Meu sonho de consumo atual é ser filhote da Manchinha. Não gosto de usar o termo “sonho de consumo” porque parece que tenho vinte anos: idade de pirralho universitário que discute, e resolve o Brasil numa reunião de lanchonete. Você já está pensando que começa a ler um texto escrito por um velho, não é? Pois saiba que não é nada disso. Eu só tenho cinco décadas de vida e mais alguns quebrados. Ando de mountain bike por aí quase todo final de semana. É bem verdade que de vez em quando dou umas raladas nos joelhos e cotovelos, mas isso faz parte da cartilha dos usuários de veículo de duas rodas.
Deixemos de lado essa discussão de idade, até porque não leva a nada. Outra expressão que não gosto: até porque. Esse jargão é usado muito freqüentemente pelos políticos que penteiam seus cabelos com fixador em gel antes de concederem entrevista para a emissora de tv local. Se for para um programa em nível nacional, além do fixador usam um produto no rosto para tirar o brilho da pele. Querem mesmo que o brilho seja somente deles. Nenhum outro concorrente pode ameaçá-los.
Vamos ao que interessa, já que o leitor começa a achar que eu não tenho método para escrever e nem mesmo sei o que quero transmitir. Não posso passar, nem de longe, essa vaga idéia de enrolação escriturística.
O que eu quero mesmo é ter sessenta dias de vida; dezoito centímetros de altura e trinta centímetros de comprimento, fora o rabo. Quero receber o alimento todo dia no meu quarto de dormir, porque é lá que os filhotes ficam o tempo todo. Comer lagartixas fresquinhas trazidas pela mamãe Manchinha todos os dias, sem preocupar onde foi que ela conseguiu, e a que preço. Quero permanecer deitado na cama, mesmo que seja nos pés da cama, sem lembrar que o gás pode acabar a qualquer momento. Se ainda não aumentou, terei que desembolsar trinta e cinco reais. Desejo ardentemente ficar deitado na barriga da mamãe e de vez em quando dar uma mamadinha e depois dormir até o sono acabar.
Quando o sono acabar eu quero pular da cama no chão e brincar com minha irmã, a Cris, uma brincadeira que não tem hora para terminar. Se terminar uma começa outra e assim vai até...
Eu quero mesmo é pular do meu varal de roupas armado no quarto, feito com um caibro de madeira boa, na altura de um metro e oitenta.
Noutro dia eu a vi pular de lá ao chão. Só ouvi o “toc” de suas patas no piso. Pulou e continuou a brincadeira que tramava com Manchinha e Cris. Dez vezes sua própria altura. Não aconteceu nada além do pulo e da minha surpresa. Se eu pulasse da mesma altura, proporcional ao meu tamanho, já estaria no envelope de madeira envernizada. Eu tenho um metro e setenta e quatro centímetros de altura. Está aposto no meu certificado de reservista de hum mil novecentos e sessenta e nove, emitido pelo Exército do Brasil. Não encolhi nada, pois ando empinado como um mastro de bandeira nos braços de uma escolar que desfila no sete de setembro, quando passa em frente ao palanque do Lula e seus...
Há poucos instantes, quem eu sonho ser estava em cima da cadeira, embaixo da mesa de jantar. Enquanto eu tomava uma cuia de chimarrão ela esperava a hora de receber nova porção de ração balanceada. Não faz a menor idéia do valor do quilo da comida que come. Eu, que a comprei, andei feito romeiro de Canindé, pesquisando preço, sabor e qualidade. Paguei no cartão de débito. Tentei o primeiro cartão – foi recusado. Não tinha fundo, é claro. Tentei o segundo cartão – passou. Depois fui ao banco e constatei que estava usando o cheque especial para comprar comida do animal dos meus sonhos. Juro de cheque especial anda mais alto do que as torres gêmeas que não existem mais. Bem que os juros poderiam ter caído como elas, mas não foi assim que aconteceu. Permaneceram lá, como o Pico da Neblina: nas alturas, bem próximo das nuvens geladas, me colocando numa fria todo mês.
Só uma coisa não me agrada nessa história. O animal dos meus sonhos está com medo se sair de casa. Os cinco cães estão na espreita esperando uma oportunidade para correrem atrás. Isso é acerto de contas que não sei de quando vem. Não tenho notícias do fato que causou tamanha animosidade entre as partes. O certo é que não combinam a séculos. Por isso fica fechada dentro de casa. Para mim isso não faz a menor diferença, eu também fico fechado com medo do ladrão levar minhas coisas. Fico de guarda de dia, de noite, de guarda de feriado, de guarda de qualquer coisa... pensando que fazendo assim vou evitar a chegada do guardador da coisa alheia.
Quando ela crescer sairá, com certeza, mas à noite, pela báscula da janela. Irá fazer seus passeios noturnos enquanto os inimigos cochilam deitados nos panos espalhados no chão da varanda.
Bel, eu queria ser você, minha querida gatinha. Sua vida é ótima, mesmo tendo que bater de frente com a Sara, com o Tigre, com a Amanda, com o Iggy e com a Nina. Ah! se eu pudesse!
Chácara Betânia
Brasília-DF, 07 de outubro de 2004
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2 comentários:
Cumpadi Flecha;
Esses seus causos, contos e crônicas estão excelentes.
Abs
Elias
www.pikidatrilha.blogspot.com
Muito baum Ti Helio, o texto e bacana (forma como escreve). Quero ver as belas fotos que devem estar no fundo do baú.
Continue dividindo com os amigos suas grandes e pequenas experiencias. Estamos aki, só esperando as novas linhas.
Forte abraço
Marceleza_mtb@yahoo
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