terça-feira, 2 de novembro de 2010

Vi, conheci, contaram-me

Fiz uma viagem pelos estados do Maranhão, Piauí e Ceará, andando sempre pelas costas, não distanciando muito do mar. Comecei em São Luís e terminei em Fortaleza.
Como em qualquer viagem, vê-se muita coisa fora do costume. Eu também vi.
Vi prédios antigos, e não poucos, caindo aos pedaços. Prédios que retratam a história e a cultura de uma época. Vi, também, prédios restaurados, aparentando novo, que nos transporta à época e nos mostra os costumes, como trabalhavam, o convívio social e a economia. Como empregavam o dinheiro e quais eram os valores para a sociedade. Como as classes sociais se relacionavam e como o negro era tratado.
Vi igreja de branco rico. Vi igreja de branco pobre. Vi igreja de negro. A primeira está no centro da cidade, é grande, tem arquitetura requintada e encima duas torres na fachada. A segunda situa-se fora do centro, é menor, simples, e tem uma torre só. A terceira está na periferia, é pequena, modesta, e de uma só torre.
Vi muita gente sentada nos bancos das praças. Praças calmas. Gente traquila, que só sabe que o tempo passou porque dá fome: é hora do almoço; é hora do jantar; é hora do café. Gente que pede um coco gelado, e dele retira a água como quem sorve a vida.
Vi pau-de-arara como único meio de transporte coletivo. Trafega pelas estradas de areias profundas levando e trazendo gente, verdura, fruta, galinha, cachorro, recado, encomenda...
Vi cartel familiar de pau-de-arara. Um irmão tem a linha da cidade A à B. Na cidade B espera-se, por uma hora, outro irmão que chegará da cidade C. Enquanto isso, já que é meio-dia, almoça-se no restaurante da esposa do outro irmão. Este irmão tem a linha da cidade B à C. Ele chega quando termina o almoço. Então sobe-se no segundo pau-de-arara e continua a viagem, feliz, de barriga cheia, e alguns tostões há menos no bolso.
Conheci uma cidade que é quase um céu. Não tem shopping. Não tem Câmara Legislativa. Não tem violência. Não tem asfalto, nem outro material cobre o chão a não ser areia. Não tem carro com velocidade superior a vinte quilômetros por hora: a areia não deixa. Com isso, não tem atropelamento de pedestre. Não tem semáforo. Não tem barreira eletrônica nem pardal. As ruas são traçadas pela lei-do-menor-esforço. Para ir do ponto A ao B contorna-se o brejo, ou o pé de caju, ou a casa do Seu Zé, ou o morro, ou a duna, ou qualquer outra coisa. O caminho se transforma em rua, e, desta forma, todas as outras ruas seguem a mesma lei. As ruas não têm calçadas. Para quê calçada se se pode usar toda a rua para caminhar? Suas larguras são estabelecidas pelas cercas de arame de um lado e de outro dos lotes. As galinhas, os bodes, os cães, os cavalos, as crianças, os adultos... andam sossegadamente. Não vão longe, é claro, tudo está perto. O parque de diversões pode ser um barco velho, caindo aos pedaços, depositado no gramado em frente a casa. As cisternas são inusitadas: fura-se um buraco com um trado de diâmetro de 20cm. Coloca-se um tubo de PVC de 100mm. Cobre-se o espaço com areia e pronto. Com um instrumento próprio (um tudo de PVC de 75mm) retira-se a água que acumula no tubo maior.
Nesta cidade, vi casas que não têm portas nem janelas. Só têm os vãos. São ventiladas naturalmente.
As pessoas andam descalças ou de chinelo de dedo. De salto, não vi nenhuma senhora andando.
Vi carroças tracionadas por bois. Os cavalos são fracos para o serviço. A areia é mais forte que os cavalos.
A cidade é quase um céu, porque vi botecos, bêbados e cemitério.
Nela, vi uma criança triste que não me sai da memória. Seu olhar fixo no infinito, desconhecendo minha presença e as fotos que dela fazia, me fuzilou. Estava em pé, com as mãos para trás, escorada numa árvore fina. Seu corpo estava sujo. Usava calção azul celeste, calçava chilenos e não vestia blusa. Seus cabelos eram compridos. Não soube se era menina ou menino. As galinhas passavam ao lado correndo atrás de alguma coisa. O casebre, construído no barranco do rio, era de pau-a-pique e coberto com capim.
Vi uma pessoa que vivia o próprio dia. Sua casa estava sendo tragada pala duna. Mas, enquanto isso, esquiava-se de kite surf nas ondas em frente.
Vi gente construindo palhoça em frente a duna que caminha célere para cima dela, como se não existisse duna em movimento.
Vi duna engolindo mangue. Vi mar engolindo duna.
Vi ilha onde se plantava melancia. Hoje só tem areia. A maré-alta lava toda a ilha.
Vi motoqueiro pilotando a moto em areia fofa com uma só mão no guidão, enquanto olhava as horas no relógio no outro braço. Eu era o da garupa. Morria de medo e orava sem parar. Estava sem capacete, é claro. Lá não se usa capacete.
Vi malotes dos Correios chegando à agência em carroça.
Contaram-me que um grupo de comerciantes de uma cidade foi ao promotor de justiça reclamar de uma loja que vendia mais barato. Queriam que a autoridade tomasse providência.
Conheci uma família que me recebeu em sua casa, na ilha do Coroatá, no delta do Parnaíba. Me ofereceu farinha de puba, café, siri e água mineral. Ao final, não me cobrou nada. Disse que era um prazer receber pessoas.
Conheci pescador que não tira férias porque férias não lhe faz o menor sentido. Ele vive de férias o tempo todo.
Vi multidão, todos os dias, subindo a duna para ver o pôr-do-sol no meio do mar como se fosse o último pôr-do-sol.
Vi gente de todos os continentes. Vi gente de tudo que é jeito. Vi gente muito bonita. Vi gente de beleza normal. Vi gente rica. Vi gente simples. Mas não vi mendigo. Nem pedinte. Nem miserável. Não, porque desviasse o olhar de sobre ele, mas porque não o encontrei no meu caminho.

Flecha Afiada

3 comentários:

Taís Morais disse...

Não conheço o Maranhão, mas tenho a felicidade de conhecer grande parte do Norte. Amo aquela terra e a gente de sorriso franco.

um beijo

Taís Morais

Ana Paula E. S. Becker disse...

Oi Flecha, a leitura do seu blob é muito agradável! Parabéns e boas viagens!

Gustavo disse...

Kd o dono desse blog? Fugiu???