quarta-feira, 15 de outubro de 2008

DE BRASÍLIA A PIRI

Fui acordado às quatro horas da manhã pelo despertador do quarto do Elias. Meio preguiçoso, fiquei na cama por mais cinco minutos. Não tendo outra opção, me preparei para descer do primeiro andar. A escada daquele – beliche-escritório, cama-suspensa ... - não passa em nenhuma norma técnica de escada desse mundo. Beliche-escritório porque em baixo da cama está uma mesa com a parafernália computacional do meu amigo hospedeiro. Escalei-o, de ré e sem cordas, até colocar os pés no piso do quarto. Me considerando um alpinista, fui para o banheiro fazer o que a maioria dos mortais fazem pela manhã depois que acordam.

                O dono da casa já estava na cozinha cuidando dos afazeres domésticos. Em pouco tempo  estávamos devorando carboidratos e potássios, ou seja, pães e bananas. Ciclista nenhum que se prese sai de casa sem se preparar adequadamente. Considerando-me dos dez mais do planeta ciclístico, estava lá eu e os pães: integral, de batata, com queijo, de centeio, etc. Se pão fizesse campeão eu seria absoluto no ponto mais alto de todos os pódios dessa terra.

                As caramanholas já estavam na geladeira. Foram contadas estrategicamente para todo o percurso: uma grande e uma pequena no quadro da baique; duas grandes nas costas e a mamadeira com quatro power-géis também. Peguei-as todas e acrescentei malto e repositor hidro-eletrolítico. Agitei-as para diluir o soluto e em pouco tempo a mistura estava preparada.

                Eu vestia calça comprida preta, blusa de manga longa do Piki da Trilha e calçava sapatilhas próprias para pedalar. Elias, como apoiador, vestia calça leve e solta, blusa do Piki da Trilha e botas para caminhada.

                Pegamos Moreninha - minha baique - várias caixas com a tralha de apoio que estava na sala, e a mochila com roupas. Descemos pelo elevador de serviço até a garagem onde colocamos tudo no Toyota. Elias amarrou Moreninha com tanta força que ela se sentiu sufocada. Não reclamou porque é muito paciente. Se fosse eu, seria diferente, com certeza.

                Entramos no carro e saímos em direção ao Guará, naquela manhã quente de domingo. Elias dirigia com muito cuidado pois àquela hora – quatro e tanto da manhã - o pessoal da naite estava voltando com a cara cheia de “suco etílico”. Chegamos à casa do Luizinho às cinco horas. Ele já havia saído com Mário e Juliano. Adélia nos esperava do lado de dentro do portão. No que nos viu, desligou as luzes e saiu. Depois dos cumprimentos seu celular tocou. Do outro lado o Luizinho disse - ”você não sabe o que me aconteceu”, e parou de falar. Adélia nervosa disse em voz alta - “fala logo”. Aí a bomba explodiu. Fui atropelado, disse ele, mas estou  bem. Ela procurou saber em que posição da pista ele estava e, depois de certificar, saímos o mais rápido que a prudência permitia. Olhando atentamente para frente íamos procurando alguma coisa que nos indicasse o local do acidente.

                Na pista que liga o Guará com Núcleo Bandeirante, na curva, depois do córrego, quase em frente a velha estação ferroviária, avistamos um aglomerado de pessoas e um carro parado fora da pista voltado para o mato. Identificamos que eram eles e Elias tratou de estacionar em posição segura.

                Descendo rapidamente, vimos Luizinho sentado no chão com a roupa suja de terra. Seu rosto estava com um ferimento no nariz e outro na face próximo daquele. Ele segurava o ombro esquerdo com a mão direita, mantendo todos os dedos bem abertos, como que tentando não deixar a peça cair aos pedaços.

                Aos poucos, fomos nos inteirando do que havia acontecido e, cada vez mais, nos convencíamos de que os estragos eram pequenos em relação à violência do impacto. O motorista – um rapaz de vinte e um anos – se postava próximo ao Vectra vermelho tentando falar conosco sem ser ouvido. Fazia vária ligações justificando seu ato insano e, ao mesmo tempo, reclamava com seus ouvintes de que não queria ter saído naquela noite, mas saiu por insistência, e agora estava naquela enrascada.

                Decidimos chamar a polícia e o bombeiro. Nesse momento, o motorista, quase desesperado, nos implorava para não fazermos aquilo, porque senão ele seria preso, pois havia bebido mesmo e o exame iria comprovar. Queria resolver o problema entre nós, como homens. Nessa hora, tomando a palavra, dei-lhe uma dura, visto que nos havia chamado de inflexíveis.

                A polícia e o bombeiro chegaram ao mesmo tempo. Foram inteirando do ocorrido e iniciando os procedimentos de praxe. Adélia ficou atenta para não deixar o motorista falar com os policiais em particular, para evitar suborno.

                Os bombeiros, depois de examinarem Luizinho, o liberaram, justificando que ele estava consciente e sem maiores escoriações, recomendando, porém, que deveria ir ao hospital fazer exames para avaliação.

                Outros ciclistas que fariam parte do pedal foram avisados do ocorrido e estavam se dirigindo para nos encontrar. Logo chegou Daniel Silva.                        

                Quem via as marcas no chão, o estrago na baique e o buraco no vidro traseiro do carro, concluía que havia acontecido um milagre. Luizinho, com o choque, voou por sobre o Mário e o Juliano e foi parar à mais de vinte metros de distância. A roda traseira da baique virou um V para dentro do aro e, no vidro do carro abriu-se um buraco com a silhueta do acidentado.

                O dia já estava claro. Elias tomou da máquina fotográfica e, no modo filmadora, registou o máximo que pode, tendo o cuidado de filmar o carro, o buraco no vidro e a placa.

                Com tudo isso, as coisas haviam mudado de rumo. Mário, que se livrou do acidente por estar na frente do pelotão de três, tinha decidido que não iria mais. Pegou a banana que trazia às costas e me entregou. Elias que iria nos apoiando, tomou a responsabilidade de cuidar dos procedimentos legais e de saúde do Luizinho. Adélia, como namorada do ex-quase morto, nem pensou duas vezes para abandonar tudo e acompanhá-los.

                Eu e Juliano transferimos nossas coisas para o carro do Daniel e, depois de despedirmos, desejando que Deus os abençoasse, saímos em direção a Samambaia, onde outros ciclistas deveriam estar nos esperando.

                Chegamos ao posto Texaco. Logo avistamos, do lado esquerdo do pátio de abastecimento, ao lado da rodovia, Franco e Júlio, que nos esperavam desde às cinco e quarenta e cinco. Já eram seis e vinte. Contando o ocorrido sem muitos detalhes nos preparamos para partir. O carro do Daniel seria levado de volta por sua cunhada que nos fazia companhia.

                Depois de todos os acertos feitos nas baiques; todas as checagens feitas por cada um em si mesmos; vimos que nada mais faltava a não ser partir. Éramos cinco ilesos.

                Saímos enfileirados evitando tomar parte da pista de rolamento da rodovia. Dessa forma, fomos até o centro da cidade de Santo Antônio do Descoberto, em Goiás, bem na divisa com o Distrito Federal.

                Em frente a uma padaria, paramos, para atender ao pedido do Júlio que havia saído de casa sem comer nada. Estacionados na ilha central da rua principal da cidade, ficamos esperando.

                As pessoas movimentavam por todo lado, envolvidas que estavam com coisas da eleição municipal. Era dia de votação. Carros com adesivos de candidatos. Cabos eleitorais com “santinhos” colados nos peitos. Aglomerações de simpatizantes em frente aos comitês políticos. Papéis de campanha espalhados pelas ruas. Polícia postada em frente aos colégios guardando as urnas. Gente em fila, esperando a hora para confirmar sua escolha.

                Bares fechados devido a “lei seca”. Casas de materiais de construção abertas, esperando, sabe-se lá quem. Curiosos nas ruas observando quem passava. Carros velhos, barulhentos e fumegantes, batendo lata ao passarem pela rodovia esburacada que adentra à cidade, vindo da Cidade Eclética. Quebra-molas intermináveis deitados na pista, como bêbados, emperrando o fluxo, ajudando os buracos à forçarem todo mundo à rodar devagar quase parando.

                Logo que saímos da cidade em direção à Cidade Eclética, um raio da roda traseira do Juliano quebrou. A roda empenou e, com isso, sua viagem ficou comprometida. Avaliando o conjunto, aconselhei-o a voltar, para evitar um problema maior lá no meio do nada, onde não tinha sinal de celular para pedir socorro, nem quem o resgatasse. Com a cara de quem dizia “de novo!” ele despediu e voltou.

                Agora éramos quatro. Já estávamos pedalando fora da cidade, em pista asfaltada. A rodovia estava bem conservada. Subíamos e descíamos rodando pelos campos cobertos de capim verde. Os arbustos se vestiam com folhas novas esperando as chuvas que prometiam não demorar. A paisagem convidava à uma foto. O horizonte enfumaçado denunciava o que fizeram com a vegetação por aquelas bandas. O sol das oito horas informava como seria aquele dia. Ninguém se enganava que o calor seria forte em todo o tempo.

                Eu pedalava no meu ritmo, olhando sempre para trás, observando como estava o grupo. Júlio subia forte e sempre me passava do meio para o fim da ladeira. Daniel ficava para trás e Franco estava no meu vácuo.

                Diminuindo a marcha, esperei que Daniel se aproximasse. Quando nos alcançou disse que não estava bem e iria voltar dali. Como minha mochila estava em seu carro, que iria depois para Pirenópolis, quis saber como se daria isso. Ele disse que entregaria meus pertences ao Elias quando chegasse a Brasília. Confessou que estava desmotivado pelo que aconteceu com o Luizinho e que se considerava cansado já naquela altura.

                Não tendo o que contestar, nos despedimos e cada um tomou seu destino.

                Próximo da Cidade Eclética passamos por um ciclista que pedalava uma “barra forte sem câmbio”. Lentamente, seguia em direção ao povoado, com seu chapéu de aba larga e roupa de festa. Tudo certo, pois era dia de eleições.

                Depois de uma curva, seguia uma longa reta que levava à praça do povoado. De longe avistava a loja Maçônica com seu símbolo característico. Chegando mais perto, vi vários carros estacionados debaixo de árvores e pessoas conversando em grupos. Outros carros trafegavam pela rua principal, que também é uma rodovia.

                Um senhor, dentro do seu fusca, ao celular, passou raspando em mim sem dar atenção. Estava ocupado com assunto diferente.

                Mais polícia. Mais colégio com pessoas à porta querendo votar. Mais cabos eleitorais. Mais tudo que se viu na cidade anterior. Treze quilômetros separam uma da outra. Tudo igual na manifestação popular, nas conversas e no modo de encarar o ciclista. Dali em diante era estrada de terra. Por ela se ia para as bandas de Cocalzinho, Corumbá e Pirenópolis.

                Passando apressado, nosso pelotão de três, ganhou a estrada e fomos em frente. O chão, ora de cascalho, ora de terra batida, estava ótimo para desenvolver nossa viagem. Felizes da vida e animados, continuamos em velocidade regular. Reservávamos energia, pois, cento e trinta quilômetros não se roda sem esse cuidado. Ou tem juízo na cabeça, ou desiste no meio do caminho. No meio do caminho não tem nada: não tem telefone; não tem resgate; não tem hotel;  não tem cama fresquinha; não tem bebida; não tem tv com aqueles programas cretinos que tomam o tempo da maioria dos que não gostam de ler; não tem cachoeira. Só tem calor, e quando muito, uma árvore educada que te oferece sua sombra.

                Não querendo correr o risco de me quebrar, pedalava moderadamente.

                Descobrimos, logo no início, que nenhum de nós sabia como chegar a Pirenópolis passando por Cocalzinho. Um pequeno detalhe para quem tem boca e olhos. Diz o adágio popular: quem tem boca vai a Roma. Como nosso destino era bem mais perto, sabíamos que com algumas informações acertaríamos o caminho e chegaríamos ao ponto intermediário – Cocalzinho.

                Logo à frente estava a descida da Jibóia. Longa para quem sobe. Para nós – que delícia! Descíamos com o vento na cara, segurando nos freios para não passar reto nas curvas. No final dela uma ponte estreita sobre um riacho escondido na mata ciliar e uma curva acentuada para a esquerda em subida forte.

                Uma fumaça no barranco do riacho denunciava a presença de gente. Vários acampantes em pé, do lado de fora de suas barracas, aqueciam ao sol. Passando à mil-por-hora não tive tempo de saber quantos eram, mas eram vários.

                Para fugir do estresse da cidade grande, um barranco de córrego, no meio do mato, é mais do que bem-vindo.

                Suspeito que descendo de outros povos. Quando vejo: mato, córrego, cachoeira, vale, serra, pedreira, ai que loucura! Dá vontade de abortar tudo e correr para lá e ficar por mil anos aproveitando das delícias daquela “solidão” cheia de bichos, sons, folhas, forma, luz, sombra, paz, paz, paz... Devo ser um Tupi original. As coisas não acontecem por acaso: é por isso que meu codinome é Flecha Afiada. Flecha vive no mato. Só tem utilidade lá na selva. Na cidade, dependurada em paredes ou dentro de um pilão, como ornamento, é o fim. Quem faz isso  subjuga-a ao ostracismo. É desvirtuar o dom que Deus lhe deu. É matá-la de sofrimento e aos poucos.

                À frente, vi uma pista à direita e me lembrei dos 70km de Ceilândia de dois mil e sete. Naquela prova, logo que virei à direita vi meu filho – Fernando Vilela – parado com a corrente quebrada. O coração apertou, mas eu não tinha a ferramenta que lhe resolveria o problema.

                Várias estrada secundárias derivavam daquela que seguíamos, suscitando-nos dúvidas. Quando avistei uma casa do lado direito da pista notei que dois homens, agachados, conversavam. Parando, lhes perguntei como ir a Aparecida, povoado à vinte e três quilômetros da Cidade Eclética. Um deles acenando com o braço direito indicou que era seguir em frente. Agradecendo, parti decididamente.

                Poucos carros passavam pela pista. O solo estava sem poeira. Assim, percorríamos sem nos sujar.

                Quanto mais avançávamos menos movimento. De vez em quando, alguém numa moto – o veículo mais versátil da zona rural de agora – passava por nós. Algumas vezes aproveitava a oportunidade e  certificava do caminho correto.

                Comecei a notar que Júlio ficava nas subidas e que Franco estava no meio de nós três. Várias vezes parei para esperá-los.

                Chegamos a Aparecida. Eu tinha a intenção de comprar refrigerante para aplacar o calor. Passando vagarosamente pela rua principal, quiçá única, via todos os bares fechados. Era dia de eleição. Lei seca – proibido vender bebida alcoólica. Mas refrigerante não é bebida alcoólica! Parece que por ali só vendia a “marvada”.

                Caminhavam na minha direção três rapazes com adesivos de candidatos nos peitos. Parando e descendo da baique perguntei a um deles qual o caminho para Morrinhos – outro povoado à frente. Com muita educação me indicou com detalhes por onde seguir – naquela placa branca o senhor vira à direita, passa o mata-burro e vai pela estrada.

                Nas fazendas da região cria gado. Os pastos são extensos e o horizonte fica longe. A visão é privilegiada. Observa-se os contornos dos córregos, as pequenas moitas de mato e a divisão dos pastos pelas cercas de arame. A estrada é identificada por um pequeno sinal, que, na maioria das vezes, segue uma cerca.

                Naquele sobe-e-desce da estrada, comecei a sobrar na frente, e por várias vezes esperei meus companheiros, até que, numa dessas interrupções, Hugo, Diego e Paulo me alcançaram. Eu estava parado próximo a uma cerca de arame liso, em cima da baique, com um pé apoiado num fio.

                Cumprimentamo-nos, e depois de me certificar do caminho, eles foram. Fiquei meio impaciente olhando para trás, tentando ver se “meu pelotão” aproximava. Demorou para Júlio chegar. Perguntei se estava tudo bem. Com a justificativa de que havia dormido pouco, estava cansado, ofegante. Notei que a empreitada estava difícil para ele. Não podia fazer nada a não ser esperá-lo, mas isso era muito penoso para um Flecha impaciente.

                Saímos dali, e eu na frente, pedalava querendo alcançar Hugo e turma, mas não queria deixar o “pelotão”. Essa equação se mostrou de solução impossível; duas incógnitas. Três pedalando forte na frente; dois pedalando leve atrás, e eu, no meio, querendo agrupar os atletas.

                Morrinhos estava logo à frente.

                O pelotão da dianteira, usando de misericórdia, marcou no chão a direção correta com uma seta. Isso foi tudo o que precisávamos para não errar.

                Foi fácil chegar a Morrinhos. De novo, não havia nenhum bar aberto pelo mesmo fato que levou Aparecida “ao toque de recolher aos bares”.           Na praça, debaixo de uma árvore frondosa, estavam alguns homens conversando. Cumprimentando-os passei sem parar, até que, depois do cemitério, encontrei uma bifurcação. Com toda a dúvida do mundo dei meia volta e fui me inteirar do caminho.

                Um deles, apontando para uma árvore à frente, me mostrou o sinal da estrada, que, contornando o morro, seguia no campo limpo bem adiante. É só seguir o corredor – me disse o informante.

                Voltei ao ponto da dúvida. Júlio estava deitado debaixo de um arbusto. Franco esperava sobre a baique. Sem demora, tomei a estrada que dobrava à esquerda, e por uma subida longa, porém suave, fui pedalando contornando o morro pelo seu lado esquerdo em sentido horário. Quando encontrei uma bifurcação vi no chão a seta marcada, mas mesmo assim, esperei o “pelotão”. Demorou horrores para Júlio chegar. Depois daquele ponto a estrada tomava um corredor, que, sem condições de erro, induzia ao caminho certo.      

                O chis da equação foi resolvido “abandonando” um dos termos. Aí ficou uma só equação com uma incógnita. A equação – chegar a Cocalzinho; a incógnita – por qual caminho? O caminho estava marcado: seguir pelo corredor para sempre e sempre.

                A partir dali imprimi meu ritmo - constante, firme e determinado.

                O campo se abriu. O horizonte se distanciou. A relva era rasteira e tinha sido queimada recentemente. Com a persistência da natureza, mesmo depois do fogo, os brotos cresciam como se nada tivesse acontecido. O milagre repete a cada ano. As plantas do cerrado resistem. Resta saber se os micro-organismos, os pequenos seres vivos que participam da transformação da matéria orgânica em adubo, continuam ali proporcionando à fertilização do solo. O tempo dirá. Se a resposta for NÃO o deserto estará batendo às portas de todos nós e deserto não tem clemência de ninguém.

                Pedalava observando tudo. O solo daquele lugar era úmido e pedregoso. O lençol freático era aflorado. A vegetação era característica de terreno molhado. O capim, em forma de tubos bem finos, espetava o vento. Os arbustos teimosos, continuavam ali tentando introduzir suas raízes entre as pedras à procura de água e alimento. O alimento era pouco. O solo arenoso não guardava nutrientes em abundância. Essa situação, porém, não minimizava em nada a beleza e a riqueza que o cerrado tem.

                Nesse ambiente, pedalei por muito tempo. Uma fazenda aqui, outra ali.

                Nas estradas já se via o restolho das “pedras de Pirenópolis” servindo como pavimento nos lugares críticos em época chuvosa.

                Olhando em frente avistei a serra dos Pireneus, que há milhões de anos está ali criando no horizonte um contorno movimentado, quebrando a monotonia do reto. Cocalzinho, à frente e  à  baixo, agora era uma realidade. Do lado direito, um grande vale, coberto por palmeiras de um verde escuro, me chamava a atenção. A vontade era explorar cada ponto e pisar cada metro quadrado para usufruir da bênção do conhecer, do ver-de-perto, do apalpar, do sentir e do cheirar.

                O pedalar era um momento único. Tinha tempo para agradecer a Deus por um caminhão de bênçãos recebidas. Tinha tempo para introspecção. Para lembrar de pessoas queridas. Para orar por coisas importantes. Para abençoar nosso Brasil que tanto sofre nas mãos dos maus-caráteres que nós mesmos elegemos. Para olhar para o próprio corpo e ver que mesmo aos quase cinquenta e oito anos ainda tem força e saúde em abundância. Para olhar para o azul do céu e dar GLÓRIA A DEUS pela maravilha da criação que não me canso de admirar. Para entender o que é liberdade. Para sentir paz e desfrutar dela, sem ter que pagar a fatura depois. Para sorver o vento que chega e passa, sem saber de onde vem, nem para onde vai, e no seu caminho, distribui oxigênio para uns, gás carbônico para outros, mantendo o equilíbrio da vida.

                Chegar a Cocalzinho foi a consequência de caminhar para frente focado num objetivo. Mas também foi a perda de um corolário de bênçãos que se desfrutava no campo.

                Ao entrar na cidade, pela rodovia, por baixo da fábrica de cimento, avistei Hugo, Diego e Paulo que já saíam em direção a Pirenópolis. Paramos e trocamos algumas palavras. Perguntei quem poderia me emprestar algum dinheiro para eu tomar um refrigerante e comer alguma coisa. Meus documentos e dinheiro estavam no bolso da mochila de costas do Júlio que ainda estava  à caminho. Hugo prontamente tirou dez reais do bolso e me deu. Paulo apanhou dois pacotes de biscoitos e me entregou. Prometendo pagar-lhe o empréstimo quando chegasse a Pirenópolis nos  despedimos.

                Cada um seguiu seu objetivo do momento. Eles em direção à serra dos Pireneus. Eu em direção ao mercado mais próximo.

                Na esquina à frente, vi um pequeno comércio. Fui até lá. Desci da baique. Tirei as luvas, o capacete e os óculos. Coloquei tudo sobre o banco de madeira instalado sobre a calçada, de frente para a rodovia. O suor escorria pela testa. Os cabelos estavam molhados. O calor era intenso. Sem pressa, entrei no mercado. Um senhor de estatura mediana e barriga avantajada, com cara de dono, estava sentado detrás do balcão semi-circular. Perguntei se tinha refrigerante. Ele respondeu afirmativamente dando a sugestão de um de 600 ml. Concordei. Comprei. Paguei. Saí e fui para o banco de madeira na calçada. Sentei. Recostei no espaldar que era simplesmente uma tábua.  Abri as pernas esticando-as e apontando os pés para cima, tentando relaxar o mais que podia. Pressionando a tampa com a mão esquerda abri o refrigerante. Um biscoito tipo integral e um gole de bebida. Assim foi até consumir tudo que tinha. Sem pressa, procurei uma lata de lixo para depositar os que sobraram – as embalagens.

                Na rua, passavam carros com motivos de campanha eleitoral. Algumas pessoas prognosticavam o resultado para prefeito da cidade: ele vai ganhar no primeiro turno.

                Descansado, recoloquei o que tinha tirado – óculos, capacete e luvas.

                Este era o último trecho do percurso - a serra dos Pireneus. De cá estava Cocalzinho. De lá estava Pirenópolis. Já havia passado por ali há muito tempo, quando fui com a turma do Pikí da Trilha a cidade de Goiás. Como tenho GPS na cabeça não teria nenhum problema de acertar o caminho. Se passei uma vez tinha grande probabilidade de passar novamente sem perguntar à ninguém.

                Saí pedalando pela rua lateral em sentido Corumbá até a segunda esquina, onde dobrei à direita. Passei do lado da delegacia de polícia e segui em frente. Esta rua era a saída da cidade para as bandas dos Pireneus. A rua era asfaltada, limpa e deserta. Bandeiras de partidos políticos, nas suas cores convencionais e com um número ao centro, hasteadas em frente as casas, tremulavam ao vento.

                Passei por um casal que caminhava a passos lentos no mesmo sentido que eu. Pelo jeito estavam vindo do compromisso cívico – votar.

                Era meio-dia. Sol à pino. Trinta e três graus centígrados na cabeça. A luz forte refletindo nos telhados de zinco era amortecida pelos óculos escuro que usava. Eles eram próprios para pedalar. Protegiam os olhos da luz forte, do vento, da poeira e de corpos estranhos que porventura estivessem no “caminhos dos olhos”.

                Envolvido por uma doce solidão saí, sabendo que, se nada de errado acontecesse, chegaria dentro de uma hora e pouco. Dobrei à esquerda, logo adiante, deixando a BR de terra que seguia em frente. Algumas poças de lama me esperavam pela estrada. Bom sinal. Chuva em setembro, em quantidade para formar poças, era coisa boa. A vegetação demonstrava o efeito benéfico das chuvas. Tudo verde. Os frutos de Pequi, dependurados pelas pontas dos galhos, se mostravam à meio caminho da maturação.

                A subida começava em breve, logo depois de uma estrada destruída pelas águas de enxurrada que desceram da serra. Reduzi marcha e mandei ver. Com pedaladas de quem está com a vida ganha, fui escalando aquela estrada pedregosa. Desviava de uma pedra aqui, de outra ali e assim ia “comendo a sopa quente pelas bordas”.

                Uma construção nova e bem feita, do lado esquerdo da pista, com um portal à frente, indicava a entrada do Parque Estadual Serra dos Pireneus. O portal estava aberto e não tinha ninguém para controlar quem chegava. Passei observando aquele posto de controle com olhos de engenheiro. Aprovei a obra. Tinha a aparência de ser bem feita. Pedra de Pirenópolis em forma de escamas, revestiam as paredes. Esquadrias de madeira fechavam os vãos de iluminação.

                A ladeira era longa. À direita, via-se um vale que estendia abaixo mostrando toda a beleza da região. À esquerda, a serra imponente exigia que olhasse para cima para ver seu topo. Grandes formações de pedras antigas e desgastadas pela intempérie convidavam para um passeio exploratório. Ao lado da pista, uma pequena vala me lembrava que, da outra vez que ali passei corria um filete de água cristalina e fresca. Dessa vez não ouvia seu barulho. Percebi que o leito estava seco. O lençol freático ainda estava baixo. Continuei observando tudo o que as vistas conseguiam ver. Uma hora era o capim. Outra hora era o horizonte. O vale à meia distância me convidava a descer a serra e viver ali por mil anos sem voltar à “civilização” cheia de violência, de suborno, de mentiras, de depredação, de ganância, de... É melhor parar de enumerar essas coisas senão a gente fica louco. Uma antena repetidora de tv, no ponto mais alto da serra, destoava – era o preço da “evolução”. Vá dizer ao povo que de agora em diante não haverá mais tv – noventa e nove por cento morre, na hora, por ataque cardíaco. Só de pensar que não vai mais ver a novela das oito nem o próximo big brother com todas as formas de mediocridade reunidas num só local.

                Subia lentamente num pedal ritmado, com mais vontade de parar do que continuar. Mais à frente vi um filete de água que tanto esperava encontrar. Parei a baique. Desci. Tirei o capacete, os óculos e as luvas. Saí a procura de um local em que pudesse encher a caramanhola. Logo encontrei. Parado ali, observando aquela água filtrada pelo solo; fresca e cristalina, abaixei e meti a garrafinha em um pequeno poço. Bebi vários goles de água. Sentindo-me saciado, comecei a despejá-la pela cabeça aplacando o forte calor. Lavei o rosto suado. Molhei a nuca e o pescoço. Passei a mão no peito para completar o serviço. Voltei para a baique com outro vigor. Me arrumei novamente e saí agradecendo a Deus pelas bênçãos espalhadas pelo caminho, à minha espera.    

                Estava completando a ladeira, mas ainda faltava passar pela moita de mato. Ao adentrá-la pela estrada estreita, a temperatura era amena. O sol, respeitando as árvores que se faziam numerosas, resolveu se esconder dando lugar à sombra. Sentindo-me como um intruso, me vi no meio do “salão principal da Ópera da Natureza”. Como por um sonho, não vi ninguém, mas ouvi um coral de mil vozes dando um concerto. Com um detalhe – não havia maestro nem instrumentos, só vozes. Um coral onde ninguém desafinava nem saía do ritmo. Todos os habitantes se faziam presentes. Não se ouvia nenhuma palavra. Nenhuma conversa paralela. Eu era o único estranho na platéia. Não tinha reservado lugar nem comprado ingresso, mesmo assim, meu espaço, em posição estratégica, estava desocupado. Que privilégio!

                Não esperava encontrá-las ali naquela hora. Falta de memória, pois quem não sabe que na aproximação das chuvas as cigarras saem dos seus esconderijos e subindo nas árvores cantam até morrer?

                Senti vontade de parar; deitar de costas por sobre as folhas secas, imóvel como um defunto, e viver aquele momento para sempre. Que vontade de transformar utopia em realidade. Que desejo de baixar os céus e estabelecê-lo ali. Ansiei transformar os homens em Adãos e Evas antes da queda.

                Mesmo fora de mim, continuei pedalando como se nada tivesse acontecido. Vendo o filme da minha vida ninguém seria capaz de notar por onde andei e o que vi. Só eu vi, ouvi e senti.

                Logo em seguida, a estrada ganhava um planalto coberto de cerrado. O morro Cabeludo estava solitário do lado esquerdo da pista, pois uma placa avisava que as visitas estavam suspensas. 

                Uma moto aproximou e passou trepidando nas costelas-de-vaca. Eu percorria pelas bordas da estrada tentando me livrar daquele sofrimento. Subindo e descendo pequenas elevações me aproximei da cachoeira do Lázaro. Resolvi entrar e tomar um banho de cachu, como disse o Hugo. Ao passar pelo portão de entrada, um senhor saiu de dentro de uma Kombi e se apresentou como o porteiro. Perguntei-lhe se tinha que pagar alguma coisa. Ele me disse – quinze reais. Sentindo-me espoliado, e, como só tinha no bolso o troco de dez reais do que me sobrou da compra em Cocalzinho, sem descer da baique, dei meia volta e continuei como se nada tivesse acontecido.

                Logo depois, no “mirante”, vários motoqueiros de motocross, sentados nos bancos de madeira, jogavam conversa fora, ao lado do vendedor de água gelada. Decidi parar para o último descanso, pois, já avistava, lá embaixo, a cidade de Pirenópolis. Montado na baique com os pés no chão, me aproximei do vendedor, cumprimentando a todos. Um dos motoqueiros, olhando para mim, disse – esse é profissional, ganhou Corumbá. Assenti, fazendo um gesto característico e um sorriso discreto.

                Comprei uma garrafinha com água gelada. Tomei-a toda. Despedi do pessoal e parti para concluir a empreitada.

                Dali em diante era mão nos freios, porque a descida era acentuada e longa. Não sabia que além disso tinha muita costela-de-vaca. Muita mesmo.

                Moreninha – a baique de treino que me levava - tinha uma suspensão pouco melhor do que nada. Muito próximo do nada. Senti muita falta de um amortecedor eficiente. Não podia soltar os freios, porque senão, tanto a baique como eu, iríamos nos desmontar por completo. Dessa forma desci a ladeira até ganhar o asfalto da chegada. Por ele segui observando as placas indicativas de pousadas e clubes nas proximidades do rio que passa dentro da cidade.

                Num instante estava sacolejando nas pedras irregulares das ruas de Pirenópolis.

                Rumei-me em direção à ponte porque intencionava me derreter nas águas frias do rio. Num minuto atravessei-a, e descendo as pedras, estacionei Moreninha. Olhei no ciclo-computador e vi marcado – cento e trinta quilômetros. Era essa a distância percorrida desde o Guará – cidade satélite de Brasília. Tirei tudo que tinha direito até ficar somente com a calça de pedalar. Se tirasse também ela, ficaria nu. Resisti à tentação. Contive-me em obediência à lei. Me joguei naquele poço de água fria onde várias pessoas  banhavam. Deixei apenas a cabeça fora d'água até sentir refrescado.

                Eram quase duas horas da tarde. Saí da água. Vesti a roupa, e, montando Moreninha, fui para o restaurante da praça.

                 Chácara Betânia, 13 de outubro de 2008

FLECHA AFIADA

                                              

                                                                                                             

                               

domingo, 28 de setembro de 2008

UM CICLISTA, UM SONHO, UMA CONQUISTA

O comandante, pelo sistema de som da aeronave, informou que em Curitiba o céu estava nublado com temperatura de dezesseis graus. Para um brasiliense que estava de bermuda e blusa fina isso era problema. Não tão grande, porque na mala trazia o agasalho que resolveria o transtorno.

Logo que desci, no saguão do aeroporto, tratei de apanhar a blusa de frio e vesti-la. Uma preocupação a menos para um ciclista de primeira viagem naquelas terras do sul.



Primeira coisa a fazer foi descobrir como ir para Campo Largo, a trinta quilômetros dali. Consultei os motoristas de coletivos que estavam por perto. A informação foi unânime: ônibus não leva bike nem se estiver desmontada. Só leva na caixa. Também não leva tv nem lâmpada fluorescente porque se quebrar tem gás que exala. Bem, concordei que tv e lâmpada fluorescente tem gás que exala, mas bike tem o que? Gás, só o ciclista. Mesmo não aceitando aquela assertiva não tinha o que fazer. Já sabia que teria que pagar táxi. Pensei logo nas finanças. Nem bem cheguei já começava a gastar alto.

Negociei com o taxista e acertamos a viagem por sessenta reais. Acomodei a bagagem no carro e fomos. A pista era ótima – dupla, lisa e sem engarrafamento. Chegamos a Campo Largo em pouco tempo.

O hotel tinha sido reservado pela Raquel França que chegaria no dia seguinte. Logo vi que iria gastar uma grana desnecessária. Ele era chique. Bem, nem tanto, quando soube que teria que subir com a bike pela escada até o quarto andar, pois só tinha um elevador. Como a primeira diária já estava paga não havia outra alternativa. Sem reclamar, subi os degraus carregando minha namorada. Corpo de modelo – esbelta e leve.

Descendo em seguida, fui procurar um restaurante porque depois das quatorze horas o saco já estava vazio, e saco vazio não pára em pé. Eu já estava quase cambaleando sem tomar nenhuma.

Restaurante do JEF. É esse mesmo, disse eu para comigo. Entrei e me fartei. Não era aquele “Brastemp”, mas, ou comia ali ou ia à alguma lanchonete sei lá onde pois os restaurantes estavam se fechando.

Voltei para o hotel e descansei por um tempo. Tinha que treinar por duas horas naquela tarde. Como sou atleta aplicado iria cumprir o que o treinador – meu filho Fernando Vilela - determinara.

O sol tinha tirado férias. Um céu de chumbo e um frio de quinze graus tinham tomado seu lugar.

Coloquei a blusa corta-vento por baixo, a do Piki da Trilha por cima e a calça comprida. Me preparei como pude para não sofrer com o clima adverso.

Saí como cachorro-doido – onde achava uma pista que ia em direção ao mato eu entrava. Foi assim que encontrei lugares lindos. A região é bem acidentada – ou sobe ou desce. Se animar nas descidas, lá na curva o mato te abraça. O solo é de um material compacto cor areia que nem os pneus suja. Os pinheiros parecem grandes guarda-chuvas sobre a floresta. Na mata, uma clareira lá. Uma casinha ali. Uma vaca pastando acolá. Um cachorro latindo aqui.

Senti muita vontade de fotografar, mas luz boa não tinha, nem máquina à mão.

O dia chegou ao fim muito rápido. Voltei contra minha vontade, mas não tive outra opção.

Na sexta-feira de manhã peguei a bike e fui pelas ruas à procura de hotel mais barato. No sítio da prova, na internet, só indicava dois. A justificativa era que a cidade era pequena. Encontrei mais um monte. Inclusive com preço bem inferior e com qualidade ótima.

Voltei. Fechei a conta e, tomando um táxi me transferi para o Manayara – sessenta dias de inaugurado, sem escadas para subir, com preço inferior, com cama boa para dormir e com internet de graça. Era o céu. Aleluia!

Sexta e sábado passei fazendo pouca coisa. Descobri que poderia ter chegado no dia anterior à prova que seria tudo igual.

Sol não tinha para eu fotografar. Bem que levei minha Nikon, mas, coitada ficou triste na mala sem poder fazer muita coisa.

Na manhã do sábado saí pedalando para comprar lembranças. O hotel ficava na BR que passava dentro da cidade. É nessa pista que estavam as lojas das fábricas de porcelana. A cidade é referência nesta produção. Depois de identificar várias, entrei numa e comprei duas xícaras para chá – uma para mim outra para “mamãe” - minha esposa.

À tarde fui de bike ao local do evento – igreja do Micheletto - à cinco quilômetros do hotel numa pista asfaltada que atende a zona rural daquela região. Peguei meu kit – uma camiseta tamanho médio na cor verde com texto relativo ao evento - depois, aproveitando a oportunidade, tomei a pista do circuito e pedalei por meia hora voltando em seguida. Vi o que me esperava para o dia seguinte – estrada de terra batida, sem poeira, sem lama e sem calor. Quando regressei, tratei de aprontar os detalhes – limpar relação e colocar óleo na seringa.

Naquela noite fomos ao restaurante Casa da Nona. Era Raquel, Adriano (de Goiânia), Érika Gramiscelli, alguns atletas que não conhecia e eu. Depois chegaram outros ciclistas para fazer a mesma coisa: comer massa. Servimo-nos à vontade e comemos o quanto deu.

Chegando ao hotel conferi os itens importantes – pressão dos pneus, óleo na seringa, limpeza da relação, dois cilindros de gás e aplicador, bebida energética, ciclo-computador, frequencímetro cardíaco e o mais importante: a blusa nova “SÓ CRISTO SALVA”, ainda um protótipo, mas já em ação. Depois da conferência fui para a cama. Deitado, retomei a leitura do livro “A Cidade do Sol de Khaled Hosseini”. Não muito tempo depois, contra minha vontade, interrompi a leitura. Hora de ninar. Dormi como uma pedra, melhor ainda, como o Fred, meu gato de estimação.

Acordei às seis e meia, pilhado como uma Ray-o-vac. Não via a hora de acontecer a largada. Tomei café e, às oito horas, com tudo que tinha direito, parti para o local da concentração. Levei uma mochila com várias coisas. Vestia blusa, porque a temperatura não passava dos dezesseis graus. Para mim aquilo era um Pólo Norte. Pela misericórdia divina, logo em seguida, o sol tomou seu posto se mostrando num céu azul escuro. Nuvens brancas desenhavam figuras lá em cima me convidando à fotografá-las. Fui aquecer na pista de asfalto que passava em frente à igreja até que ouvi no som o chamado para o alinhamento. Tomei minha posição ao lado de José Milton, meu amigo de pedal. Ele me animou dizendo que eu ganharia sem dúvida alguma. Me arrepiei quando ouvi aquilo, mas fiquei na minha pois qualquer prova só se ganha na bandeirada. Antes disso, contar vitória é desrespeitar os competidores.

Éramos mais de duzentos atletas alinhados em cima de uma grama verde ladeados por grades de metal formando um corredor até a estrada. A largada se deu no horário previsto – nove horas. Como sempre a maioria largou forte. Eu fui na balada sem arrepiar visto que à frente estavam curvas fortes e estrada estreita. Me cuidei para não envolver em acidente. Ainda bem que não houve nenhum. Me posicionei bem e segui no bolo pois estávamos em uma descida leve sinuosa e longa. Ao final tinha um riacho com uma ponte estreita e logo depois uma subida curta, mas importante. Gosto de subidas. São nelas que se conhece quem está preparado para chegar primeiro.

Comecei a despachar um a um dos que não conseguiam manter o ritmo. A estrada serpenteava, ora por matas fechadas ora por pastagens verdes com pequenas sedes de fazendas ou, simplesmente uma casa de campo ou uma chácara. Ou era subida ou era descida. Não havia retas nem planos. Ou subia marcha ou descia marcha. Ou pedalava forte ou descansava de pedalar. Ora a freqüência cardíaca estava a 178 bpm ora estava a 118 bpm.

Os pelotões foram-se diluindo pelo trecho. A elite masculina como sempre, tomou a dianteira e vazou. Não se conseguia ver quem estava à duzentos metros à frente. A curva na mata não deixava. Para aqueles que não conheciam o percurso isso era impedimento para imprimir maior velocidade à prova. Em decidas pedalei na velocidade de atletas que estavam à minha frente acreditando que eles conhecessem o caminho. Deu certo, porque ninguém caiu. Depois que passava algumas curvas via que poderia ter imprimido velocidade maior.

No quilômetro treze, numa subida forte, passei pelo pelotão da elite feminina. Nunca mais o vi. No quilômetro vinte e quatro estava o primeiro ponto de apoio. As pessoas, demonstrando boa vontade, nos entregavam os copos com água com as tampas furadas.

Nessa hora a temperatura estava amena e eu suava moderadamente. Sentia que poderia continuar imprimindo um ritmo forte o bastante para não dar chance a quem quisesse me alcançar. Na verdade eu não sabia a que distância estava o meu principal adversário. Saí na frente e achava que continuava na frente. Não consegui identificar nenhum outro com placa amarela e com cara de velho. Eu era o idoso mais veloz até aquele momento.

Percorrendo mais alguns quilômetros deixamos a estrada de terra e pegamos uma rodovia pavimentada com concreto. A pista era sinuosa e lisa. Havia descidas fortes e longas como também subidas na mesma proporção e forma. Nas descidas me lembrei das corridas de motos onde os pilotos raspam os joelhos no chão ao passarem por curvas acentuadas, pois nunca antes havia me inclinado tanto em curvas. Atingi a velocidade de quase setenta quilômetros por hora.

No quilômetro trinta e seis havia outro ponto de água. Nesse ponto os grupos se dividiam. O que faria o percurso completo: placa fundo verde, (oitenta e sete quilômetros); o que faria o reduzido: placa fundo amarelo, (cinqüenta e seis quilômetros)metrosi e quem faria o reduzidoitenta e sete quilvas.ta raspa o joelho no cha com concreto. e. 33333333333333333333333333333333. Minha categoria – master 55-59 – faria o reduzido. Peguei mais uma vez um copo com água. Desta vez a tampa estava fechada. Aproveitei para tomá-lo depois. Coloquei-o no bolso esquerdo da blusa e continuei pedalando próximo ao meu limite.

Um quilômetro depois saímos da pista pavimentada dobrando à esquerda em estrada de fazenda com as mesmas características anteriores. Entrei no trecho que mais me exigiu. Muitas subidas fortes. Numa delas foi necessário colocar coroinha com segunda. Muitas descidas iradas. Muitas curvas cegas. Nesse trecho encontrei um garoto, que olhando para mim e vendo a cara de velho perguntou minha idade. Ele tinha quatorze anos. Era alto e forte como a maioria dos sulistas.

Rodando por entre a mata vi a marcação indicando para entrar à direita, numa trilha estreita. Reduzi marcha e entrei. A trilha me levou para um ponto incomum. Avistei à frente um túnel de manilhas de concreto com um metro e vinte centímetros de diâmetro aproximadamente. Entrei sem pensar me abaixando o máximo para não tocar as costas na parede irregular. Ali dentro parecia uma masmorra: escuro, frio, úmido e sufocante. Vi à distância a luz no fim do túnel. Pedalando com cuidado ganhei a saída e continuei pela trilha até encontrar a estrada. Mal tinha passado por esse ponto interessante avistei à direita uma grande cratera que me pareceu uma mina de onde retiravam material para a fábrica de cimento. A mata era fechada e a pista parecia um tobogã.

Passado esse trecho comecei a olhar no hodômetro e fazer a conta de ré. Faltavam dezesseis quilômetros para a vitória. A bike rodava absoluta por uma estrada que passava no meio de uma pastagem. Agora eu via ao longe e contemplava o horizonte. Ora olhava o infinito ora olhava para a roda dianteira que passando sobre o rípio produzia um som característico. Via a suspensão trabalhando e o chão passando rápido sob os pneus. Comecei a imaginar que seria possível conquistar um título nunca antes conquistado. Sem me desconcentrar, olhava para o céu azul cheio de nuvens e agradecia a Deus pela minha saúde. Lembrei-me dos treinos cansativos que fizera até então. Das ladeiras que foram subidas repetidas vezes e dos milhares de quilômetros percorridos em preparação. Quantas horas pedaladas na solidão das pistas e quanta energia consumida ao final dos exercícios. Sentia que tinha força sobrando. Descia mais rápido e freava em cima das curvas. A alegria foi tomando conta de mim e por pouco não chorei em cima da magrela.

Faltando três quilômetros para o término o percurso se fundia com o início. Ali eu já havia passado. Conhecia o que viria pela frente e como dosar a energia para chegar esprintando. Comecei a olhar para trás tentando ver quem estava na retaguarda. Não via ninguém. Eu estava largado na frente.

Administrei a chegada, pois a pista estava cheia de pedras soltas e não poderia correr o risco de ter um pneu furado ou sofrer uma queda boba. Fitando à frente vi em cima de uma elevação três pessoas que observavam os passantes. Avistei as árvores do pátio da igreja. Vi alguém da organização indicando a entrada e algumas moças à sua volta aplaudindo quem chegava. Avistando o fiscal com a bandeira na mão levantei-me na bike e esprintei ouvindo no som “acaba de chegar o ganhador da prova na categoria master 55-59”. Encaixei um soco de direita por baixo, como sempre faço quando ganho, e fui receber a medalha de participação. Havia cravado o tempo de duas horas trinta e um minutos e vinte e nove segundos.

A alegria tomou conta de mim. Saí para a pista de asfalto para me soltar. Depois de um tempo voltei aliviado e agradecido.

O segundo colocado chegou dezoito minutos depois.


Hélio Vilela


Viagem à Machu Picchu 2005
MACHU PICCHU

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Sonho de Consumo

Meu sonho de consumo atual é ser filhote da Manchinha. Não gosto de usar o termo “sonho de consumo” porque parece que tenho vinte anos: idade de pirralho universitário que discute, e resolve o Brasil numa reunião de lanchonete. Você já está pensando que começa a ler um texto escrito por um velho, não é? Pois saiba que não é nada disso. Eu só tenho cinco décadas de vida e mais alguns quebrados. Ando de mountain bike por aí quase todo final de semana. É bem verdade que de vez em quando dou umas raladas nos joelhos e cotovelos, mas isso faz parte da cartilha dos usuários de veículo de duas rodas.

Deixemos de lado essa discussão de idade, até porque não leva a nada. Outra expressão que não gosto: até porque. Esse jargão é usado muito freqüentemente pelos políticos que penteiam seus cabelos com fixador em gel antes de concederem entrevista para a emissora de tv local. Se for para um programa em nível nacional, além do fixador usam um produto no rosto para tirar o brilho da pele. Querem mesmo que o brilho seja somente deles. Nenhum outro concorrente pode ameaçá-los.

Vamos ao que interessa, já que o leitor começa a achar que eu não tenho método para escrever e nem mesmo sei o que quero transmitir. Não posso passar, nem de longe, essa vaga idéia de enrolação escriturística.

O que eu quero mesmo é ter sessenta dias de vida; dezoito centímetros de altura e trinta centímetros de comprimento, fora o rabo. Quero receber o alimento todo dia no meu quarto de dormir, porque é lá que os filhotes ficam o tempo todo. Comer lagartixas fresquinhas trazidas pela mamãe Manchinha todos os dias, sem preocupar onde foi que ela conseguiu, e a que preço. Quero permanecer deitado na cama, mesmo que seja nos pés da cama, sem lembrar que o gás pode acabar a qualquer momento. Se ainda não aumentou, terei que desembolsar trinta e cinco reais. Desejo ardentemente ficar deitado na barriga da mamãe e de vez em quando dar uma mamadinha e depois dormir até o sono acabar.

Quando o sono acabar eu quero pular da cama no chão e brincar com minha irmã, a Cris, uma brincadeira que não tem hora para terminar. Se terminar uma começa outra e assim vai até...

Eu quero mesmo é pular do meu varal de roupas armado no quarto, feito com um caibro de madeira boa, na altura de um metro e oitenta.

Noutro dia eu a vi pular de lá ao chão. Só ouvi o “toc” de suas patas no piso. Pulou e continuou a brincadeira que tramava com Manchinha e Cris. Dez vezes sua própria altura. Não aconteceu nada além do pulo e da minha surpresa. Se eu pulasse da mesma altura, proporcional ao meu tamanho, já estaria no envelope de madeira envernizada. Eu tenho um metro e setenta e quatro centímetros de altura. Está aposto no meu certificado de reservista de hum mil novecentos e sessenta e nove, emitido pelo Exército do Brasil. Não encolhi nada, pois ando empinado como um mastro de bandeira nos braços de uma escolar que desfila no sete de setembro, quando passa em frente ao palanque do Lula e seus...

Há poucos instantes, quem eu sonho ser estava em cima da cadeira, embaixo da mesa de jantar. Enquanto eu tomava uma cuia de chimarrão ela esperava a hora de receber nova porção de ração balanceada. Não faz a menor idéia do valor do quilo da comida que come. Eu, que a comprei, andei feito romeiro de Canindé, pesquisando preço, sabor e qualidade. Paguei no cartão de débito. Tentei o primeiro cartão – foi recusado. Não tinha fundo, é claro. Tentei o segundo cartão – passou. Depois fui ao banco e constatei que estava usando o cheque especial para comprar comida do animal dos meus sonhos. Juro de cheque especial anda mais alto do que as torres gêmeas que não existem mais. Bem que os juros poderiam ter caído como elas, mas não foi assim que aconteceu. Permaneceram lá, como o Pico da Neblina: nas alturas, bem próximo das nuvens geladas, me colocando numa fria todo mês.

Só uma coisa não me agrada nessa história. O animal dos meus sonhos está com medo se sair de casa. Os cinco cães estão na espreita esperando uma oportunidade para correrem atrás. Isso é acerto de contas que não sei de quando vem. Não tenho notícias do fato que causou tamanha animosidade entre as partes. O certo é que não combinam a séculos. Por isso fica fechada dentro de casa. Para mim isso não faz a menor diferença, eu também fico fechado com medo do ladrão levar minhas coisas. Fico de guarda de dia, de noite, de guarda de feriado, de guarda de qualquer coisa... pensando que fazendo assim vou evitar a chegada do guardador da coisa alheia.

Quando ela crescer sairá, com certeza, mas à noite, pela báscula da janela. Irá fazer seus passeios noturnos enquanto os inimigos cochilam deitados nos panos espalhados no chão da varanda.

Bel, eu queria ser você, minha querida gatinha. Sua vida é ótima, mesmo tendo que bater de frente com a Sara, com o Tigre, com a Amanda, com o Iggy e com a Nina. Ah! se eu pudesse!

Chácara Betânia
Brasília-DF, 07 de outubro de 2004



PORTIFÓLIO

Como Administrar Câimbra

Os comentários que farei a seguir não estão embasado em estudo científico mas somente na minha experiência de ciclista de MtB durante esse quase quatro anos de pedal.

Já vi muitos atletas contorcendo no chão segurando uma das pernas e gritando como um condenado. A maldita câimbra.

Uma boa notícia! Isso pode ser evitado ou administrado com certa facilidade, basta ter algum conhecimento de causa.

Alguns motivos pelos quais a câimbra se manifesta:

Primeiro: - câimbra acontece com quem está despreparado fisicamente para o exercício em curso. Ou seja, se exigir do corpo mais do que ele pode responder existe uma possibilidade grande de acontecer. Exemplos: tentar subir uma ladeira forte em ritmo acelerado quando não se treinou gradativamente esse exercício. É mais ou menos como querer levantar um peso de 100 kg sem antes ter levantado pesos menores várias vezes. Participar de competição com duração de três horas quando não se preparou com treinos de duração maior que esse tempo.

Segundo: - ter uma alimentação que não contempla potássio. É por isso que se vê grande quantidade de ciclistas comendo banana durante os treinos. Banana tem alto índice de potássio. Frutas secas também o tem. O mineral “POTÁSSIO” evita a câimbra.

Para quem tomou os cuidados com o treinamento adequado e a alimentação correta e durante a prova sente uma fisgada ou um indício de câimbra há como administrar o problema para conseguir chegar ao fim sem ter prejuízo, ou tê-lo menor.

Senão vejamos: depois de muito tempo de prova aparece o sintoma. O melhor que se deve fazer é criar formas de alongar ou não deixar contrair. Pois a câimbra é nada mais nada menos do que uma contração involuntária da musculatura.

Lembro de um caso que aconteceu comigo na prova dos 100 km de cerrado de 2006, quando, depois de mais de quatro horas pedalando forte, na descida do Colorado, minha panturrilha direita deu sinal. Imediatamente posicionei o pé no pedal de tal forma a obrigar a panturrilha a alongar. Foi tranqüilo. Terminei a prova sem prejuízo algum.

É importante estar atento para esses cuidados porque são de fundamental importância durante a prova, e pode colocar tudo a perder a não observância deles.

Se mesmo assim a câimbra aparecer será de forma fulminante. Então, caído no chão e gritando feito um louco, procure alguém para te ajudar a alongar, porque o bicho pegou geral.

A persistir os sintomas procure um educador físico ou um nutricionista ou um médico.

Flecha afiada

Fevereiro 2008

PS. Para complementar o acima exposto vejam o que me aconteceu dia 10 de fevereiro agora.
Eu estava de molho por causa de uma gripe e por isso fiquei parado 9 dias. Não pedalei, não fiz nada, só com gripe. No sábado dei um pedal leve de 2h em speed e no domingo fui fazer o reconhecimento da prova de Sobradinho-DF. Muita gente, motivação, coisa e tal, percurso duro com muuuuuuita subida, e eu lá quebrando a regra (fazendo um esforço maior do que deveria) no final não deu outra - tive que administrar câimbra forte nas duas pernas. Então é muito bom lembrar que câimbra é mais ou menos como 2+2 é sempre 4. Esforço além do que está acostumado vai aparecer a maldita.