sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O Velho e a Granola

De féria na fazenda dos meus avós paternos, em junho de mil novecentos e sessenta e três, sentado em um dos bancos da cozinha, eu adolescente e várias pessoas adultas, à noite, à luz de candeia, esperando a minha vez de lavar os pés para dormir, ouvi do meu avô, uma história que nunca me esqueci.

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- Um senhor amigo meu, chamado Bregildo, já passado dos cinquenta anos de idade, iniciou-se no pedal, por incentivo de um amigo.

Comprou sua primeira bicicleta à prestação, pois era homem de poucas posses.

Foi tomando gosto pela baique e, sempre que podia, investia algum dinheiro em equipamento, fazendo, com isso, uma melhora gradativa e constante.

Depois de algum tempo pedalando, se meteu em competições, junto com outros ciclistas. O que foi chamando sua atenção foi que quando olhava ao redor, notava ser o mais velho no pedaço. Isso, aparentemente, não lhe intimidou. Se teve efeito negativo foi só com ele mesmo. Eu nunca vi nada.

Veja só o que é experiência: na primeira competição que participou, parou no meio da estrada, no ponto de apoio, para comer pão com goiabada. Bem que poderia ter levado às costas, mas a falta de conhecimento não lhe proporcionou isso. Um tal Abraão tinha passado vazado no mesmo lugar. Nem parou para comer nada – disse-me ele depois. O cara era campeão.

Com o tempo, foi adquirindo mais conhecimento e os treinos em cima da magrela lhe deu melhor condicionamento físico. Emagreceu oito quilos. Afinou. Quem não o via há muito tempo achou que estava doente, tal era a diferença. Sua tia, preocupada, perguntou à filha dele em certa ocasião: seu pai está bem? Está tão magro! A filha explicou que era a bicicleta. Agora, depois de velho, tinha inventado esse negócio de pedalar.

Os anos foram passando, e Bregildo, cada vez mais gostando do esporte. Num tempo desse, largou tudo e foi pras Minas Gerais competir entre gente de todo o Brasil, com coisa que era bom ciclista. Levou uma surra que até hoje se lembra. Caiu no meio do mato com a cara numa terra preta que chegou de pele trocada. Só o conheceram pelo número da placa. Virou africano puro. Alguns dos seus parentes, quando viram o retrato, tirado não se sabe por quem, suspeitaram que era maldição de Saci Pererê. Ainda bem que depois de um bom banho sua cor foi restaurada. Sua consciência também o foi. Entendeu que não passava de um ciclista mais-ou-menos e que tinha que ficar quieto na roça, de onde saíra.

Não conformando com a situação, foi treinando mais forte. De vez em quando chegava com a bunda ferida de tanto pedalar. Sua esposa, dona Zezé, ficava preocupada com aquilo, mas falar não resolvia. Era teimoso; cabeça dura. Quando virava a cara numa direção não adiantava conversa. Ia até o fim. Ainda bem que nunca se estrumbicou. Deus tem tido misericórdia dele.

Há pouco tempo, faltou vender os porcos do chiqueiro para, de novo, ir competir longe. Dessa vez foi lá no sul. Num estado que nem conhecia de nome, chamado Paraná. É bem longe daqui. À cavalo, gasta uma vida para chegar lá. Mas, obstinado como sempre foi, fez dívida, empenhou os filhos, vendeu leitão e conseguiu com um amigo seu, que mora na currutela (povoado à dez quilômetros da fazenda), um tal de cartão de crédito, com o qual se pode comprar as coisas para pagar depois. Resumindo – conseguiu ir para a tal competição – campeonato brasileiro de bicicleta.

No hotel, no café da manhã, tinha um produto que lhe chamou a atenção. O colega de quarto lhe disse que aquilo se chamava granola e era bom para dar força na hora da prova. Colocou uma porção no prato e amassou banana por cima. Comeu com jeito, pois parecia cascalho. O sabor era bom. Comeu mais um pouco. Sentiu fortalecido.

Compra-se o produto em sacos de um quilo. Custa caro pra caramba. Três dúzias de ovos por um quilo de granola.

Não é de ver que o danado ganhou a competição! Mas também tinha que ter alguma coisa por trás disso. Um competidor estava gripado, o outro furou o pneu e o outro se perdeu pelo mato. Era uma turma de velhos que fazia dó. Tudo isso ele me contou depois que chegou. Eu fiquei calado para não lhe desmotivar, mas esse negócio de matuto se meter com coisa de gente de cidade não dá certo. Uma hora dessas a gente vai encontrá-lo caído na estrada; morto, com formiga na boca. Tudo por causa dessa invenção de andar de bicicleta.

Bregildo, nesses dias, estava, de novo, comendo granola misturada com banana. Ele gosta muito. Quando sentiu uma dor na gengiva, foi verificar o que tinha acontecido. Olhou no espelho e viu o estrago. Um dos dentes molares havia rachado ao meio. Com a ponta dos dedos segurou o dente e constatou que a lasca era grande. Pesquisou com a ajuda de um alfinete e concluiu que não evitaria o trabalho do dentista. Não bastasse a dívida com a viagem para o sul, agora era a vez da dívida com o dentista.

Mandou recado pelo leiteiro para acertar o dia em que iria consultar com o dr. Pedro, o dentista. Na terça-feira, às quatro e meia da tarde, disse o leiteiro, ao retornar no dia seguinte.

No dia acertado, pegou carona no caminhão do leite e foi para a cidade. Na hora certa dr. Pedro o atendeu.

Como vai seu Bregildo, tudo bem?

Tudo bem, nem tanto. Com o que aconteceu estou comendo só de um lado.

Vamos lá ver esse dente.

Deitou-se na cadeira com a boca para cima, arreganhada como boca de hipopótamo. Com uma seringa e uma agulha muito fina dr. Pedro começou a injetar anestesia na gengiva. Cada picada Bregildo segurava com mais força a cadeira. Quase arrancou os braços do gabinete. Por fim, depois de várias aplicações, dr. Pedro levantou para esperar o remédio fazer efeito.

Ligando o equipamento, o motorzinho começou a zunir nos seus ouvidos. Depois de algum tempo concluiu-se que não tinha outro jeito. Tinha que extrair o dente. A rachadura tinha sido de cima abaixo.

Podemos marcar a extração para outro dia, disse dr. Pedro.

Pode ser agora? Perguntou Bregildo.

Pode, disse dr. Pedro.

Enquanto assa, frita – diz o ditado – disse Bregildo.

Com isso dr. Pedro preparou para extrair o dente. O motorzinho, de novo, começou a zunir. Foram trinta minutos intermináveis até que se deu por concluído o trabalho. O dente tinha resistido bravamente em seu alojamento, mas depois de muita luta saiu aos pedaços.

Agora, Bregildo está mais leve um dente e pensa seriamente em parar de comer granola.

Se não tivesse conhecido gente de cidade, não teria conhecido bicicleta nem granola. Estaria na roça cuidando das coisas e teria seu dente inteiro. Agora, desdentado, tem dificuldade para comer rapadura e carne seca.

É nisso que dá a tal de evolução, disse meu avô.

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Depois de lavar os pés, fui dormir pensando no que tinha ouvido. Sonhei com meus dentes todos quebrados e eu desesperado não sabia o que fazer. Acordei suando frio. Depois do susto adormeci. Acordei de novo, na madrugada, com meu avô me chamando, para irmos moer cana-de-açúcar no engenho.

Chácara Betânia, 14 de outubro de 2008


Flecha Afiada

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