O comandante, pelo sistema de som da aeronave, informou que em Curitiba o céu estava nublado com temperatura de dezesseis graus. Para um brasiliense que estava de bermuda e blusa fina isso era problema. Não tão grande, porque na mala trazia o agasalho que resolveria o transtorno.
Logo que desci, no saguão do aeroporto, tratei de apanhar a blusa de frio e vesti-la. Uma preocupação a menos para um ciclista de primeira viagem naquelas terras do sul.
Primeira coisa a fazer foi descobrir como ir para Campo Largo, a trinta quilômetros dali. Consultei os motoristas de coletivos que estavam por perto. A informação foi unânime: ônibus não leva bike nem se estiver desmontada. Só leva na caixa. Também não leva tv nem lâmpada fluorescente porque se quebrar tem gás que exala. Bem, concordei que tv e lâmpada fluorescente tem gás que exala, mas bike tem o que? Gás, só o ciclista. Mesmo não aceitando aquela assertiva não tinha o que fazer. Já sabia que teria que pagar táxi. Pensei logo nas finanças. Nem bem cheguei já começava a gastar alto.
Negociei com o taxista e acertamos a viagem por sessenta reais. Acomodei a bagagem no carro e fomos. A pista era ótima – dupla, lisa e sem engarrafamento. Chegamos a Campo Largo em pouco tempo.
O hotel tinha sido reservado pela Raquel França que chegaria no dia seguinte. Logo vi que iria gastar uma grana desnecessária. Ele era chique. Bem, nem tanto, quando soube que teria que subir com a bike pela escada até o quarto andar, pois só tinha um elevador. Como a primeira diária já estava paga não havia outra alternativa. Sem reclamar, subi os degraus carregando minha namorada. Corpo de modelo – esbelta e leve.
Descendo em seguida, fui procurar um restaurante porque depois das quatorze horas o saco já estava vazio, e saco vazio não pára
Restaurante do JEF. É esse mesmo, disse eu para comigo. Entrei e me fartei. Não era aquele “Brastemp”, mas, ou comia ali ou ia à alguma lanchonete sei lá onde pois os restaurantes estavam se fechando.
Voltei para o hotel e descansei por um tempo. Tinha que treinar por duas horas naquela tarde. Como sou atleta aplicado iria cumprir o que o treinador – meu filho Fernando Vilela - determinara.
O sol tinha tirado férias. Um céu de chumbo e um frio de quinze graus tinham tomado seu lugar.
Coloquei a blusa corta-vento por baixo, a do Piki da Trilha por cima e a calça comprida. Me preparei como pude para não sofrer com o clima adverso.
Saí como cachorro-doido – onde achava uma pista que ia em direção ao mato eu entrava. Foi assim que encontrei lugares lindos. A região é bem acidentada – ou sobe ou desce. Se animar nas descidas, lá na curva o mato te abraça. O solo é de um material compacto cor areia que nem os pneus suja. Os pinheiros parecem grandes guarda-chuvas sobre a floresta. Na mata, uma clareira lá. Uma casinha ali. Uma vaca pastando acolá. Um cachorro latindo aqui.
Senti muita vontade de fotografar, mas luz boa não tinha, nem máquina à mão.
O dia chegou ao fim muito rápido. Voltei contra minha vontade, mas não tive outra opção.
Na sexta-feira de manhã peguei a bike e fui pelas ruas à procura de hotel mais barato. No sítio da prova, na internet, só indicava dois. A justificativa era que a cidade era pequena. Encontrei mais um monte. Inclusive com preço bem inferior e com qualidade ótima.
Voltei. Fechei a conta e, tomando um táxi me transferi para o Manayara – sessenta dias de inaugurado, sem escadas para subir, com preço inferior, com cama boa para dormir e com internet de graça. Era o céu. Aleluia!
Sexta e sábado passei fazendo pouca coisa. Descobri que poderia ter chegado no dia anterior à prova que seria tudo igual.
Sol não tinha para eu fotografar. Bem que levei minha Nikon, mas, coitada ficou triste na mala sem poder fazer muita coisa.
Na manhã do sábado saí pedalando para comprar lembranças. O hotel ficava na BR que passava dentro da cidade. É nessa pista que estavam as lojas das fábricas de porcelana. A cidade é referência nesta produção. Depois de identificar várias, entrei numa e comprei duas xícaras para chá – uma para mim outra para “mamãe” - minha esposa.
À tarde fui de bike ao local do evento – igreja do Micheletto - à cinco quilômetros do hotel numa pista asfaltada que atende a zona rural daquela região. Peguei meu kit – uma camiseta tamanho médio na cor verde com texto relativo ao evento - depois, aproveitando a oportunidade, tomei a pista do circuito e pedalei por meia hora voltando
Naquela noite fomos ao restaurante Casa da Nona. Era Raquel, Adriano (de Goiânia), Érika Gramiscelli, alguns atletas que não conhecia e eu. Depois chegaram outros ciclistas para fazer a mesma coisa: comer massa. Servimo-nos à vontade e comemos o quanto deu.
Chegando ao hotel conferi os itens importantes – pressão dos pneus, óleo na seringa, limpeza da relação, dois cilindros de gás e aplicador, bebida energética, ciclo-computador, frequencímetro cardíaco e o mais importante: a blusa nova “SÓ CRISTO SALVA”, ainda um protótipo, mas já
Acordei às seis e meia, pilhado como uma Ray-o-vac. Não via a hora de acontecer a largada. Tomei café e, às oito horas, com tudo que tinha direito, parti para o local da concentração. Levei uma mochila com várias coisas. Vestia blusa, porque a temperatura não passava dos dezesseis graus. Para mim aquilo era um Pólo Norte. Pela misericórdia divina, logo em seguida, o sol tomou seu posto se mostrando num céu azul escuro. Nuvens brancas desenhavam figuras lá em cima me convidando à fotografá-las. Fui aquecer na pista de asfalto que passava em frente à igreja até que ouvi no som o chamado para o alinhamento. Tomei minha posição ao lado de José Milton, meu amigo de pedal. Ele me animou dizendo que eu ganharia sem dúvida alguma. Me arrepiei quando ouvi aquilo, mas fiquei na minha pois qualquer prova só se ganha na bandeirada. Antes disso, contar vitória é desrespeitar os competidores.
Éramos mais de duzentos atletas alinhados em cima de uma grama verde ladeados por grades de metal formando um corredor até a estrada. A largada se deu no horário previsto – nove horas. Como sempre a maioria largou forte. Eu fui na balada sem arrepiar visto que à frente estavam curvas fortes e estrada estreita. Me cuidei para não envolver
Comecei a despachar um a um dos que não conseguiam manter o ritmo. A estrada serpenteava, ora por matas fechadas ora por pastagens verdes com pequenas sedes de fazendas ou, simplesmente uma casa de campo ou uma chácara. Ou era subida ou era descida. Não havia retas nem planos. Ou subia marcha ou descia marcha. Ou pedalava forte ou descansava de pedalar. Ora a freqüência cardíaca estava a 178 bpm ora estava a 118 bpm.
Os pelotões foram-se diluindo pelo trecho. A elite masculina como sempre, tomou a dianteira e vazou. Não se conseguia ver quem estava à duzentos metros à frente. A curva na mata não deixava. Para aqueles que não conheciam o percurso isso era impedimento para imprimir maior velocidade à prova. Em decidas pedalei na velocidade de atletas que estavam à minha frente acreditando que eles conhecessem o caminho. Deu certo, porque ninguém caiu. Depois que passava algumas curvas via que poderia ter imprimido velocidade maior.
No quilômetro treze, numa subida forte, passei pelo pelotão da elite feminina. Nunca mais o vi. No quilômetro vinte e quatro estava o primeiro ponto de apoio. As pessoas, demonstrando boa vontade, nos entregavam os copos com água com as tampas furadas.
Nessa hora a temperatura estava amena e eu suava moderadamente. Sentia que poderia continuar imprimindo um ritmo forte o bastante para não dar chance a quem quisesse me alcançar. Na verdade eu não sabia a que distância estava o meu principal adversário. Saí na frente e achava que continuava na frente. Não consegui identificar nenhum outro com placa amarela e com cara de velho. Eu era o idoso mais veloz até aquele momento.
Percorrendo mais alguns quilômetros deixamos a estrada de terra e pegamos uma rodovia pavimentada com concreto. A pista era sinuosa e lisa. Havia descidas fortes e longas como também subidas na mesma proporção e forma. Nas descidas me lembrei das corridas de motos onde os pilotos raspam os joelhos no chão ao passarem por curvas acentuadas, pois nunca antes havia me inclinado tanto
No quilômetro trinta e seis havia outro ponto de água. Nesse ponto os grupos se dividiam. O que faria o percurso completo: placa fundo verde, (oitenta e sete quilômetros); o que faria o reduzido: placa fundo amarelo, (cinqüenta e seis quilômetros). Minha categoria – master 55-59 – faria o reduzido. Peguei mais uma vez um copo com água. Desta vez a tampa estava fechada. Aproveitei para tomá-lo depois. Coloquei-o no bolso esquerdo da blusa e continuei pedalando próximo ao meu limite.
Um quilômetro depois saímos da pista pavimentada dobrando à esquerda em estrada de fazenda com as mesmas características anteriores. Entrei no trecho que mais me exigiu. Muitas subidas fortes. Numa delas foi necessário colocar coroinha com segunda. Muitas descidas iradas. Muitas curvas cegas. Nesse trecho encontrei um garoto, que olhando para mim e vendo a cara de velho perguntou minha idade. Ele tinha quatorze anos. Era alto e forte como a maioria dos sulistas.
Rodando por entre a mata vi a marcação indicando para entrar à direita, numa trilha estreita. Reduzi marcha e entrei. A trilha me levou para um ponto incomum. Avistei à frente um túnel de manilhas de concreto com um metro e vinte centímetros de diâmetro aproximadamente. Entrei sem pensar me abaixando o máximo para não tocar as costas na parede irregular. Ali dentro parecia uma masmorra: escuro, frio, úmido e sufocante. Vi à distância a luz no fim do túnel. Pedalando com cuidado ganhei a saída e continuei pela trilha até encontrar a estrada. Mal tinha passado por esse ponto interessante avistei à direita uma grande cratera que me pareceu uma mina de onde retiravam material para a fábrica de cimento. A mata era fechada e a pista parecia um tobogã.
Passado esse trecho comecei a olhar no hodômetro e fazer a conta de ré. Faltavam dezesseis quilômetros para a vitória. A bike rodava absoluta por uma estrada que passava no meio de uma pastagem. Agora eu via ao longe e contemplava o horizonte. Ora olhava o infinito ora olhava para a roda dianteira que passando sobre o rípio produzia um som característico. Via a suspensão trabalhando e o chão passando rápido sob os pneus. Comecei a imaginar que seria possível conquistar um título nunca antes conquistado. Sem me desconcentrar, olhava para o céu azul cheio de nuvens e agradecia a Deus pela minha saúde. Lembrei-me dos treinos cansativos que fizera até então. Das ladeiras que foram subidas repetidas vezes e dos milhares de quilômetros percorridos
Faltando três quilômetros para o término o percurso se fundia com o início. Ali eu já havia passado. Conhecia o que viria pela frente e como dosar a energia para chegar esprintando. Comecei a olhar para trás tentando ver quem estava na retaguarda. Não via ninguém. Eu estava largado na frente.
Administrei a chegada, pois a pista estava cheia de pedras soltas e não poderia correr o risco de ter um pneu furado ou sofrer uma queda boba. Fitando à frente vi em cima de uma elevação três pessoas que observavam os passantes. Avistei as árvores do pátio da igreja. Vi alguém da organização indicando a entrada e algumas moças à sua volta aplaudindo quem chegava. Avistando o fiscal com a bandeira na mão levantei-me na bike e esprintei ouvindo no som “acaba de chegar o ganhador da prova na categoria master 55-
A alegria tomou conta de mim. Saí para a pista de asfalto para me soltar. Depois de um tempo voltei aliviado e agradecido.
O segundo colocado chegou dezoito minutos depois.
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| MACHU PICCHU |

Um comentário:
Que descrição maravilhosa, Doutor Hélio! Não vou te dizer que fiquei com os olhos marejados, porque.... ah. sei lá. Parabéns! Sei o que voce sentiu porque já senti coisa parecida, ainda que numa premiação de menor importância. A coroação de anos de treinamento com uma vitória dessas traz uma sensação inebriante, uma descarga de adrenalina que se parece com aquela que a gente sente quando um filho nasce (só que quando os filhos nasceram eu não consegui me segurar, foi um chororô só). Mas depois dessas vitórias a sensação é parecida.
Parabéns a você, mais uma vez, pela grande e expressiva conquista e obrigado por tão detalhado relato, onde você nos dá dicas valiosas de como se preparar e se comportar numa corrida de alto nível.
Abraços,
André Felipe/Mountain Bike Brasilia
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