terça-feira, 21 de setembro de 2010
Alcântara
Dormi aos trancos pensando na viagem. Acordei antes da hora porque o sono se foi. Iria descobrir outro lugar em breve.
Não tive tempo de tomar café no restaurante do hotel por um motivo óbvio: se tomasse café perderia a partida do barco.
Desci a ladeira até a Praia Grande. Comprei o bilhete e esperei sentado dentro do ônibus que levaria os passageiros ao barco que esperava em outro porto. O porto da Praia Grande estava seco. A maré estava baixa.
Chegamos à praia onde o barco estava fundeado. Entreguei o bilhete, que o comissário conferindo, destacou e entregou-me o canhoto.
Subi a escada em que a mulher do francês, dias atrás, se machucou – ouvi o comentário quando aproximei-me da tripulação -. Observei a posição do leste-oeste para descobrir de que lado bateria o sol. Escolhi uma cadeira numa fileira voltada para a lateral do barco. Acomodei-me. Em instantes, o pavimento dos assentos lotou. Logo deu-se a partida. Enquanto estávamos em águas rasas a embarcação singrava tranquila. Depois que ganhou águas mais profundas as ondas aumentaram. O vento soprava forte e o barco era como uma folha ao vento. Passado um tempo, vi pessoas pedindo o saquinho. Não o pedi porque estava de estômago vazio. Aleluia! Deus não deixou-me tomar café poupando-me desse inconveniente.
Chegamos a Alcântara. Porto pequeno e bem estruturado. Uma plataforma recebe os passageiros. Desta, passa-se para uma passarela que leva à terra firme.
Fiz o caminho e cheguei às barracas dos vendedores de comida. Comi um pedaço de bolo de milho acompanhado por um copo de café.
Comprei a passagem de retorno. Garanti, com isso, sair da península no mesmo dia da chegada. A possibilidade de permanecer em Alcântara, por falta de lugar no barco, é reservada aos incautos despreocupados.
A cidade, pelo que ouvi, é do século XVII. Casarões com paredes grossas, construídas com pedras e argamassa. Ruas pavimentadas com pedras irregulares provocam um barulho característico com o passar dos pneus. A moto é o veículo que movimenta com maior desempenho naquelas ruas. Motos altas, como Tornado e Bros, são a maioria.
Visitei casarões. Ouvi histórias de uma sociedade segregacionista. Pouca diferença para os dias atuais. De todas, uma chamou-me a atenção: têm na cidade três igrejas católicas(nada contra a religião católica) – uma, no centro, com duas torres; outra, bem posicionada, mas fora do centro, com uma torre, e uma na periferia, com uma torre. A maior é a primeira. A menor é a última.
A primeira, com duas torres, era a dos brancos ricos. A segunda, com uma torre, era a dos brancos pobres. Esta, longe daquela. A da periferia era a dos negros.
O número de torres, o tamanho da igreja, e sua posição geográfica, era determinado pela cor da pele e da classe social dos fiéis.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
VIAJANDO À NOITE
Para ir de Brasília a São Luís do Maranhão, pagando somente quatro mil milhas do cartão de crédito, é preciso fazer conexão em São Paulo. Foi isso que fiz. Fiquei plantado por duas horas em Guarulhos. Isso não mata ninguém, ainda mais se está de férias.
A aeronave partiu às vinte e três horas e trinta minutos. Levantou vôo e foi. Onze mil metros de altitude. Lá no céu. A Airbus A320 da companhia estava lotado. Eu sentava na poltrona 19F, atrás das asas algumas fileiras.
Li por um tempo até que o sono chegou. Dormi outro tempo, depois acordei. A aeronave estava “parada” no ar. Não se mexia. Imóvel. Um assovio lá fora provocado pelos propulsores e nada mais. Bem, além disso, de vez em quando, só a ressonada do vizinho de poltrona.
Posicionei-me de forma ereta. Encostei a fronte na janela do avião e comecei a observar os pontos de luz na imensidão da noite escura. Acima, estavam as Três Marias - estrelas posicionadas em linha reta e equidistantes umas das outras -. Eu as admiro desde minha infância. Nunca se moveram do lugar. O brilho é o mesmo. A posição é a mesma. Muitas outras estrelas no céu. Nenhuma nuvem. Embaixo, na terra, de vez em quando uma luz. Várias luzes. Uma queimada formando uma poligonal irregular às vezes descontínua. Assim foi por muito tempo.
Cansei-me de observar as mesmas coisas. Peguei um fone de ouvidos e o conectei no ponto. Fui passando pelos canais de músicas até chegar num canal ótimo: kids.
Não sei por que a gente não é capaz de ser brasileiro de verdade. Usar nossa língua com prazer e orgulho. Temos que nos curvar diante do americanismo Senhor do universo e nomear nossas coisas com palavras em inglês para ficar chique. Se não for assim não faz sucesso.
Deixando de lado o "kids", a programação era de primeira linha. Com o olhar fixo no infinito escuro pontilhado de luzes, ouvi as histórias do Gato de Botas e, da Cigarra e a Formiga, por duas vezes. A programação se repetia depois de um período.
Voltei algumas décadas atrás, recordando as histórias tão cheias de verdade e encanto. Voltei a ser o que nunca desisti de ser: criança.
Foram ótimas àquelas horas passadas a três: as estrelas, as histórias e eu.
Fui interrompido com o aviso de ”tripulação preparar para pouso”.
A viagem de três horas passou rápido.
Desci em São Luís às duas e quarenta de uma madrugada quente.