Sexta-feira, trinta e um de outubro de dois mil e oito da era cristã, dois dias antes do dia dos finados, eu vi uma mulher sem vida. Era uma senhora de uns trinta anos de idade, que desgastada pela vida, aparentava uma velha. Um metro e cinqüenta e cinco de altura; morena; esquálida. Vestia um longuete de pano escuro, sem detalhes, de manda curta, e estava sujo. Calçava sandálias tipo havaiana, que pelo uso tinha, na posição dos calcanhares, dois furos. Seu corpo era magro. Suas pernas muito finas. Seus braços – dois palitos. Seus cabelos, escuros e lisos, estavam amarrados
Estava no ponto de ônibus abaixo do Palácio do Planalto, em frente a um órgão do governo federal, construído em tábuas.
Tinha na cabeça um suporte de pano, como aqueles que as mulheres nordestinas poem para carregar lata d'água. Aos pés, tinha um tambor de plástico azul, cheio de água. Como não conseguia ergue-lo para sua cabeça, pedia ajuda a alguém.
Tinha vindo buscar água para manutenção da sua casa. Morava logo ali, no meio do cerrado, “onde não mora ninguém, onde não passa ninguém, onde não vive ninguém”.
Segunda-feira, três de novembro de dois mil e oito da era cristã, um dia depois de domingo, eu vi um senhor vívido. Era um senhor de uns quarenta anos de idade. Um metro e sessenta e cinco de altura; claro; pele lustrosa. Vestia camisa de algodão fino, bermuda, e calçava sapatos esportivo, sem meias. Tinha sobre a cabeça óculos de lentes escuras e aro prateado – um legítimo Armani – disse ele. Tinha uma barriga proeminente e estava acima do peso ideal. Seus cabelos eram grisalhos, bem cortados, e tinha a barba raspada. Era falante. Pronunciava palavras claras e com bom Português. Voz forte e solta. Desinibido e de olhar atento.
Entrou numa ferragista para comprar cadeados com segredo – um para cada porta de quarto da sua pousada, onde descansava.
Era conhecido do proprietário da loja. Comentou sobre os óculos dizendo que se ele quisesse um semelhante, seria capaz de conseguir-lhe, a preço de custo - por volta de mil reais. Eu tenho uma revista com a fotografia do Kaká com um desse – disse ele. Você sabe que eu gosto de óculos, tenho mais de oitenta – completou.
Paguei minha conta e saí.
Tinha tido a oportunidade de ver dois mundos: o da senhora do ponto de ônibus e o do senhor dos óculos.
Estou inquieto, até então, quando escrevo sobre os fatos. Já se passaram cinco dias desde que vi a senhora do ponto de ônibus. Ela não me sai da cabeça. Seu fácies me impressiona. Da mesma forma, o senhor dos óculos me perturba profundamente.
Ela mora, no meio do cerrado, há um quilômetro do Palácio do Planalto. Sem terra, sem teto, sem dinheiro, sem trabalho, sem perspectiva de melhora, sem dignidade, sem plano de saúde, nem saúde, sem futuro, sem educação, sem oportunidade, sem assistência, com mil sens. Pertence a uma “casta inferior”.
Ele mora em condomínio fechado de classe média alta. Com casa, com área verde, com piscina, com suíte, com banheira, com água quente, com carro de sessenta mil reais, com família, com dinheiro, com renda, com plano de saúde, com perspectiva de vida boa, com dignidade, com futuro, com educação, com oportunidade, com assistência, com seguro, com mil cons. Pertence a uma “casca superior”.
E daí, de quem é a culpa? Ou, onde está o erro? Muita coisa se pode dizer. Uma delas eu digo: em países onde quase não tem pobreza, o salário do doutor é pouco maior do que o do técnico. O governo assiste a população – tem respeito por ela. Os impostos são gastos devidamente. Há Ubuntu - humanidade para os outros.
É assim que se pensa lá. É assim que se procede lá.
Chácara Betânia, 5 de novembro de 2008
Flecha Afiada
Um comentário:
A culpa é nossa... De todos aqueles que voitam sem saber em quem.
A culpa é do dinheiro, sem eira, nem beira, que nos mostram por aí e muitos, muitos mesmo não têm.
A culpa?
ora de quem é a culpa?
não sei mais...
te beijo
Taís Morais
www.taismorais.blogspot.com
www.marmotaeletrica.blogspot.com
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