segunda-feira, 27 de outubro de 2008

FINAL DE DIA

Era mês de outubro, época de preparação da terra para o plantio da roça. Naquele dia, a capina tinha sido cansativa. O sol fora inclemente. Lá pelas cinco da tarde papai deu o trabalho por encerrado. Voltamos ao rancho de palha, construído no meio da roça, onde guardamos as enxadas e a cabaça com água. Era hora de voltar para casa. Papai pegou um saco de pano, que tinha dentro, uma bacia de alumínio com tampa, que eu trouxera com o almoço. Manoel “Meleta” apanhou o bornal que viera com a merenda, e eu, como era menino, levava simplesmente um corpo cansado. Piloto, nosso cão vira-lata, que estava dormindo debaixo do banco de varas, entendendo tudo, se pôs de pé pronto para a partida.

A roça ficava uns três quilômetros de casa, rio abaixo.
A estrada era estreita, na largura das rodas do carro de bois. Ora tinha muita areia, ora era de terra batida. Dos lados, alguns pés de gabiroba e de caju do campo apareciam às mãos, oferecendo seus frutos. As árvores eram retorcidas e de altura mediana como é característica do cerrado brasileiro.

Eu caminhava atrás de papai, com a cabeça baixa, olhando para meus pés, calçados com botinas surradas, que, ao pisar na areia, afundavam, dificultando os passos. Ninguém se falava. Só se ouvia o barulho dos panos das calças que esfregavam uma perna na outra ao mudar a passada. Manoel “Meleta” tragava seu cigarro de palha e fumo de rolo, soltando fumaça de cheiro forte no ar.
Ao aproximar da sede da fazenda, antes do córrego, a estrada aprofundava em um corte, feito a enxadão, para vencer uma rampa forte. Nos taludes, os teiús e as lagartixas faziam buracos circulares, onde botavam e chocavam seus ovos. Ao aproximarmos foi uma correria geral. Cada um procurando se proteger daqueles enormes seres passantes.
O córrego era pequeno. Sua água era mineral. Cristalina e fria. Corria por dentro da pindaíba até próximo à nossa passagem. Depois da passagem a grama rasteira cobria toda a terra até topar na cerca do quintal.
Pulamos a cerca de madeira roliça, em forma de caixão, ao lado do paiol de milho. Dentro do quintal passamos debaixo de duas mangueiras, um abacateiro, e ao lado de uma moita de bananeira, onde, atrás dela, escondíamos para defecar e urinar. Passando à direita da casa do monjolo, chegamos ao terreiro da casa, onde tinha um varal que mamãe estendia as roupas para secar ao sol. O terreiro estava limpo, como de costume. Mamãe o varia sempre que caíam folhas.
Chegamos pela bica d'água, que passava dentro da varanda. Depois da varanda estava a cozinha. Todas cobertas pelo mesmo telhado. A cozinha era construída de pau-a-pique; telhado de telha colonial que papai comprara do senhor Antenor e trouxera no carro de bois, e piso de terra batida, de formigueiro. O fogão era a lenha. Dentro da cozinha tinha a despensa, onde se guardava, numa prateleira, latas de banha de porco com carne frita imersa nela, latas de arroz, de feijão e algumas panelas vazias. Nada mais.
Cumprimentamos mamãe que já estava com o jantar preparado. Nos assentamos nos bancos de madeira, colocados próximos à parede que dava para o pasto dos cavalos.
Depois de lavar as mãos na bica d'água, cada um, começando por papai, se dirigiu à mesa, no centro da cozinha, onde pegou seu prato e garfo, e, colocando farinha de mandioca, foi ao fogão. Serviu-se de feijão preto, arroz e carne de porco frita. Sentou-se no banco, e sem nenhuma palavra, segurando o prato na mão esquerda, com os dedos bem aberto para sustentá-lo, comeu o quanto quis.
O calor era muito. Motivado por isso, saímos da cozinha e fomos nos assentar no banco de ripas, do lado de fora, encostado na parede, voltado para o terreiro. Piloto já estava deitado no seu buraco costumeiro, feito para passar a noite.
Se fazia lusco-fusco quando nos assentamos no banco. Descalços, com as pernas cruzadas ou estendidas, iniciou-se as conversas sobre coisas da vida. Papai falava do trabalho da fazenda. Da roça. Da plantação. Dos animais. Dos porcos que engordavam no chiqueiro. Das vacas que estavam amojando e dariam à luz antes do final do ano. Se tudo corresse bem seriam vinte vacas paridas até lá. Eu me lembrava do leite espumado que iria tomar, no dia seguinte, dentro do curral.
Eu só ouvia as conversas. “Menino não entra em assunto dos mais velhos” - me ensinara papai.
A noite tomou conta do lugar. Era lua nova. Ninguém via nada. Só se ouvia a voz de quem falava. Um falava, o outro escutava. De quando em vez, fazia silêncio por completo. Só se ouvia o barulho da água da bica, caindo na gamela do monjolo, lá no calabouço.
Passado um tempo, mamãe nos chamou para lavar os pés. Era sexta-feira. Só se banhava no sábado e na quarta, lá no calabouço. A água do balde já estava quente no fogão. Voltando para a cozinha, nos assentamos no banco. Mamãe pegando a bacia, colocava-a em frente de cada um, por sua vez. Colocava água fria e mornava com a água quente. Assim, cada um se preparava para dormir.
Quando chegou minha vez, arregaçando as calças, coloquei os pés dentro da bacia e esfreguei um no outro até dar por limpos. Enxuguei-os com a toalha e calcei os chinelos.
Minha cama, um catre com colchão de palha de milho, me esperava. Tirando a roupa de trabalho, me deitei. Me cobri com a coberta de algodão, tecida no tear da vovó Maria Jerônima. Dormi sono profundo.
- Deitado na rede da varanda do Multi-uso, aqui na chácara, às nove horas da noite, sozinho, ouvindo os grilos, os sapos e nada mais, numa escuridão de fazer gosto, me lembrei daquele dia, há cinqüenta anos, quando tinha oito anos de idade.
Tempo bom que não volta mais.

Chácara Betânia, 26 de outubro de 2008


Flecha Afiada

Um comentário:

Anônimo disse...

Meu amigo cumpadi Flecha Afiada;

Tua verve ferve de criatividade e nos faz viajar nas asas do tempo, que voa e nos leva aos lugares mais espetaculares dessa maravilhosa vida de aventuras, que aprecia melhor quem consegue enxergar os mistérios escondidos nos detalhes.

Abs,

Elias
www.pikidatrilha.com.br