segunda-feira, 20 de setembro de 2010

VIAJANDO À NOITE

Para ir de Brasília a São Luís do Maranhão, pagando somente quatro mil milhas do cartão de crédito, é preciso fazer conexão em São Paulo. Foi isso que fiz. Fiquei plantado por duas horas em Guarulhos. Isso não mata ninguém, ainda mais se está de férias.

A aeronave partiu às vinte e três horas e trinta minutos. Levantou vôo e foi. Onze mil metros de altitude. Lá no céu. A Airbus A320 da companhia estava lotado. Eu sentava na poltrona 19F, atrás das asas algumas fileiras.

Li por um tempo até que o sono chegou. Dormi outro tempo, depois acordei. A aeronave estava “parada” no ar. Não se mexia. Imóvel. Um assovio lá fora provocado pelos propulsores e nada mais. Bem, além disso, de vez em quando, só a ressonada do vizinho de poltrona.

Posicionei-me de forma ereta. Encostei a fronte na janela do avião e comecei a observar os pontos de luz na imensidão da noite escura. Acima, estavam as Três Marias - estrelas posicionadas em linha reta e equidistantes umas das outras -. Eu as admiro desde minha infância. Nunca se moveram do lugar. O brilho é o mesmo. A posição é a mesma. Muitas outras estrelas no céu. Nenhuma nuvem. Embaixo, na terra, de vez em quando uma luz. Várias luzes. Uma queimada formando uma poligonal irregular às vezes descontínua. Assim foi por muito tempo.

Cansei-me de observar as mesmas coisas. Peguei um fone de ouvidos e o conectei no ponto. Fui passando pelos canais de músicas até chegar num canal ótimo: kids.

Não sei por que a gente não é capaz de ser brasileiro de verdade. Usar nossa língua com prazer e orgulho. Temos que nos curvar diante do americanismo Senhor do universo e nomear nossas coisas com palavras em inglês para ficar chique. Se não for assim não faz sucesso.

Deixando de lado o "kids", a programação era de primeira linha. Com o olhar fixo no infinito escuro pontilhado de luzes, ouvi as histórias do Gato de Botas e, da Cigarra e a Formiga, por duas vezes. A programação se repetia depois de um período.

Voltei algumas décadas atrás, recordando as histórias tão cheias de verdade e encanto. Voltei a ser o que nunca desisti de ser: criança.

Foram ótimas àquelas horas passadas a três: as estrelas, as histórias e eu.

Fui interrompido com o aviso de ”tripulação preparar para pouso”.

A viagem de três horas passou rápido.

Desci em São Luís às duas e quarenta de uma madrugada quente.

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