- Domingo passado, 8 de fevereiro de 2009, feliz da vida, fui fazer mais um treino sério, como sempre treino.
Alex, Gustavo de Goiânia, Felipe Aragão, Fernando e Eu nos encontramos em um ponto, em Sobradinho, para fazermos um percurso, que poderá até ser o percurso da prova Pedal na Serra desse ano.
Saímos socando a bota. Houve até comentário - me disseram que era um treino light e agora vocês socam a bota. Coisa de DNA.
Descemos o “oito-e-meio” na tora e fomos embora, cada um no vácuo do outro, sem afrouxar o ritmo. Eu, é claro, era o elo mais fraco da corrente. Cinquenta e oito anos contra vinte e seis é covardia. Mas como não me importo com esse negócio de idade biológica, pedalava com todas as minhas forças.
Lá na frente, descendo o Mogi, depois de uma virada de noventa graus à direita, tomei a dianteira numa estrada estreita e pedregosa. A pista era em descida suave e sinuosa. Estava de última marcha a uns quarenta por hora, de cabeça baixa, girando forte. Quando vi, a uns vinte metros à frente, uma certa de arame farpado de cinco fios com o colchete fechado cruzando a pista, na entrada da trilha, só deu tempo para o reflexo. Ainda bem que eu estava com a bike de competição que tem rodas de cerâmica e pastilhas de freio do mesmo material. Quando freia a coisa para. Mas para mesmo. Foi a sorte. Freei fortemente. Ela levantou a bunda e eu caí de ponta-cabeça. Parei à cinco metros da cerca. O capacete partiu. A bermuda rasgou. O Cateye quebrou a base. O óculos encheu de terra. O ombro direito bateu com muita força no chão e a coxa direita, na altura da cabeça do fêmur, ficou em carne viva, e outros pontos de contusão de menores proporções.
Todos os outros ciclistas conseguiram parar antes de passarem por cima de mim e darem o golpe de misericórdia.
O Gustavo, que não me conhecia, ficou dos mais preocupado não querendo me deixar levantar, pedindo para eu esperar um pouco.
Levantei meio atordoado. Mapeei os pontos contundidos. Apalpei para ver se estava tudo emendado. Lavei os óculos. Guardei o Cateye no bolso da blusa e começamos de novo.
No início a coisa ficou meio difícil. Ardia tudo, e o ombro direito estava bem comprometido. Desci uma piramba devagar, mas logo a zonzeira passou e eu tomei o ritmo.
Até aquele momento já tínhamos percorrido dez quilômetros dos oitenta. Por experiência, já sabia que não poderia deixar o sangue esfriar. Se deixasse era caixão.
Esfolado, quebrado, e com tudo ardendo, percorremos os outros setenta quilômetros sem quebrar o ritmo.
Eu sentia uma aparência de clavícula trincada. Não conseguia levantar o braço. Não conseguia pedalar em pé.
Passei a mão no ombro. Não detectei ponta de osso saliente. Apertei. Nada mexeu.
Tocamos para frente.
Desse modo chegamos ao ponto de saída, depois de quatro horas de pedal.
Passei as chaves do carro ao Fernando. Ele ajeitou as coisas e voltamos para casa.
Me banhei lavando as feridas. O braço direito era um zero à esquerda. Não conseguia realizar trabalho algum.
Passei pomada anti-inflamatória nos pontos ralados e Gelol no ombro. Tomei um comprimido de Nimesulida (anti-inflamatório) e fui destruir uma montanha de lasanha que me esperava fumegando.
À noite, fui dormir com o corpo dolorido mas sem sofrimento.
Acordei no dia seguinte zerado, pronto para outros oitenta quilômetros de sobe-e-desce.
O único problema que poderia ter acontecido, se eu não tivesse conseguido parar, seria ter sido degolado pelo arame farpado. Só isso.
Acho que queimei uma vida. Agora só restam seis.
Montando uma equação de primeiro grau, considerando minha idade atual como média, e fazendo as contas, chega-se ao seguinte resultado: cinco vezes cinquenta e oito é igual a duzentos e noventa. Mais cinquenta e oito – trezentos e quarenta e oito.
Se não gastar outras vidas pela frente, ainda consigo ir longe.
Vou morrer com uma bela idade.
Ainda vou pedalar muito.
Chácara Betânia, 10 de fevereiro de 2009
Flecha Afiada