. Não se mexia. Imóvel. Um assovio lá fora provocado pelos propulsores e nada mais. Bem, além disso, de vez em quando, só a ressonada do vizinho de poltrona.
Posicionei-me de forma ereta. Encostei a fronte na janela do avião e comecei a observar os pontos de luz na imensidão da noite escura. Acima, estavam as Três Marias - estrelas posicionadas em linha reta e equidistantes umas das outras -. Eu as admiro desde minha infância. Nunca se moveram do lugar. O brilho é o mesmo. A posição é a mesma. Muitas outras estrelas no céu. Nenhuma nuvem. Embaixo, na terra, de vez em quando uma luz. Várias luzes. Uma queimada formando uma poligonal irregular às vezes descontínua. Assim foi por muito tempo.
Cansei-me de observar as mesmas coisas. Peguei um fone de ouvidos e o conectei no ponto. Fui passando pelos canais de músicas até chegar num canal ótimo: kids.
Não sei por que a gente não é capaz de ser brasileiro de verdade. Usar nossa língua com prazer e orgulho. Temos que nos curvar diante do americanismo Senhor do universo e nomear nossas coisas com palavras em inglês para ficar chique. Se não for assim não faz sucesso.
Deixando de lado o "kids", a programação era de primeira linha. Com o olhar fixo no infinito escuro pontilhado de luzes, ouvi as histórias do Gato de Botas e, da Cigarra e a Formiga, por duas vezes. A programação se repetia depois de um período.
Voltei algumas décadas atrás, recordando as histórias tão cheias de verdade e encanto. Voltei a ser o que nunca desisti de ser: criança.
Foram ótimas àquelas horas passadas a três: as estrelas, as histórias e eu.
Fui interrompido com o aviso de ”tripulação preparar para pouso”.
A viagem de três horas passou rápido.
Desci em São Luís às duas e quarenta de uma madrugada quente.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Fazer a nossa parte - dar o exemplo
Analisando o conteúdo das publicações desta editora, constatei, através de detalhado estudo, que a política da empresa é ter quase a metade de suas páginas como veículo de propaganda comercial. Pesquisei três edições, não continuadas, das revistas Veja e Exame. A porcentagem de comercial, por página escrita em cada uma, era respectivamente, 43,75 e 44,47%. Apliquei esta mesma metodologia na publicação da revista A de outra editora, que veicula matéria de mesmo conteúdo de Veja e Exame juntas. A porcentagem em propaganda era de 14,74% das páginas.
Considerando que a editora da revista A é tão boa quanto a editora Abril, tomei seus 14,74% de propaganda como referência e fiz os seguintes cálculos:
Trabalhando com os dados acima, cheguei ao resultado que indica o quanto poderia ser economizado em papel e tinta, no período de um ano, pelas publicações de Veja e Exame.
Revista Veja:
Papel: 3.121,82 t (toneladas)
Tinta: 1.187,00 t
Revista Exame:
Papel: 293,00 t
Tinta: 77,99 t
RESUMO:
Papel: 3.414,82 t
Tinta: 1.264,99 t
PESO TOTAL DE PAPEL E TINTA: 4.679,81 t
Considerando que uma carreta transporta 30 t, encheríamos 160 carretas, ao final de um ano, com papel e tinta.
Planeta Sustentável – campanha da editora Abril. É muito importante, mas a Editora não dá o exemplo. Fica sem credibilidade para continuar a campanha.
Assistindo ao documentário - HOME – NOSSO PLANETA, NOSSA CASA – poderemos ter, se ainda não temos, a noção do que está acontecendo com “nossa casa”, o Planeta Terra.
O poder de recuperar ou destruir “nossa casa” está em nossas mãos. As pequenas ações de cada um são gotas de procedimentos, benéficos ou maléficos. Os oceanos, com bilhões de bilhões de metros cúbicos de água, são formados de gotas. O raciocínio é o mesmo.
O consumidor é o agente mais forte para mudança de paradigmas. Se nós nos conscientizarmos de que o poder nos pertence, poderemos, ainda, salvar nosso lugar de viver. Se acharmos que a coisa não é com a gente, vai chegar a hora em que nossa casa vai pegar fogo, e a casa do vizinho, e a praça, e a rua também. Não teremos para onde correr.
Nos resta pensar detidamente em ações de resultado positivo quanto ao uso e quanto ao consumo das coisas. Cada produto que compramos é um produto produzido a mais e um produto a mais descartado na natureza (o aparelho celular, por exemplo, renovado a cada ano, pois é de graça. A sacola do supermercado).
Durmamos com isso. Pensemos nisso. Falemos disso. Façamos a nossa parte.
Até 2020 sem desmatamento, com o ar menos poluído, e com rios de águas cristalinas.
Obs.: quem desejar a memória de cálculo é só entrar em contato – heliovilela@gmail.com
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
8 ou infinito
O 8 se estiver deitado, é, na matemática, o símbolo de infinito no estudo dos conjuntos.
Dia 26 de julho de 2009 foi um marco na minha vida. Dia em que, pela primeira vez, se quebrou algum osso do meu corpo; a clavícula direita.
Estava treinando descer de baique com a maior velocidade possível.
Um pozinho solto na pista fez a roda dianteira derrapar. Fui ao chão à 40km/h.
- O médico, quando escreveu no prontuário a forma como eu seria engessado, apontou o 8 como um código para o técnico em gesso proceder a operação de aprisionamento dos meus ombros.
No início, a peça que me foi colocada nas costas puxando os ombros para trás, me pareceu um 8, só que deitado (infinito) .
Como diz o ditado – no escuro todo gato é pardo. Na escuridão da minha ignorância empardecida... As aparências enganam. Pensei que, em se tratando de matemática, uma ciência exata, um 8 era sempre um 8. Não. Era miragem. Eu estava no deserto a 50ºC sem água à dois dias.
O que parecia um 8, era, na verdade, uma peça que me provocaria infinita agonia.
Fui ao dicionário saber o significado de alguns vocábulos.
Por exemplo:
aflição: padecimento físico; tortura; grande preocupação ou inquietação; ansiedade, angústia.
tortura: suplício ou tormento violento infligido a alguém; lance difícil.
Na primeira noite, chegando em casa vindo do hospital, posicionei alguns travesseiros de forma adequada para acomodar o braço direito, deitei-me na cama e dormi. Dormi bem.
A partir da segunda noite a coisa pegou. Não sabia que na primeira noite o efeito dos remédios tinha camuflado a dor por que passava meu corpo machucado.
Fui para uma rede. Deitei-me atravessado colocando os pés numa cadeira espreguiçadeira. Abri os braços como sendo crucificado numa cruz de pano e ali passei a noite.
Dali em diante a rede se transformou no lugar oficial para diluir o tempo noturno – dormindo ou tentando dormir. Um chá de capim-santo ajuda muito a tombar um cidadão quase moribundo.
- Quando fui soldado, em plena ditadura militar, soube de que submetiam pessoas contrárias ao regime à tortura. Uma delas era uma gota d'água pingando de tempo em tempo sobre o alto da cabeça.
Uma gota d'água não é nada se pingar uma vez, duas, dez. Mas se não parar vira tortura. Explode a pessoa.
- Meu 8 invertido fez a mesma coisa. No início, por recomendação médica, se ficasse com os braços levantados em asinhas estava resolvido, depois, com o passar das horas, dos dias, e das semanas, pareceu-me como uma gota d'água na cabeça. Alguma coisa que aperta o subaco, aperta as costas. aperta o corpo, e aperta a alma. Faz doer as partes internas dos cotovelos por não ter como apoiá-los devidamente. Obstrui a circulação. Aperta o tendão do supra-espinhal que está completamente rompido motivado por outra queda. Ai, ai, ai...

Essa peça, que significa infinita dor e angústia, me dá muita segurança apesar de sofrimento. Sem ela parece que o ombro tem estrutura de papel. Prefiro sofrer com ela do que viver sem ela. A dor que não passa, o aperto que não cede, e o sufoco que não arrefece estão infinitos, mas não serão para sempre. Esse é o meu consolo. Prefiro
sofrer por um tempo, sabendo que terei uma recuperação satisfatória, do que aliviar a carga e ficar torto para sempre. É um sofrimento que tem um horizonte promissor. É a borboleta saindo do casulo. Se não sofrer para vencer o obstáculo não fortifica suas asas e com isso não voa. Eu quero voar mais longe.
Com tudo se aprende se a mente não é pequena. Se se busca em Deus a tolerância e a força para a superação, recebe como resultado o efeito do vento. Pois o vento que chicoteia a árvore é o mesmo que enrijesse suas fibras.
Tudo isso me tem sido de grande valia.
Tenho tido muitas horas para estudar, para ler, para fazer projetos, para fotografar, para escutar Deus, para falar com Ele, para ouvir o som da natureza, e para acumular energia volitiva para os pedais do ano vindouro.
Dor em dose moderada não é mais problema. Aprendi a conviver com ela.
Agonia me faz sofrer, mas levo numa boa se for suportável. O suportável elevou seu nível, trazendo um diferencial importante.
A tolerância ao sofrimento foi aperfeiçoada. Robusteceu-se.
Essas coisas ajudam na pedalada de resultado. Não se chega a patamar elevado sem sentir dor, sem ser tolerante com ela. A dor faz parte da vitória. É um ingrediente da receita do sucesso no esporte.
Flecha Afiada, volta ao texto, desce das nuvens, para de divagações.
Pelo fato daquilo descobri algumas coisas:
Que a baique é oxigênio no meu sangue. É vida;
Que sou apaixonado por pelo menos quatro coisas: família, baique, livros e fotografia.
Na terra, sem essas coisas, viverei menos.
Chácara Betânia, 25 de agosto de 2009
Flecha Afiada
domingo, 12 de abril de 2009
Início de Temporada
Com esse ardor todo, iniciei a temporada dois-mil-e-nove em dezembro de dois mil e oito. De lá para cá, já se foram quatro meses de treinos metódicos e científicos.
Não sei o que me deu a partir do final de dois mil e oito: a vontade de melhorar meu rendimento é tão grande que pareço criança quando ganha sua primeira bola. Pelo menos era assim na minha infância. E isso não faz muito tempo, ora bolas!
Me preparei para a prova de Araxá treinando muito circuito. Do lado de casa tem circuito de todo jeito. Para engrossar a casca do treino eu vou sempre para o circuito do Abraão. Ainda mais que estou muito chique: suspensão Reba Team de 100mm. É tão boa quanto suspensão ativa de um fórmula-um. Uma coisa eu sei: melhorei bastante meu desempenho em XCO. Da muita adrenalina. É adrenalina o tempo todo. Não tem descanso. Isso é bom; provoca a gente. Insulta. Desafia. Eu gosto disso.
Com tudo isso, eu fui para Araxá na sexta-feira passada, dia três de abril. Saí daqui com Fernando meu filho, e a nora Cristina. Seiscentos e trinta e seis quilômetros percorridos, em pista ótima, é o que nos separa de Araxá. Chegamos ao hotel Colombo às vinte e uma horas. Avistei, bem de perto, a estrutura montada. Tudo pronto para a festa que não é pequena, e cada vez aumenta, mais em todos os sentidos: estrutura, participação (nesse ano: mais de novecentos inscritos), qualidade nos detalhes, e assim vai.
Jantamos em um restaurante bem perto. Fomos a pé.
Dormi quase bem. Igual meu colchão não tem nenhum no mundo.
Acordei às seis e trinta.
Peguei a Nikon e saí para fotografar enquanto esperava o casal acordar. O tempo estava nublado. Não tinha nenhum ponto azul no céu. Era tudo cinza.
Fiquei pensando naquele circuito enlameado. Sacudi a cabeça jogando fora aquele pensamento. Era muito ruim. Melhor mesmo era ter um terreno úmido e sem lama, no ponto de plantar milho.
Fiz algumas fotos, mas sem muito entusiasmo. A luz era muito difusa. Pouco contraste e nenhum brilho. À frente estavam grande paineiras com suas flores roxas, mas nem assim produziam boas fotos. Sem luz quente não tem foto de qualidade. Nem a pau!
Voltei para dentro do hotel e logo encontrei o casal-vinte pronto para o café.
Fomos para o salão e tomamos um café da manhã de primeiríssima qualidade. Que coisa de louco! Contudo - a cabeça estava lá fora – no circuito.
Fernando e eu nos preparamos para o reconhecimento. A pista estaria aberta para os treinos a partir das dez horas. Descemos as baiques pela escadaria do hotel e ganhamos a rua numa descida muito forte. Da porta do hotel até a estrutura do evento era coisa de duzentos metros. Nada mais que isso.
Confirmamos nossas inscrições. Eu recebi o numeral 2004. Esse é meu para todo o ano de 2009.
Às dez horas em ponto a pista foi aberta. Entramos no circuito no primeiro momento.
- Inicia-se num pátio pavimentado e dobrando à esquerda sobe-se um meio-fio à direita e entra-se na mata. Não é bem mata, mas um lugar cheio de grandes árvores sem nenhuma vegetação rasteira, a não ser grama. Curva para a direita; curva para a esquerda, e assim vai numa trilha sinuosa. Chega-se numa rua e tomando-a à direita começa uma subida sem grande importância. Sai-se dela à direita e aí começa o que se pode ser chamado de percurso técnico. Descidas fortes. Subidas íngremes e curtas. Pedras que atrapalham a vida do atleta. Depois desse ponto sobe-se uma rua com pavimento em pedras, onde está o ponto de apoio do atleta, depois disso, ai meu Deus! é sofrimento de dar-com-pau. Entra-se na mata e não sai mais. Mata na encosta de uma serra encravada de pedras. São seis mil e quinhentos metros, em que, pelo menos cinco mil metros, é de subidas e descidas técnicas, com curvas que chegam a trezentos e sessenta graus. Isso mesmo. A gente contorna uma árvore e volta na paralela.
Para alegria de todo mundo - atletas e expectadores - quando se aproxima do final do percurso, próximo ao lago, tem uma velha escada de pedras, com seus degraus desarrumados e com mudança de direção. Quem não tem intimidade com a coisa é melhor descer e empurrar. Quem tem conhecimento do assunto, é só alegria.
Foi assim que eu dei três voltas naquela manhã de sábado.
Não caí nenhuma vez. Também, não zerei tudo. Tem subida izerável. Melhor nem tentar. Nem tentei. Já sabia que era perca de tempo. Quando eu crescer vou zerar tudo. De baixo para cima e de cima para baixo.
O dia continuou nublado. Não mudou hora nenhuma. Não parei de olhar para o céu e de pedir a Deus que, se pudesse, não chovesse até o término da competição, no domingo.
A primeira largada era às sete horas e cinquenta e cinco minutos. Olha aí a precisão do horário. Não era às oito. Sem arredondamento.
No congresso técnico de sábado foi explicado que esses cinco minutos fazia toda a diferença ao final da prova. Aceitei com a maior resignação por conhecer o nível da organização.
Tratei de pedir ao gerente do restaurante a antecipação do café da manhã para não passar sufoco, no que fui atendido prontamente.
Um senhor moreno e ligeiro, com a decisão na ponta da língua, disse sem titubear: “o café será servido a partir das seis e meia”.
Fui dormir olhando para o tempo. Acordei olhando para o tempo. O tempo estava com a cara cinzenta e seca. Aleluia!
Acordei às seis horas.
Fui para o restaurante de roupa de ciclismo, pronto para a largada. Só não calcei a sapatilha para evitar o toc-toc no corredor do hotel.
De café tomado saí do hotel e fui para o aquecimento. Fiquei, juntamente com muitos outros atletas, subindo e descendo a pista que vai à cidade. Foi meia hora de aquecimento contínuo.
Eram vários pelotões no bolsão de largada separados por placas indicativas por categoria.
Me reuni à turma dos mais experientes, à frente dos para-desportistas. Esses sim, são super-homens. Atletas com uma perna só. Um só braço. Perna de metal. Cego de um olho. Todos ali como se fossem completos. Acredito que, na verdade, eles são completos. A gente é que os considera incompletos. Ledo engano.
A largada foi dada na hora marcada. Cada categoria largava com uma defasagem de dois minutos.
Na minha hora tocou a música e a adrenalina subiu à cabeça. O coração acelerou e a concentração aumentou. Olhei para o pé direito clipado ao pedal, conferi as marchas nos câmbios dianteiro e traseiro: coroa do meio com quarta. Logo depois da primeira curva iria para sexta marcha.
Deu-se a largada. Saí com toda a força. Não sou expert em largada. Fiquei entre os cinco primeiros. Percorri a trilha debaixo das grandes árvores fazendo slalons seguidos. Quando chegamos à subida da rua, passei todos que estavam à frente e segui forçando ao máximo.
Lá pelo meio do circuito, numa subida em trilha, um jovem para-desportista me passou pedalando com uma perna só. Depois fiquei sabendo que ele foi à Pequim. Mais adiante eu o passei novamente e adeus.
Eu e Delai trocamos de posição algumas vezes. Antes da escada eu estava em primeiro lugar, e assim mantive até a metade da segunda volta, quando, em uma subida forte, depois da caixa d'água, ele me passou e eu não consegui mais recuperar a posição.
Conclui a prova em segundo lugar – cinquenta e três segundos atrás do primeiro. Para consolo meu, o terceiro só passou depois de seis minutos; menos mal.
segunda-feira, 23 de março de 2009
PERIPÉCIAS
Procurando melhores produtos que aumentassem meu desempenho na baique, comprei nos States, um par de pneus pra lá de top para usar sem câmara. O tal de tubeless, para aderir ao chick do inglesismo, já que não temos personalidade linguística.
Os pneus foram instalados nas rodas conforme manual. Rodei vários dias antes da competição, também, conforme o “manual da experiência ciclística”.
No dia da prova de Sobradinho – 80 km Trip Trial Pedal na Serra – lá estava eu, pronto para competir, e se deixassem, poderia até ganhar.
Na largada, que foi uma desordem total, um dos meus concorrentes conseguiu ir lá para a ponta e largar em posição privilegiada.
Eram muitos competidores. Com isso, até que desembolou, gastou-se muito tempo e com isso fiquei para trás. Muito para trás. Foram trinta minutos de pedal forte para ver “o blusa vermelha” com o numeral 280. Era o cara que eu procurava. Encostei e até descansei um pouco para depois atacar e pegar a dianteira, no asfalto, próximo à fábrica do cimento CIPLAN.
Na subida da vicinal estava à frente sem conseguir identificar meus adversários. Subi forte mas sentindo tranquilidade.
Na descida do quebra-corrente – descida muito técnica e perigosa – há dez metros do seu final o pneu dianteiro estoura e saiu do aro. Não houve acidente, pois estava bem devagar.
Desci da baique. Saí do caminho. Retirei uma câmara de ar que trazia às costas e com o pneu todo melecado do líquido, tive dificuldade para instalar o conjunto na roda. Peguei o gás e injetei-o rapidamente. A câmara furou, ou já estava furada. Nessa hora passou o 280. Depois passaram mais dois. Ia passando um rapaz e eu pedi-lhe uma câmara. Ele prontamente me cedeu a sua. Com a mesma dificuldade dantes instalei o conjunto. Com o segundo gás enchi o pneu. Arrumei as coisas e montei na baique.
Era só prejuízo. Estive parado por doze minutos. Tinha que correr atrás, pois faltavam somente dez quilômetros.
Em pouco tempo estava na pista dos três riachos. Com o coração na boca, coloquei toda força que tinha para avançar o mais que podia.
Por duas vezes avistei atleta com blusa vermelha. Não era o 280. Não arrefeci. Na última descida de pedras, antes de atingir o asfalto, na entrada da cidade, vi, ao longe, outro blusa-vermelha. Dessa vez era o 280. Alcancei-o e passei como uma bala. Faltava um quilômetro para a bandeirada.
Foi o suficiente para colocar um minuto de vantagem.
PERIPÉCIA 2:
Na quarta-feira passada, 18 de março de 2009, meu treino era em subida bem íngreme. A escolhida foi a subida-do-Leo.
Acordei às 5 horas da manhã. Me preparei para o treino com tudo que era necessário: acessórios de segurança, câmara de ar sobressalente, bomba de ar, remendos, caramanhola cheia, etc. Às 6 horas estava saindo de casa.
Fiz o aquecimento e mais dois exercícios subsequentes. Quando olhei para o quadro da baique, para beber água, a caramanhola não estava. Havia caído em algum lugar do planeta. Não sabia onde. Vi que meu treino estava comprometido. De três séries fiz uma e o abortei.
De onde eu estava me encaminhei para o Paranoá, para apanhar o carro no estacionamento do hospital, onde minha esposa o deixou. Encontrei a caramanhola caída, sem tampa e sem líquido, no lado da estrada de terra.
No asfalto, em um cruzamento, com muitos carros passando, levantei na baique para dar um sprint. A corrente saiu da coroa e eu caí violentamente no asfalto rugoso. Levantei muito rápido, com medo de ser atingido por um carro, e ganhei o acostamento de imediato. Senti que avia ralado forte o joelho esquerdo. A palma da mão direita estava dolorida, mas não era hora para averiguar nada. Só senti que não tinha freio traseiro.
Em pouco tempo cheguei onde o carro estava. Fui conferir o prejuízo.
Eu vestia uma calça própria para pedalar. Ainda bem! No joelho direito arrancou uma lasca que foi cortada com uma tesoura quando cheguei a casa. As luvas acabaram. Foram para o lixo. A parte interna do joelho direito foi atingido pelos dentes da coroa e ficaram marcas. O freio traseiro quebrou. Já estava sem freio dianteiro, pois o aro estava nas últimas. A mão direita ficou bem dolorida com a pancada, mas a luva protegeu.
Com isso posto, achei que deveria ter ficado em casa, debaixo dos cobertores, lendo um bom livro e tomando suco de acerola.
