segunda-feira, 27 de outubro de 2008

FINAL DE DIA

Era mês de outubro, época de preparação da terra para o plantio da roça. Naquele dia, a capina tinha sido cansativa. O sol fora inclemente. Lá pelas cinco da tarde papai deu o trabalho por encerrado. Voltamos ao rancho de palha, construído no meio da roça, onde guardamos as enxadas e a cabaça com água. Era hora de voltar para casa. Papai pegou um saco de pano, que tinha dentro, uma bacia de alumínio com tampa, que eu trouxera com o almoço. Manoel “Meleta” apanhou o bornal que viera com a merenda, e eu, como era menino, levava simplesmente um corpo cansado. Piloto, nosso cão vira-lata, que estava dormindo debaixo do banco de varas, entendendo tudo, se pôs de pé pronto para a partida.

A roça ficava uns três quilômetros de casa, rio abaixo.
A estrada era estreita, na largura das rodas do carro de bois. Ora tinha muita areia, ora era de terra batida. Dos lados, alguns pés de gabiroba e de caju do campo apareciam às mãos, oferecendo seus frutos. As árvores eram retorcidas e de altura mediana como é característica do cerrado brasileiro.

Eu caminhava atrás de papai, com a cabeça baixa, olhando para meus pés, calçados com botinas surradas, que, ao pisar na areia, afundavam, dificultando os passos. Ninguém se falava. Só se ouvia o barulho dos panos das calças que esfregavam uma perna na outra ao mudar a passada. Manoel “Meleta” tragava seu cigarro de palha e fumo de rolo, soltando fumaça de cheiro forte no ar.
Ao aproximar da sede da fazenda, antes do córrego, a estrada aprofundava em um corte, feito a enxadão, para vencer uma rampa forte. Nos taludes, os teiús e as lagartixas faziam buracos circulares, onde botavam e chocavam seus ovos. Ao aproximarmos foi uma correria geral. Cada um procurando se proteger daqueles enormes seres passantes.
O córrego era pequeno. Sua água era mineral. Cristalina e fria. Corria por dentro da pindaíba até próximo à nossa passagem. Depois da passagem a grama rasteira cobria toda a terra até topar na cerca do quintal.
Pulamos a cerca de madeira roliça, em forma de caixão, ao lado do paiol de milho. Dentro do quintal passamos debaixo de duas mangueiras, um abacateiro, e ao lado de uma moita de bananeira, onde, atrás dela, escondíamos para defecar e urinar. Passando à direita da casa do monjolo, chegamos ao terreiro da casa, onde tinha um varal que mamãe estendia as roupas para secar ao sol. O terreiro estava limpo, como de costume. Mamãe o varia sempre que caíam folhas.
Chegamos pela bica d'água, que passava dentro da varanda. Depois da varanda estava a cozinha. Todas cobertas pelo mesmo telhado. A cozinha era construída de pau-a-pique; telhado de telha colonial que papai comprara do senhor Antenor e trouxera no carro de bois, e piso de terra batida, de formigueiro. O fogão era a lenha. Dentro da cozinha tinha a despensa, onde se guardava, numa prateleira, latas de banha de porco com carne frita imersa nela, latas de arroz, de feijão e algumas panelas vazias. Nada mais.
Cumprimentamos mamãe que já estava com o jantar preparado. Nos assentamos nos bancos de madeira, colocados próximos à parede que dava para o pasto dos cavalos.
Depois de lavar as mãos na bica d'água, cada um, começando por papai, se dirigiu à mesa, no centro da cozinha, onde pegou seu prato e garfo, e, colocando farinha de mandioca, foi ao fogão. Serviu-se de feijão preto, arroz e carne de porco frita. Sentou-se no banco, e sem nenhuma palavra, segurando o prato na mão esquerda, com os dedos bem aberto para sustentá-lo, comeu o quanto quis.
O calor era muito. Motivado por isso, saímos da cozinha e fomos nos assentar no banco de ripas, do lado de fora, encostado na parede, voltado para o terreiro. Piloto já estava deitado no seu buraco costumeiro, feito para passar a noite.
Se fazia lusco-fusco quando nos assentamos no banco. Descalços, com as pernas cruzadas ou estendidas, iniciou-se as conversas sobre coisas da vida. Papai falava do trabalho da fazenda. Da roça. Da plantação. Dos animais. Dos porcos que engordavam no chiqueiro. Das vacas que estavam amojando e dariam à luz antes do final do ano. Se tudo corresse bem seriam vinte vacas paridas até lá. Eu me lembrava do leite espumado que iria tomar, no dia seguinte, dentro do curral.
Eu só ouvia as conversas. “Menino não entra em assunto dos mais velhos” - me ensinara papai.
A noite tomou conta do lugar. Era lua nova. Ninguém via nada. Só se ouvia a voz de quem falava. Um falava, o outro escutava. De quando em vez, fazia silêncio por completo. Só se ouvia o barulho da água da bica, caindo na gamela do monjolo, lá no calabouço.
Passado um tempo, mamãe nos chamou para lavar os pés. Era sexta-feira. Só se banhava no sábado e na quarta, lá no calabouço. A água do balde já estava quente no fogão. Voltando para a cozinha, nos assentamos no banco. Mamãe pegando a bacia, colocava-a em frente de cada um, por sua vez. Colocava água fria e mornava com a água quente. Assim, cada um se preparava para dormir.
Quando chegou minha vez, arregaçando as calças, coloquei os pés dentro da bacia e esfreguei um no outro até dar por limpos. Enxuguei-os com a toalha e calcei os chinelos.
Minha cama, um catre com colchão de palha de milho, me esperava. Tirando a roupa de trabalho, me deitei. Me cobri com a coberta de algodão, tecida no tear da vovó Maria Jerônima. Dormi sono profundo.
- Deitado na rede da varanda do Multi-uso, aqui na chácara, às nove horas da noite, sozinho, ouvindo os grilos, os sapos e nada mais, numa escuridão de fazer gosto, me lembrei daquele dia, há cinqüenta anos, quando tinha oito anos de idade.
Tempo bom que não volta mais.

Chácara Betânia, 26 de outubro de 2008


Flecha Afiada

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O Velho e a Granola

De féria na fazenda dos meus avós paternos, em junho de mil novecentos e sessenta e três, sentado em um dos bancos da cozinha, eu adolescente e várias pessoas adultas, à noite, à luz de candeia, esperando a minha vez de lavar os pés para dormir, ouvi do meu avô, uma história que nunca me esqueci.

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- Um senhor amigo meu, chamado Bregildo, já passado dos cinquenta anos de idade, iniciou-se no pedal, por incentivo de um amigo.

Comprou sua primeira bicicleta à prestação, pois era homem de poucas posses.

Foi tomando gosto pela baique e, sempre que podia, investia algum dinheiro em equipamento, fazendo, com isso, uma melhora gradativa e constante.

Depois de algum tempo pedalando, se meteu em competições, junto com outros ciclistas. O que foi chamando sua atenção foi que quando olhava ao redor, notava ser o mais velho no pedaço. Isso, aparentemente, não lhe intimidou. Se teve efeito negativo foi só com ele mesmo. Eu nunca vi nada.

Veja só o que é experiência: na primeira competição que participou, parou no meio da estrada, no ponto de apoio, para comer pão com goiabada. Bem que poderia ter levado às costas, mas a falta de conhecimento não lhe proporcionou isso. Um tal Abraão tinha passado vazado no mesmo lugar. Nem parou para comer nada – disse-me ele depois. O cara era campeão.

Com o tempo, foi adquirindo mais conhecimento e os treinos em cima da magrela lhe deu melhor condicionamento físico. Emagreceu oito quilos. Afinou. Quem não o via há muito tempo achou que estava doente, tal era a diferença. Sua tia, preocupada, perguntou à filha dele em certa ocasião: seu pai está bem? Está tão magro! A filha explicou que era a bicicleta. Agora, depois de velho, tinha inventado esse negócio de pedalar.

Os anos foram passando, e Bregildo, cada vez mais gostando do esporte. Num tempo desse, largou tudo e foi pras Minas Gerais competir entre gente de todo o Brasil, com coisa que era bom ciclista. Levou uma surra que até hoje se lembra. Caiu no meio do mato com a cara numa terra preta que chegou de pele trocada. Só o conheceram pelo número da placa. Virou africano puro. Alguns dos seus parentes, quando viram o retrato, tirado não se sabe por quem, suspeitaram que era maldição de Saci Pererê. Ainda bem que depois de um bom banho sua cor foi restaurada. Sua consciência também o foi. Entendeu que não passava de um ciclista mais-ou-menos e que tinha que ficar quieto na roça, de onde saíra.

Não conformando com a situação, foi treinando mais forte. De vez em quando chegava com a bunda ferida de tanto pedalar. Sua esposa, dona Zezé, ficava preocupada com aquilo, mas falar não resolvia. Era teimoso; cabeça dura. Quando virava a cara numa direção não adiantava conversa. Ia até o fim. Ainda bem que nunca se estrumbicou. Deus tem tido misericórdia dele.

Há pouco tempo, faltou vender os porcos do chiqueiro para, de novo, ir competir longe. Dessa vez foi lá no sul. Num estado que nem conhecia de nome, chamado Paraná. É bem longe daqui. À cavalo, gasta uma vida para chegar lá. Mas, obstinado como sempre foi, fez dívida, empenhou os filhos, vendeu leitão e conseguiu com um amigo seu, que mora na currutela (povoado à dez quilômetros da fazenda), um tal de cartão de crédito, com o qual se pode comprar as coisas para pagar depois. Resumindo – conseguiu ir para a tal competição – campeonato brasileiro de bicicleta.

No hotel, no café da manhã, tinha um produto que lhe chamou a atenção. O colega de quarto lhe disse que aquilo se chamava granola e era bom para dar força na hora da prova. Colocou uma porção no prato e amassou banana por cima. Comeu com jeito, pois parecia cascalho. O sabor era bom. Comeu mais um pouco. Sentiu fortalecido.

Compra-se o produto em sacos de um quilo. Custa caro pra caramba. Três dúzias de ovos por um quilo de granola.

Não é de ver que o danado ganhou a competição! Mas também tinha que ter alguma coisa por trás disso. Um competidor estava gripado, o outro furou o pneu e o outro se perdeu pelo mato. Era uma turma de velhos que fazia dó. Tudo isso ele me contou depois que chegou. Eu fiquei calado para não lhe desmotivar, mas esse negócio de matuto se meter com coisa de gente de cidade não dá certo. Uma hora dessas a gente vai encontrá-lo caído na estrada; morto, com formiga na boca. Tudo por causa dessa invenção de andar de bicicleta.

Bregildo, nesses dias, estava, de novo, comendo granola misturada com banana. Ele gosta muito. Quando sentiu uma dor na gengiva, foi verificar o que tinha acontecido. Olhou no espelho e viu o estrago. Um dos dentes molares havia rachado ao meio. Com a ponta dos dedos segurou o dente e constatou que a lasca era grande. Pesquisou com a ajuda de um alfinete e concluiu que não evitaria o trabalho do dentista. Não bastasse a dívida com a viagem para o sul, agora era a vez da dívida com o dentista.

Mandou recado pelo leiteiro para acertar o dia em que iria consultar com o dr. Pedro, o dentista. Na terça-feira, às quatro e meia da tarde, disse o leiteiro, ao retornar no dia seguinte.

No dia acertado, pegou carona no caminhão do leite e foi para a cidade. Na hora certa dr. Pedro o atendeu.

Como vai seu Bregildo, tudo bem?

Tudo bem, nem tanto. Com o que aconteceu estou comendo só de um lado.

Vamos lá ver esse dente.

Deitou-se na cadeira com a boca para cima, arreganhada como boca de hipopótamo. Com uma seringa e uma agulha muito fina dr. Pedro começou a injetar anestesia na gengiva. Cada picada Bregildo segurava com mais força a cadeira. Quase arrancou os braços do gabinete. Por fim, depois de várias aplicações, dr. Pedro levantou para esperar o remédio fazer efeito.

Ligando o equipamento, o motorzinho começou a zunir nos seus ouvidos. Depois de algum tempo concluiu-se que não tinha outro jeito. Tinha que extrair o dente. A rachadura tinha sido de cima abaixo.

Podemos marcar a extração para outro dia, disse dr. Pedro.

Pode ser agora? Perguntou Bregildo.

Pode, disse dr. Pedro.

Enquanto assa, frita – diz o ditado – disse Bregildo.

Com isso dr. Pedro preparou para extrair o dente. O motorzinho, de novo, começou a zunir. Foram trinta minutos intermináveis até que se deu por concluído o trabalho. O dente tinha resistido bravamente em seu alojamento, mas depois de muita luta saiu aos pedaços.

Agora, Bregildo está mais leve um dente e pensa seriamente em parar de comer granola.

Se não tivesse conhecido gente de cidade, não teria conhecido bicicleta nem granola. Estaria na roça cuidando das coisas e teria seu dente inteiro. Agora, desdentado, tem dificuldade para comer rapadura e carne seca.

É nisso que dá a tal de evolução, disse meu avô.

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Depois de lavar os pés, fui dormir pensando no que tinha ouvido. Sonhei com meus dentes todos quebrados e eu desesperado não sabia o que fazer. Acordei suando frio. Depois do susto adormeci. Acordei de novo, na madrugada, com meu avô me chamando, para irmos moer cana-de-açúcar no engenho.

Chácara Betânia, 14 de outubro de 2008


Flecha Afiada

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

DE BRASÍLIA A PIRI

Fui acordado às quatro horas da manhã pelo despertador do quarto do Elias. Meio preguiçoso, fiquei na cama por mais cinco minutos. Não tendo outra opção, me preparei para descer do primeiro andar. A escada daquele – beliche-escritório, cama-suspensa ... - não passa em nenhuma norma técnica de escada desse mundo. Beliche-escritório porque em baixo da cama está uma mesa com a parafernália computacional do meu amigo hospedeiro. Escalei-o, de ré e sem cordas, até colocar os pés no piso do quarto. Me considerando um alpinista, fui para o banheiro fazer o que a maioria dos mortais fazem pela manhã depois que acordam.

                O dono da casa já estava na cozinha cuidando dos afazeres domésticos. Em pouco tempo  estávamos devorando carboidratos e potássios, ou seja, pães e bananas. Ciclista nenhum que se prese sai de casa sem se preparar adequadamente. Considerando-me dos dez mais do planeta ciclístico, estava lá eu e os pães: integral, de batata, com queijo, de centeio, etc. Se pão fizesse campeão eu seria absoluto no ponto mais alto de todos os pódios dessa terra.

                As caramanholas já estavam na geladeira. Foram contadas estrategicamente para todo o percurso: uma grande e uma pequena no quadro da baique; duas grandes nas costas e a mamadeira com quatro power-géis também. Peguei-as todas e acrescentei malto e repositor hidro-eletrolítico. Agitei-as para diluir o soluto e em pouco tempo a mistura estava preparada.

                Eu vestia calça comprida preta, blusa de manga longa do Piki da Trilha e calçava sapatilhas próprias para pedalar. Elias, como apoiador, vestia calça leve e solta, blusa do Piki da Trilha e botas para caminhada.

                Pegamos Moreninha - minha baique - várias caixas com a tralha de apoio que estava na sala, e a mochila com roupas. Descemos pelo elevador de serviço até a garagem onde colocamos tudo no Toyota. Elias amarrou Moreninha com tanta força que ela se sentiu sufocada. Não reclamou porque é muito paciente. Se fosse eu, seria diferente, com certeza.

                Entramos no carro e saímos em direção ao Guará, naquela manhã quente de domingo. Elias dirigia com muito cuidado pois àquela hora – quatro e tanto da manhã - o pessoal da naite estava voltando com a cara cheia de “suco etílico”. Chegamos à casa do Luizinho às cinco horas. Ele já havia saído com Mário e Juliano. Adélia nos esperava do lado de dentro do portão. No que nos viu, desligou as luzes e saiu. Depois dos cumprimentos seu celular tocou. Do outro lado o Luizinho disse - ”você não sabe o que me aconteceu”, e parou de falar. Adélia nervosa disse em voz alta - “fala logo”. Aí a bomba explodiu. Fui atropelado, disse ele, mas estou  bem. Ela procurou saber em que posição da pista ele estava e, depois de certificar, saímos o mais rápido que a prudência permitia. Olhando atentamente para frente íamos procurando alguma coisa que nos indicasse o local do acidente.

                Na pista que liga o Guará com Núcleo Bandeirante, na curva, depois do córrego, quase em frente a velha estação ferroviária, avistamos um aglomerado de pessoas e um carro parado fora da pista voltado para o mato. Identificamos que eram eles e Elias tratou de estacionar em posição segura.

                Descendo rapidamente, vimos Luizinho sentado no chão com a roupa suja de terra. Seu rosto estava com um ferimento no nariz e outro na face próximo daquele. Ele segurava o ombro esquerdo com a mão direita, mantendo todos os dedos bem abertos, como que tentando não deixar a peça cair aos pedaços.

                Aos poucos, fomos nos inteirando do que havia acontecido e, cada vez mais, nos convencíamos de que os estragos eram pequenos em relação à violência do impacto. O motorista – um rapaz de vinte e um anos – se postava próximo ao Vectra vermelho tentando falar conosco sem ser ouvido. Fazia vária ligações justificando seu ato insano e, ao mesmo tempo, reclamava com seus ouvintes de que não queria ter saído naquela noite, mas saiu por insistência, e agora estava naquela enrascada.

                Decidimos chamar a polícia e o bombeiro. Nesse momento, o motorista, quase desesperado, nos implorava para não fazermos aquilo, porque senão ele seria preso, pois havia bebido mesmo e o exame iria comprovar. Queria resolver o problema entre nós, como homens. Nessa hora, tomando a palavra, dei-lhe uma dura, visto que nos havia chamado de inflexíveis.

                A polícia e o bombeiro chegaram ao mesmo tempo. Foram inteirando do ocorrido e iniciando os procedimentos de praxe. Adélia ficou atenta para não deixar o motorista falar com os policiais em particular, para evitar suborno.

                Os bombeiros, depois de examinarem Luizinho, o liberaram, justificando que ele estava consciente e sem maiores escoriações, recomendando, porém, que deveria ir ao hospital fazer exames para avaliação.

                Outros ciclistas que fariam parte do pedal foram avisados do ocorrido e estavam se dirigindo para nos encontrar. Logo chegou Daniel Silva.                        

                Quem via as marcas no chão, o estrago na baique e o buraco no vidro traseiro do carro, concluía que havia acontecido um milagre. Luizinho, com o choque, voou por sobre o Mário e o Juliano e foi parar à mais de vinte metros de distância. A roda traseira da baique virou um V para dentro do aro e, no vidro do carro abriu-se um buraco com a silhueta do acidentado.

                O dia já estava claro. Elias tomou da máquina fotográfica e, no modo filmadora, registou o máximo que pode, tendo o cuidado de filmar o carro, o buraco no vidro e a placa.

                Com tudo isso, as coisas haviam mudado de rumo. Mário, que se livrou do acidente por estar na frente do pelotão de três, tinha decidido que não iria mais. Pegou a banana que trazia às costas e me entregou. Elias que iria nos apoiando, tomou a responsabilidade de cuidar dos procedimentos legais e de saúde do Luizinho. Adélia, como namorada do ex-quase morto, nem pensou duas vezes para abandonar tudo e acompanhá-los.

                Eu e Juliano transferimos nossas coisas para o carro do Daniel e, depois de despedirmos, desejando que Deus os abençoasse, saímos em direção a Samambaia, onde outros ciclistas deveriam estar nos esperando.

                Chegamos ao posto Texaco. Logo avistamos, do lado esquerdo do pátio de abastecimento, ao lado da rodovia, Franco e Júlio, que nos esperavam desde às cinco e quarenta e cinco. Já eram seis e vinte. Contando o ocorrido sem muitos detalhes nos preparamos para partir. O carro do Daniel seria levado de volta por sua cunhada que nos fazia companhia.

                Depois de todos os acertos feitos nas baiques; todas as checagens feitas por cada um em si mesmos; vimos que nada mais faltava a não ser partir. Éramos cinco ilesos.

                Saímos enfileirados evitando tomar parte da pista de rolamento da rodovia. Dessa forma, fomos até o centro da cidade de Santo Antônio do Descoberto, em Goiás, bem na divisa com o Distrito Federal.

                Em frente a uma padaria, paramos, para atender ao pedido do Júlio que havia saído de casa sem comer nada. Estacionados na ilha central da rua principal da cidade, ficamos esperando.

                As pessoas movimentavam por todo lado, envolvidas que estavam com coisas da eleição municipal. Era dia de votação. Carros com adesivos de candidatos. Cabos eleitorais com “santinhos” colados nos peitos. Aglomerações de simpatizantes em frente aos comitês políticos. Papéis de campanha espalhados pelas ruas. Polícia postada em frente aos colégios guardando as urnas. Gente em fila, esperando a hora para confirmar sua escolha.

                Bares fechados devido a “lei seca”. Casas de materiais de construção abertas, esperando, sabe-se lá quem. Curiosos nas ruas observando quem passava. Carros velhos, barulhentos e fumegantes, batendo lata ao passarem pela rodovia esburacada que adentra à cidade, vindo da Cidade Eclética. Quebra-molas intermináveis deitados na pista, como bêbados, emperrando o fluxo, ajudando os buracos à forçarem todo mundo à rodar devagar quase parando.

                Logo que saímos da cidade em direção à Cidade Eclética, um raio da roda traseira do Juliano quebrou. A roda empenou e, com isso, sua viagem ficou comprometida. Avaliando o conjunto, aconselhei-o a voltar, para evitar um problema maior lá no meio do nada, onde não tinha sinal de celular para pedir socorro, nem quem o resgatasse. Com a cara de quem dizia “de novo!” ele despediu e voltou.

                Agora éramos quatro. Já estávamos pedalando fora da cidade, em pista asfaltada. A rodovia estava bem conservada. Subíamos e descíamos rodando pelos campos cobertos de capim verde. Os arbustos se vestiam com folhas novas esperando as chuvas que prometiam não demorar. A paisagem convidava à uma foto. O horizonte enfumaçado denunciava o que fizeram com a vegetação por aquelas bandas. O sol das oito horas informava como seria aquele dia. Ninguém se enganava que o calor seria forte em todo o tempo.

                Eu pedalava no meu ritmo, olhando sempre para trás, observando como estava o grupo. Júlio subia forte e sempre me passava do meio para o fim da ladeira. Daniel ficava para trás e Franco estava no meu vácuo.

                Diminuindo a marcha, esperei que Daniel se aproximasse. Quando nos alcançou disse que não estava bem e iria voltar dali. Como minha mochila estava em seu carro, que iria depois para Pirenópolis, quis saber como se daria isso. Ele disse que entregaria meus pertences ao Elias quando chegasse a Brasília. Confessou que estava desmotivado pelo que aconteceu com o Luizinho e que se considerava cansado já naquela altura.

                Não tendo o que contestar, nos despedimos e cada um tomou seu destino.

                Próximo da Cidade Eclética passamos por um ciclista que pedalava uma “barra forte sem câmbio”. Lentamente, seguia em direção ao povoado, com seu chapéu de aba larga e roupa de festa. Tudo certo, pois era dia de eleições.

                Depois de uma curva, seguia uma longa reta que levava à praça do povoado. De longe avistava a loja Maçônica com seu símbolo característico. Chegando mais perto, vi vários carros estacionados debaixo de árvores e pessoas conversando em grupos. Outros carros trafegavam pela rua principal, que também é uma rodovia.

                Um senhor, dentro do seu fusca, ao celular, passou raspando em mim sem dar atenção. Estava ocupado com assunto diferente.

                Mais polícia. Mais colégio com pessoas à porta querendo votar. Mais cabos eleitorais. Mais tudo que se viu na cidade anterior. Treze quilômetros separam uma da outra. Tudo igual na manifestação popular, nas conversas e no modo de encarar o ciclista. Dali em diante era estrada de terra. Por ela se ia para as bandas de Cocalzinho, Corumbá e Pirenópolis.

                Passando apressado, nosso pelotão de três, ganhou a estrada e fomos em frente. O chão, ora de cascalho, ora de terra batida, estava ótimo para desenvolver nossa viagem. Felizes da vida e animados, continuamos em velocidade regular. Reservávamos energia, pois, cento e trinta quilômetros não se roda sem esse cuidado. Ou tem juízo na cabeça, ou desiste no meio do caminho. No meio do caminho não tem nada: não tem telefone; não tem resgate; não tem hotel;  não tem cama fresquinha; não tem bebida; não tem tv com aqueles programas cretinos que tomam o tempo da maioria dos que não gostam de ler; não tem cachoeira. Só tem calor, e quando muito, uma árvore educada que te oferece sua sombra.

                Não querendo correr o risco de me quebrar, pedalava moderadamente.

                Descobrimos, logo no início, que nenhum de nós sabia como chegar a Pirenópolis passando por Cocalzinho. Um pequeno detalhe para quem tem boca e olhos. Diz o adágio popular: quem tem boca vai a Roma. Como nosso destino era bem mais perto, sabíamos que com algumas informações acertaríamos o caminho e chegaríamos ao ponto intermediário – Cocalzinho.

                Logo à frente estava a descida da Jibóia. Longa para quem sobe. Para nós – que delícia! Descíamos com o vento na cara, segurando nos freios para não passar reto nas curvas. No final dela uma ponte estreita sobre um riacho escondido na mata ciliar e uma curva acentuada para a esquerda em subida forte.

                Uma fumaça no barranco do riacho denunciava a presença de gente. Vários acampantes em pé, do lado de fora de suas barracas, aqueciam ao sol. Passando à mil-por-hora não tive tempo de saber quantos eram, mas eram vários.

                Para fugir do estresse da cidade grande, um barranco de córrego, no meio do mato, é mais do que bem-vindo.

                Suspeito que descendo de outros povos. Quando vejo: mato, córrego, cachoeira, vale, serra, pedreira, ai que loucura! Dá vontade de abortar tudo e correr para lá e ficar por mil anos aproveitando das delícias daquela “solidão” cheia de bichos, sons, folhas, forma, luz, sombra, paz, paz, paz... Devo ser um Tupi original. As coisas não acontecem por acaso: é por isso que meu codinome é Flecha Afiada. Flecha vive no mato. Só tem utilidade lá na selva. Na cidade, dependurada em paredes ou dentro de um pilão, como ornamento, é o fim. Quem faz isso  subjuga-a ao ostracismo. É desvirtuar o dom que Deus lhe deu. É matá-la de sofrimento e aos poucos.

                À frente, vi uma pista à direita e me lembrei dos 70km de Ceilândia de dois mil e sete. Naquela prova, logo que virei à direita vi meu filho – Fernando Vilela – parado com a corrente quebrada. O coração apertou, mas eu não tinha a ferramenta que lhe resolveria o problema.

                Várias estrada secundárias derivavam daquela que seguíamos, suscitando-nos dúvidas. Quando avistei uma casa do lado direito da pista notei que dois homens, agachados, conversavam. Parando, lhes perguntei como ir a Aparecida, povoado à vinte e três quilômetros da Cidade Eclética. Um deles acenando com o braço direito indicou que era seguir em frente. Agradecendo, parti decididamente.

                Poucos carros passavam pela pista. O solo estava sem poeira. Assim, percorríamos sem nos sujar.

                Quanto mais avançávamos menos movimento. De vez em quando, alguém numa moto – o veículo mais versátil da zona rural de agora – passava por nós. Algumas vezes aproveitava a oportunidade e  certificava do caminho correto.

                Comecei a notar que Júlio ficava nas subidas e que Franco estava no meio de nós três. Várias vezes parei para esperá-los.

                Chegamos a Aparecida. Eu tinha a intenção de comprar refrigerante para aplacar o calor. Passando vagarosamente pela rua principal, quiçá única, via todos os bares fechados. Era dia de eleição. Lei seca – proibido vender bebida alcoólica. Mas refrigerante não é bebida alcoólica! Parece que por ali só vendia a “marvada”.

                Caminhavam na minha direção três rapazes com adesivos de candidatos nos peitos. Parando e descendo da baique perguntei a um deles qual o caminho para Morrinhos – outro povoado à frente. Com muita educação me indicou com detalhes por onde seguir – naquela placa branca o senhor vira à direita, passa o mata-burro e vai pela estrada.

                Nas fazendas da região cria gado. Os pastos são extensos e o horizonte fica longe. A visão é privilegiada. Observa-se os contornos dos córregos, as pequenas moitas de mato e a divisão dos pastos pelas cercas de arame. A estrada é identificada por um pequeno sinal, que, na maioria das vezes, segue uma cerca.

                Naquele sobe-e-desce da estrada, comecei a sobrar na frente, e por várias vezes esperei meus companheiros, até que, numa dessas interrupções, Hugo, Diego e Paulo me alcançaram. Eu estava parado próximo a uma cerca de arame liso, em cima da baique, com um pé apoiado num fio.

                Cumprimentamo-nos, e depois de me certificar do caminho, eles foram. Fiquei meio impaciente olhando para trás, tentando ver se “meu pelotão” aproximava. Demorou para Júlio chegar. Perguntei se estava tudo bem. Com a justificativa de que havia dormido pouco, estava cansado, ofegante. Notei que a empreitada estava difícil para ele. Não podia fazer nada a não ser esperá-lo, mas isso era muito penoso para um Flecha impaciente.

                Saímos dali, e eu na frente, pedalava querendo alcançar Hugo e turma, mas não queria deixar o “pelotão”. Essa equação se mostrou de solução impossível; duas incógnitas. Três pedalando forte na frente; dois pedalando leve atrás, e eu, no meio, querendo agrupar os atletas.

                Morrinhos estava logo à frente.

                O pelotão da dianteira, usando de misericórdia, marcou no chão a direção correta com uma seta. Isso foi tudo o que precisávamos para não errar.

                Foi fácil chegar a Morrinhos. De novo, não havia nenhum bar aberto pelo mesmo fato que levou Aparecida “ao toque de recolher aos bares”.           Na praça, debaixo de uma árvore frondosa, estavam alguns homens conversando. Cumprimentando-os passei sem parar, até que, depois do cemitério, encontrei uma bifurcação. Com toda a dúvida do mundo dei meia volta e fui me inteirar do caminho.

                Um deles, apontando para uma árvore à frente, me mostrou o sinal da estrada, que, contornando o morro, seguia no campo limpo bem adiante. É só seguir o corredor – me disse o informante.

                Voltei ao ponto da dúvida. Júlio estava deitado debaixo de um arbusto. Franco esperava sobre a baique. Sem demora, tomei a estrada que dobrava à esquerda, e por uma subida longa, porém suave, fui pedalando contornando o morro pelo seu lado esquerdo em sentido horário. Quando encontrei uma bifurcação vi no chão a seta marcada, mas mesmo assim, esperei o “pelotão”. Demorou horrores para Júlio chegar. Depois daquele ponto a estrada tomava um corredor, que, sem condições de erro, induzia ao caminho certo.      

                O chis da equação foi resolvido “abandonando” um dos termos. Aí ficou uma só equação com uma incógnita. A equação – chegar a Cocalzinho; a incógnita – por qual caminho? O caminho estava marcado: seguir pelo corredor para sempre e sempre.

                A partir dali imprimi meu ritmo - constante, firme e determinado.

                O campo se abriu. O horizonte se distanciou. A relva era rasteira e tinha sido queimada recentemente. Com a persistência da natureza, mesmo depois do fogo, os brotos cresciam como se nada tivesse acontecido. O milagre repete a cada ano. As plantas do cerrado resistem. Resta saber se os micro-organismos, os pequenos seres vivos que participam da transformação da matéria orgânica em adubo, continuam ali proporcionando à fertilização do solo. O tempo dirá. Se a resposta for NÃO o deserto estará batendo às portas de todos nós e deserto não tem clemência de ninguém.

                Pedalava observando tudo. O solo daquele lugar era úmido e pedregoso. O lençol freático era aflorado. A vegetação era característica de terreno molhado. O capim, em forma de tubos bem finos, espetava o vento. Os arbustos teimosos, continuavam ali tentando introduzir suas raízes entre as pedras à procura de água e alimento. O alimento era pouco. O solo arenoso não guardava nutrientes em abundância. Essa situação, porém, não minimizava em nada a beleza e a riqueza que o cerrado tem.

                Nesse ambiente, pedalei por muito tempo. Uma fazenda aqui, outra ali.

                Nas estradas já se via o restolho das “pedras de Pirenópolis” servindo como pavimento nos lugares críticos em época chuvosa.

                Olhando em frente avistei a serra dos Pireneus, que há milhões de anos está ali criando no horizonte um contorno movimentado, quebrando a monotonia do reto. Cocalzinho, à frente e  à  baixo, agora era uma realidade. Do lado direito, um grande vale, coberto por palmeiras de um verde escuro, me chamava a atenção. A vontade era explorar cada ponto e pisar cada metro quadrado para usufruir da bênção do conhecer, do ver-de-perto, do apalpar, do sentir e do cheirar.

                O pedalar era um momento único. Tinha tempo para agradecer a Deus por um caminhão de bênçãos recebidas. Tinha tempo para introspecção. Para lembrar de pessoas queridas. Para orar por coisas importantes. Para abençoar nosso Brasil que tanto sofre nas mãos dos maus-caráteres que nós mesmos elegemos. Para olhar para o próprio corpo e ver que mesmo aos quase cinquenta e oito anos ainda tem força e saúde em abundância. Para olhar para o azul do céu e dar GLÓRIA A DEUS pela maravilha da criação que não me canso de admirar. Para entender o que é liberdade. Para sentir paz e desfrutar dela, sem ter que pagar a fatura depois. Para sorver o vento que chega e passa, sem saber de onde vem, nem para onde vai, e no seu caminho, distribui oxigênio para uns, gás carbônico para outros, mantendo o equilíbrio da vida.

                Chegar a Cocalzinho foi a consequência de caminhar para frente focado num objetivo. Mas também foi a perda de um corolário de bênçãos que se desfrutava no campo.

                Ao entrar na cidade, pela rodovia, por baixo da fábrica de cimento, avistei Hugo, Diego e Paulo que já saíam em direção a Pirenópolis. Paramos e trocamos algumas palavras. Perguntei quem poderia me emprestar algum dinheiro para eu tomar um refrigerante e comer alguma coisa. Meus documentos e dinheiro estavam no bolso da mochila de costas do Júlio que ainda estava  à caminho. Hugo prontamente tirou dez reais do bolso e me deu. Paulo apanhou dois pacotes de biscoitos e me entregou. Prometendo pagar-lhe o empréstimo quando chegasse a Pirenópolis nos  despedimos.

                Cada um seguiu seu objetivo do momento. Eles em direção à serra dos Pireneus. Eu em direção ao mercado mais próximo.

                Na esquina à frente, vi um pequeno comércio. Fui até lá. Desci da baique. Tirei as luvas, o capacete e os óculos. Coloquei tudo sobre o banco de madeira instalado sobre a calçada, de frente para a rodovia. O suor escorria pela testa. Os cabelos estavam molhados. O calor era intenso. Sem pressa, entrei no mercado. Um senhor de estatura mediana e barriga avantajada, com cara de dono, estava sentado detrás do balcão semi-circular. Perguntei se tinha refrigerante. Ele respondeu afirmativamente dando a sugestão de um de 600 ml. Concordei. Comprei. Paguei. Saí e fui para o banco de madeira na calçada. Sentei. Recostei no espaldar que era simplesmente uma tábua.  Abri as pernas esticando-as e apontando os pés para cima, tentando relaxar o mais que podia. Pressionando a tampa com a mão esquerda abri o refrigerante. Um biscoito tipo integral e um gole de bebida. Assim foi até consumir tudo que tinha. Sem pressa, procurei uma lata de lixo para depositar os que sobraram – as embalagens.

                Na rua, passavam carros com motivos de campanha eleitoral. Algumas pessoas prognosticavam o resultado para prefeito da cidade: ele vai ganhar no primeiro turno.

                Descansado, recoloquei o que tinha tirado – óculos, capacete e luvas.

                Este era o último trecho do percurso - a serra dos Pireneus. De cá estava Cocalzinho. De lá estava Pirenópolis. Já havia passado por ali há muito tempo, quando fui com a turma do Pikí da Trilha a cidade de Goiás. Como tenho GPS na cabeça não teria nenhum problema de acertar o caminho. Se passei uma vez tinha grande probabilidade de passar novamente sem perguntar à ninguém.

                Saí pedalando pela rua lateral em sentido Corumbá até a segunda esquina, onde dobrei à direita. Passei do lado da delegacia de polícia e segui em frente. Esta rua era a saída da cidade para as bandas dos Pireneus. A rua era asfaltada, limpa e deserta. Bandeiras de partidos políticos, nas suas cores convencionais e com um número ao centro, hasteadas em frente as casas, tremulavam ao vento.

                Passei por um casal que caminhava a passos lentos no mesmo sentido que eu. Pelo jeito estavam vindo do compromisso cívico – votar.

                Era meio-dia. Sol à pino. Trinta e três graus centígrados na cabeça. A luz forte refletindo nos telhados de zinco era amortecida pelos óculos escuro que usava. Eles eram próprios para pedalar. Protegiam os olhos da luz forte, do vento, da poeira e de corpos estranhos que porventura estivessem no “caminhos dos olhos”.

                Envolvido por uma doce solidão saí, sabendo que, se nada de errado acontecesse, chegaria dentro de uma hora e pouco. Dobrei à esquerda, logo adiante, deixando a BR de terra que seguia em frente. Algumas poças de lama me esperavam pela estrada. Bom sinal. Chuva em setembro, em quantidade para formar poças, era coisa boa. A vegetação demonstrava o efeito benéfico das chuvas. Tudo verde. Os frutos de Pequi, dependurados pelas pontas dos galhos, se mostravam à meio caminho da maturação.

                A subida começava em breve, logo depois de uma estrada destruída pelas águas de enxurrada que desceram da serra. Reduzi marcha e mandei ver. Com pedaladas de quem está com a vida ganha, fui escalando aquela estrada pedregosa. Desviava de uma pedra aqui, de outra ali e assim ia “comendo a sopa quente pelas bordas”.

                Uma construção nova e bem feita, do lado esquerdo da pista, com um portal à frente, indicava a entrada do Parque Estadual Serra dos Pireneus. O portal estava aberto e não tinha ninguém para controlar quem chegava. Passei observando aquele posto de controle com olhos de engenheiro. Aprovei a obra. Tinha a aparência de ser bem feita. Pedra de Pirenópolis em forma de escamas, revestiam as paredes. Esquadrias de madeira fechavam os vãos de iluminação.

                A ladeira era longa. À direita, via-se um vale que estendia abaixo mostrando toda a beleza da região. À esquerda, a serra imponente exigia que olhasse para cima para ver seu topo. Grandes formações de pedras antigas e desgastadas pela intempérie convidavam para um passeio exploratório. Ao lado da pista, uma pequena vala me lembrava que, da outra vez que ali passei corria um filete de água cristalina e fresca. Dessa vez não ouvia seu barulho. Percebi que o leito estava seco. O lençol freático ainda estava baixo. Continuei observando tudo o que as vistas conseguiam ver. Uma hora era o capim. Outra hora era o horizonte. O vale à meia distância me convidava a descer a serra e viver ali por mil anos sem voltar à “civilização” cheia de violência, de suborno, de mentiras, de depredação, de ganância, de... É melhor parar de enumerar essas coisas senão a gente fica louco. Uma antena repetidora de tv, no ponto mais alto da serra, destoava – era o preço da “evolução”. Vá dizer ao povo que de agora em diante não haverá mais tv – noventa e nove por cento morre, na hora, por ataque cardíaco. Só de pensar que não vai mais ver a novela das oito nem o próximo big brother com todas as formas de mediocridade reunidas num só local.

                Subia lentamente num pedal ritmado, com mais vontade de parar do que continuar. Mais à frente vi um filete de água que tanto esperava encontrar. Parei a baique. Desci. Tirei o capacete, os óculos e as luvas. Saí a procura de um local em que pudesse encher a caramanhola. Logo encontrei. Parado ali, observando aquela água filtrada pelo solo; fresca e cristalina, abaixei e meti a garrafinha em um pequeno poço. Bebi vários goles de água. Sentindo-me saciado, comecei a despejá-la pela cabeça aplacando o forte calor. Lavei o rosto suado. Molhei a nuca e o pescoço. Passei a mão no peito para completar o serviço. Voltei para a baique com outro vigor. Me arrumei novamente e saí agradecendo a Deus pelas bênçãos espalhadas pelo caminho, à minha espera.    

                Estava completando a ladeira, mas ainda faltava passar pela moita de mato. Ao adentrá-la pela estrada estreita, a temperatura era amena. O sol, respeitando as árvores que se faziam numerosas, resolveu se esconder dando lugar à sombra. Sentindo-me como um intruso, me vi no meio do “salão principal da Ópera da Natureza”. Como por um sonho, não vi ninguém, mas ouvi um coral de mil vozes dando um concerto. Com um detalhe – não havia maestro nem instrumentos, só vozes. Um coral onde ninguém desafinava nem saía do ritmo. Todos os habitantes se faziam presentes. Não se ouvia nenhuma palavra. Nenhuma conversa paralela. Eu era o único estranho na platéia. Não tinha reservado lugar nem comprado ingresso, mesmo assim, meu espaço, em posição estratégica, estava desocupado. Que privilégio!

                Não esperava encontrá-las ali naquela hora. Falta de memória, pois quem não sabe que na aproximação das chuvas as cigarras saem dos seus esconderijos e subindo nas árvores cantam até morrer?

                Senti vontade de parar; deitar de costas por sobre as folhas secas, imóvel como um defunto, e viver aquele momento para sempre. Que vontade de transformar utopia em realidade. Que desejo de baixar os céus e estabelecê-lo ali. Ansiei transformar os homens em Adãos e Evas antes da queda.

                Mesmo fora de mim, continuei pedalando como se nada tivesse acontecido. Vendo o filme da minha vida ninguém seria capaz de notar por onde andei e o que vi. Só eu vi, ouvi e senti.

                Logo em seguida, a estrada ganhava um planalto coberto de cerrado. O morro Cabeludo estava solitário do lado esquerdo da pista, pois uma placa avisava que as visitas estavam suspensas. 

                Uma moto aproximou e passou trepidando nas costelas-de-vaca. Eu percorria pelas bordas da estrada tentando me livrar daquele sofrimento. Subindo e descendo pequenas elevações me aproximei da cachoeira do Lázaro. Resolvi entrar e tomar um banho de cachu, como disse o Hugo. Ao passar pelo portão de entrada, um senhor saiu de dentro de uma Kombi e se apresentou como o porteiro. Perguntei-lhe se tinha que pagar alguma coisa. Ele me disse – quinze reais. Sentindo-me espoliado, e, como só tinha no bolso o troco de dez reais do que me sobrou da compra em Cocalzinho, sem descer da baique, dei meia volta e continuei como se nada tivesse acontecido.

                Logo depois, no “mirante”, vários motoqueiros de motocross, sentados nos bancos de madeira, jogavam conversa fora, ao lado do vendedor de água gelada. Decidi parar para o último descanso, pois, já avistava, lá embaixo, a cidade de Pirenópolis. Montado na baique com os pés no chão, me aproximei do vendedor, cumprimentando a todos. Um dos motoqueiros, olhando para mim, disse – esse é profissional, ganhou Corumbá. Assenti, fazendo um gesto característico e um sorriso discreto.

                Comprei uma garrafinha com água gelada. Tomei-a toda. Despedi do pessoal e parti para concluir a empreitada.

                Dali em diante era mão nos freios, porque a descida era acentuada e longa. Não sabia que além disso tinha muita costela-de-vaca. Muita mesmo.

                Moreninha – a baique de treino que me levava - tinha uma suspensão pouco melhor do que nada. Muito próximo do nada. Senti muita falta de um amortecedor eficiente. Não podia soltar os freios, porque senão, tanto a baique como eu, iríamos nos desmontar por completo. Dessa forma desci a ladeira até ganhar o asfalto da chegada. Por ele segui observando as placas indicativas de pousadas e clubes nas proximidades do rio que passa dentro da cidade.

                Num instante estava sacolejando nas pedras irregulares das ruas de Pirenópolis.

                Rumei-me em direção à ponte porque intencionava me derreter nas águas frias do rio. Num minuto atravessei-a, e descendo as pedras, estacionei Moreninha. Olhei no ciclo-computador e vi marcado – cento e trinta quilômetros. Era essa a distância percorrida desde o Guará – cidade satélite de Brasília. Tirei tudo que tinha direito até ficar somente com a calça de pedalar. Se tirasse também ela, ficaria nu. Resisti à tentação. Contive-me em obediência à lei. Me joguei naquele poço de água fria onde várias pessoas  banhavam. Deixei apenas a cabeça fora d'água até sentir refrescado.

                Eram quase duas horas da tarde. Saí da água. Vesti a roupa, e, montando Moreninha, fui para o restaurante da praça.

                 Chácara Betânia, 13 de outubro de 2008

FLECHA AFIADA