sexta-feira, 28 de agosto de 2009

8 ou infinito

8 é um algarismo arábico usado na matemática desde muito tempo.
O 8 se estiver deitado, é, na matemática, o símbolo de infinito no estudo dos conjuntos.

 Dia 26 de julho de 2009 foi um marco na minha vida. Dia em que, pela primeira vez, se quebrou algum osso do meu corpo; a clavícula direita.
 Estava treinando descer de baique com a maior velocidade possível.
Um pozinho solto na pista fez a roda dianteira derrapar. Fui ao chão à 40km/h.

- O médico, quando escreveu no prontuário a forma como eu seria engessado, apontou o 8 como um código para o técnico em gesso proceder a operação de aprisionamento dos meus ombros.
No início, a peça que me foi colocada nas costas puxando os ombros para trás, me pareceu um 8, só que deitado (infinito) .
Como diz o ditado – no escuro todo gato é pardo. Na escuridão da minha ignorância empardecida... As aparências enganam. Pensei que, em se tratando de matemática, uma ciência exata, um 8 era sempre um 8. Não. Era miragem. Eu estava no deserto a 50ºC sem água à dois dias.
O que parecia um 8, era, na verdade, uma peça que me provocaria infinita agonia.
Fui ao dicionário saber o significado de alguns vocábulos.
Por exemplo:
 aflição: padecimento físico; tortura; grande preocupação ou inquietação; ansiedade, angústia.
 tortura: suplício ou tormento violento infligido a alguém; lance difícil.

Na primeira noite, chegando em casa vindo do hospital, posicionei alguns travesseiros de forma adequada para acomodar o braço direito, deitei-me na cama e dormi. Dormi bem.
A partir da segunda noite a coisa pegou. Não sabia que na primeira noite o efeito dos remédios tinha camuflado a dor por que passava meu corpo machucado.
Fui para uma rede. Deitei-me atravessado colocando os pés numa cadeira espreguiçadeira. Abri os braços como sendo crucificado numa cruz de pano e ali passei a noite.
Dali em diante a rede se transformou no lugar oficial para diluir o tempo noturno – dormindo ou tentando dormir. Um chá de capim-santo ajuda muito a tombar um cidadão quase moribundo.

- Quando fui soldado, em plena ditadura militar, soube de que submetiam pessoas contrárias ao regime à tortura. Uma delas era uma gota d'água pingando de tempo em tempo sobre o alto da cabeça.
Uma gota d'água não é nada se pingar uma vez, duas, dez. Mas se não parar vira tortura. Explode a pessoa.

- Meu 8 invertido fez a mesma coisa. No início, por recomendação médica, se ficasse com os braços levantados em asinhas estava resolvido, depois, com o passar das horas, dos dias, e das semanas, pareceu-me como uma gota d'água na cabeça. Alguma coisa que aperta o subaco, aperta as costas. aperta o corpo, e aperta a alma. Faz doer as partes internas dos cotovelos por não ter como apoiá-los devidamente. Obstrui a circulação. Aperta o tendão do supra-espinhal que está completamente rompido motivado por outra queda. Ai, ai, ai...

Essa peça, que significa infinita dor e angústia, me dá muita segurança apesar de sofrimento. Sem ela parece que o ombro tem estrutura de papel. Prefiro sofrer com ela do que viver sem ela. A dor que não passa, o aperto que não cede, e o sufoco que não arrefece estão infinitos, mas não serão para sempre. Esse é o meu consolo. Prefiro
sofrer por um tempo, sabendo que terei uma recuperação satisfatória, do que aliviar a carga e ficar torto para sempre. É um sofrimento que tem um horizonte promissor. É a borboleta saindo do casulo. Se não sofrer para vencer o obstáculo não fortifica suas asas e com isso não voa. Eu quero voar mais longe.

Com tudo se aprende se a mente não é pequena. Se se busca em Deus a tolerância e a força para a superação, recebe como resultado o efeito do vento. Pois o vento que chicoteia a árvore é o mesmo que enrijesse suas fibras.
Tudo isso me tem sido de grande valia.
Tenho tido muitas horas para estudar, para ler, para fazer projetos, para fotografar, para escutar Deus, para falar com Ele, para ouvir o som da natureza, e para acumular energia volitiva para os pedais do ano vindouro.

Dor em dose moderada não é mais problema. Aprendi a conviver com ela.
Agonia me faz sofrer, mas levo numa boa se for suportável. O suportável elevou seu nível, trazendo um diferencial importante.
A tolerância ao sofrimento foi aperfeiçoada. Robusteceu-se.

 Essas coisas ajudam na pedalada de resultado. Não se chega a patamar elevado sem sentir dor, sem ser tolerante com ela. A dor faz parte da vitória. É um ingrediente da receita do sucesso no esporte.

 Flecha Afiada, volta ao texto, desce das nuvens, para de divagações.

 Pelo fato daquilo descobri algumas coisas:
 Que a baique é oxigênio no meu sangue. É vida;
 Que sou apaixonado por pelo menos quatro coisas: família, baique, livros e fotografia.

Na terra, sem essas coisas, viverei menos.



Chácara Betânia, 25 de agosto de 2009



Flecha Afiada