segunda-feira, 23 de março de 2009

PERIPÉCIAS

PERIPÉCIA 1:
Procurando melhores produtos que aumentassem meu desempenho na baique, comprei nos States, um par de pneus pra lá de top para usar sem câmara. O tal de tubeless, para aderir ao chick do inglesismo, já que não temos personalidade linguística.
Os pneus foram instalados nas rodas conforme manual. Rodei vários dias antes da competição, também, conforme o “manual da experiência ciclística”.

No dia da prova de Sobradinho – 80 km Trip Trial Pedal na Serra – lá estava eu, pronto para competir, e se deixassem, poderia até ganhar.
Na largada, que foi uma desordem total, um dos meus concorrentes conseguiu ir lá para a ponta e largar em posição privilegiada.
Eram muitos competidores. Com isso, até que desembolou, gastou-se muito tempo e com isso fiquei para trás. Muito para trás. Foram trinta minutos de pedal forte para ver “o blusa vermelha” com o numeral 280. Era o cara que eu procurava. Encostei e até descansei um pouco para depois atacar e pegar a dianteira, no asfalto, próximo à fábrica do cimento CIPLAN.

Na subida da vicinal estava à frente sem conseguir identificar meus adversários. Subi forte mas sentindo tranquilidade.
Na descida do quebra-corrente – descida muito técnica e perigosa – há dez metros do seu final o pneu dianteiro estoura e saiu do aro. Não houve acidente, pois estava bem devagar.

Desci da baique. Saí do caminho. Retirei uma câmara de ar que trazia às costas e com o pneu todo melecado do líquido, tive dificuldade para instalar o conjunto na roda. Peguei o gás e injetei-o rapidamente. A câmara furou, ou já estava furada. Nessa hora passou o 280. Depois passaram mais dois. Ia passando um rapaz e eu pedi-lhe uma câmara. Ele prontamente me cedeu a sua. Com a mesma dificuldade dantes instalei o conjunto. Com o segundo gás enchi o pneu. Arrumei as coisas e montei na baique.
Era só prejuízo. Estive parado por doze minutos. Tinha que correr atrás, pois faltavam somente dez quilômetros.

Em pouco tempo estava na pista dos três riachos. Com o coração na boca, coloquei toda força que tinha para avançar o mais que podia.
Por duas vezes avistei atleta com blusa vermelha. Não era o 280. Não arrefeci. Na última descida de pedras, antes de atingir o asfalto, na entrada da cidade, vi, ao longe, outro blusa-vermelha. Dessa vez era o 280. Alcancei-o e passei como uma bala. Faltava um quilômetro para a bandeirada.
Foi o suficiente para colocar um minuto de vantagem.

PERIPÉCIA 2:

Na quarta-feira passada, 18 de março de 2009, meu treino era em subida bem íngreme. A escolhida foi a subida-do-Leo.
Acordei às 5 horas da manhã. Me preparei para o treino com tudo que era necessário: acessórios de segurança, câmara de ar sobressalente, bomba de ar, remendos, caramanhola cheia, etc. Às 6 horas estava saindo de casa.

Fiz o aquecimento e mais dois exercícios subsequentes. Quando olhei para o quadro da baique, para beber água, a caramanhola não estava. Havia caído em algum lugar do planeta. Não sabia onde. Vi que meu treino estava comprometido. De três séries fiz uma e o abortei.

De onde eu estava me encaminhei para o Paranoá, para apanhar o carro no estacionamento do hospital, onde minha esposa o deixou. Encontrei a caramanhola caída, sem tampa e sem líquido, no lado da estrada de terra.
No asfalto, em um cruzamento, com muitos carros passando, levantei na baique para dar um sprint. A corrente saiu da coroa e eu caí violentamente no asfalto rugoso. Levantei muito rápido, com medo de ser atingido por um carro, e ganhei o acostamento de imediato. Senti que avia ralado forte o joelho esquerdo. A palma da mão direita estava dolorida, mas não era hora para averiguar nada. Só senti que não tinha freio traseiro.

Em pouco tempo cheguei onde o carro estava. Fui conferir o prejuízo.
Eu vestia uma calça própria para pedalar. Ainda bem! No joelho direito arrancou uma lasca que foi cortada com uma tesoura quando cheguei a casa. As luvas acabaram. Foram para o lixo. A parte interna do joelho direito foi atingido pelos dentes da coroa e ficaram marcas. O freio traseiro quebrou. Já estava sem freio dianteiro, pois o aro estava nas últimas. A mão direita ficou bem dolorida com a pancada, mas a luva protegeu.
Com isso posto, achei que deveria ter ficado em casa, debaixo dos cobertores, lendo um bom livro e tomando suco de acerola.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Sete Vidas

Exite um provérbio que diz que gato tem sete vidas, ou sete fôlegos. O Alemão, meu gato de estimação, só tem quatro. Já gastou três na boca do Tegus, meu doberman de guarda. Isso porque eu estava perto quando aconteceram os fatos. Se eu não estivesse do lado o coitado tinha ido na primeira.
- Domingo passado, 8 de fevereiro de 2009, feliz da vida, fui fazer mais um treino sério, como sempre treino.
Alex, Gustavo de Goiânia, Felipe Aragão, Fernando e Eu nos encontramos em um ponto, em Sobradinho, para fazermos um percurso, que poderá até ser o percurso da prova Pedal na Serra desse ano.
Saímos socando a bota. Houve até comentário - me disseram que era um treino light e agora vocês socam a bota. Coisa de DNA.
Descemos o “oito-e-meio” na tora e fomos embora, cada um no vácuo do outro, sem afrouxar o ritmo. Eu, é claro, era o elo mais fraco da corrente. Cinquenta e oito anos contra vinte e seis é covardia. Mas como não me importo com esse negócio de idade biológica, pedalava com todas as minhas forças.
Lá na frente, descendo o Mogi, depois de uma virada de noventa graus à direita, tomei a dianteira numa estrada estreita e pedregosa. A pista era em descida suave e sinuosa. Estava de última marcha a uns quarenta por hora, de cabeça baixa, girando forte. Quando vi, a uns vinte metros à frente, uma certa de arame farpado de cinco fios com o colchete fechado cruzando a pista, na entrada da trilha, só deu tempo para o reflexo. Ainda bem que eu estava com a bike de competição que tem rodas de cerâmica e pastilhas de freio do mesmo material. Quando freia a coisa para. Mas para mesmo. Foi a sorte. Freei fortemente. Ela levantou a bunda e eu caí de ponta-cabeça. Parei à cinco metros da cerca. O capacete partiu. A bermuda rasgou. O Cateye quebrou a base. O óculos encheu de terra. O ombro direito bateu com muita força no chão e a coxa direita, na altura da cabeça do fêmur, ficou em carne viva, e outros pontos de contusão de menores proporções.
Todos os outros ciclistas conseguiram parar antes de passarem por cima de mim e darem o golpe de misericórdia.
O Gustavo, que não me conhecia, ficou dos mais preocupado não querendo me deixar levantar, pedindo para eu esperar um pouco.
Levantei meio atordoado. Mapeei os pontos contundidos. Apalpei para ver se estava tudo emendado. Lavei os óculos. Guardei o Cateye no bolso da blusa e começamos de novo.
No início a coisa ficou meio difícil. Ardia tudo, e o ombro direito estava bem comprometido. Desci uma piramba devagar, mas logo a zonzeira passou e eu tomei o ritmo.
Até aquele momento já tínhamos percorrido dez quilômetros dos oitenta. Por experiência, já sabia que não poderia deixar o sangue esfriar. Se deixasse era caixão.
Esfolado, quebrado, e com tudo ardendo, percorremos os outros setenta quilômetros sem quebrar o ritmo.
Eu sentia uma aparência de clavícula trincada. Não conseguia levantar o braço. Não conseguia pedalar em pé.
Passei a mão no ombro. Não detectei ponta de osso saliente. Apertei. Nada mexeu.
Tocamos para frente.
Desse modo chegamos ao ponto de saída, depois de quatro horas de pedal.
Passei as chaves do carro ao Fernando. Ele ajeitou as coisas e voltamos para casa.
Me banhei lavando as feridas. O braço direito era um zero à esquerda. Não conseguia realizar trabalho algum.
Passei pomada anti-inflamatória nos pontos ralados e Gelol no ombro. Tomei um comprimido de Nimesulida (anti-inflamatório) e fui destruir uma montanha de lasanha que me esperava fumegando.
À noite, fui dormir com o corpo dolorido mas sem sofrimento.
Acordei no dia seguinte zerado, pronto para outros oitenta quilômetros de sobe-e-desce.
O único problema que poderia ter acontecido, se eu não tivesse conseguido parar, seria ter sido degolado pelo arame farpado. Só isso.
Acho que queimei uma vida. Agora só restam seis.
Montando uma equação de primeiro grau, considerando minha idade atual como média, e fazendo as contas, chega-se ao seguinte resultado: cinco vezes cinquenta e oito é igual a duzentos e noventa. Mais cinquenta e oito – trezentos e quarenta e oito.
Se não gastar outras vidas pela frente, ainda consigo ir longe.
Vou morrer com uma bela idade.
Ainda vou pedalar muito.


Chácara Betânia, 10 de fevereiro de 2009


Flecha Afiada


sábado, 31 de janeiro de 2009

HÁ PAZ NO TANQUE

Há quase dois anos, construí, aqui na chácara, um tanque para criar peixes.
O tanque tem a forma de uma grande bacia, com seis metros de diâmetro e um metro e oitenta de profundidade, no centro. Mas não parece essas bacias atuais, modernas, de plástico. Parece uma bacia de chapa galvanizada em que eu lavava os pés na segunda, na terça, na quinta, na sexta e no domingo. Faltou quarta e sábado, deu fé? É que nesses dias eu tomava banho completo, lá no calabouço, atrás da casa do monjolo, ao lado da amoreira. Um banho gostoso, debaixo daquele mundaréu de água fria que caía da bica.

Tá achando graça do que? Não faz tanto tempo assim não! Cinquenta anos.
Voltemos ao nosso assunto principal porque já divaguei demais e assim eu terei minha nota de redação diminuída por falta de seguir regras. As tais de regras.
Todo mundo tem que estar “regrado”, mas eu não gosto muito disso não. Se eu fosse um Machado de Assis poderia escrever o que quisesse que os outros iriam bater palmas e achar que quando eu saísse das regras era inovação da língua portuguesa. Mas como não sou Machadinho...

Minha bacia é mais parecida com uma calota de fusca 66. Lembra? Não lembra! É da geração Internet? da turma do MP3, MP4, MP5, Mpx? Pois é, é bSem parecida com uma daquelas.

O volume de água nesse tanque é de trinta e três mil litros. Dá pros peixes nadarem bastante, achava eu, até que um especialista me disse que não posso ter mais que cinquenta peixes. Mais precisamente: um quilo de peixe por metro quadrado de lâmina d'água. Pra quem manja da fórmula de área, é só fazer as contas para ver no que dá. Mas tudo bem. Cinquenta está de bom tamanho para quem não tinha nada até semana passada.

Esse tanque já me deu muito trabalho. Fiz de tudo que a engenharia recomenda em termos de impermeabilização. Gastei grana que daria para comprar muitos quilos de peixe, mas deixa pra lá. “Mais vale um sonho do que uma carrada de abóboras”. Por duas vezes enchi o tanque, e ele continuava perdendo água por pequenas rachaduras provocadas por dilatação e retração do material. Coisa de esquentar e resfriar. Aí a superfície trinca e a água vaza.

Desisti por um tempo. Na verdade dei um tempo ao tanque de peixes.
Esqueci-me de dizer que na construção do tanque fiz duas canaletas externas, como bigodes, para coletar enxurrada e conduzi-la para dentro do tanque. É uma forma de economizar água.

Começaram as chuvas e com isso o tanque começou a encher.
Percebi que os vazamentos acabaram. Ué! O que houve? É que a água da chuva ao escorrer pelo solo mistura com terra e transforma em lama. Lama não é nada mais do que terra fina dissolvida na água. E terra fina dissolvida na água é o que as rachaduras precisavam para serem seladas. Aleluia! Problema resolvido.
Adicionei mais água para completar o tanque e coloquei cinquenta tilápias, dez piaus e dez matrinxãs. Desobedeci o especialista. Esses setenta peixes são filhotes. Os piaus e as matrinxãs são para comer um pouco dos filhotes das tilápias, porque as tais reproduzem pra caramba.

Hoje à tarde, quando o sol se pôs atrás do monte e a sombra tomou conta do lugar, me assentei na borda do tanque e fiquei olhando para aquela água calma, esperando o instante, quando um peixinho pulasse para movê-la. De vez em quando isso acontecia. E não é filial do tanque de Betesda.

Era uma paz que só Jesus pode dar. Coisa de louco.
Um silêncio perturbador, só interrompido pelo canto dos pássaros.
As árvores verdes rodeando o tanque e um céu azul intenso cobrindo-o. O chão forrado de capim cortado, depositado em forma de colchão.
Eu sozinho sentado ali, olhando o reflexo das nuvens na água, esperando a hora em que algum anjo, aliás, peixinho iria movê-la.

Meu dia acabou assim.



Chácara Betânia, 30 de janeiro de 2009


Flecha Afiada

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Lição Aprendida


Antes das oito da manhã, Fernando e eu, chegamos ao posto de combustível, depois do viaduto para Santo Antônio do Descoberto e antes da Polícia Rodoviária Federal, na BR-060 - Brasília-Goiânia. Procuramos, com os olhos, alguém que fosse identificado com ciclista. Do lado esquerdo do bar, avistamos um carro com uma baique dependurada atrás. Rumamos para lá. O primeiro atleta já estava se preparando. Fizemos a mesma coisa enquanto os outros chegavam. Dentre eles, eu conhecia o Boi, a Adélia, o Kid e o Franco. Éramos, ao todo, uns dez.
Todos estávamos prontos mas faltava um que demorava chegar. Quando chegou, em poucos minutos iniciamos nossa incursão.
Pelo que sabia, alguns iriam até as sete-curvas e voltariam, outros iriam até o Jerivá, como era nosso objetivo.
Pelos dias anteriores já sabíamos que naquele também faria muito calor. O céu estava limpo e o sol aparecia com todo vigor.
Saímos pedalando sem pressa, naquela manhã de “todos os santos” – primeiro de novembro. Fernando e Boi na frente, eu logo atrás juntamente com Adélia. Assim fomos, até que Adélia diminuiu sua marcha, e então, nós três seguimos em frente. Os outros ficaram para atrás, ao ponto de não serem vistos.
Depois do rio das sete-curvas, no retorno, Boi disse que esperaria Adélia ali e voltariam. Nos despedimos e fomos.
Agora, era eu e Fernando somente. Um no vácuo do outro, revezando de vez em quando. As decidas eram muitas e freqüentes. O vento estava às nossas costas. A temperatura ainda estava dentro do normal. Tudo ajudava para uma pedalada confortável. Desse modo, com duas horas e vinte e oito minutos, chegamos ao Jerivá.
Eu havia consumido setecentos mililitros de bebida – metade malto, metade repositor hidro-eletrolítico. Tinha em mente a necessidade de me hidratar bem, visto o calor e o sol.
Tiramos todo o equipamento. Acomodamos as baiques de forma segura e fomos nos alimentar e hidratar. Fernando comprou três litros de água e uma coca-cola de um litro e meio. Tomamos o refrigerante e um pouco da água. Abastecemos nossas caramanholas. Eu levava uma grande e uma pequena, historicamente suficiente para um pedal de setenta e cinco quilômetros.
Às onze e vinte pagamos a conta e preparamos para o retorno. Saímos em seguida.
Sabíamos que a volta seria com mais calor, com vento-contra e com mais subidas. Na primeira hora de pedal me senti bem. Tudo o que esperava acontecer estava acontecendo. Sol, calor, vento-contra e subidas. Mas comecei a não render como sei que rederia. Alguma coisa estava errada e eu não identificava. Fernando começou notar a diferença. Agora era somente ele que puxava. Eu ficava sempre no vácuo, mesmo assim, várias eu sobrava.
A velocidade média de volta é menor, sem dúvida. A topografia contribui para isso, além do tempo de pedal e do cansaço, que, com o tempo, chega.
Depois de Alexânia, depois da fábrica da cerveja e depois de uma longa subida, tinha a venda da Baiana. Paramos e tomamos uma coca-cola de seiscentos mililitros. Eu tomei mais que o Fernando. Ficamos devendo o refri pois não havia troco para cinqüenta pilas. Eu só tinha aquela nota. Fiquei de pagar em outra oportunidade, quando por ali passasse.
Dali em diante, o corpo foi fraquejando de forma assustadora. Eu não me reconhecia. O pedal não rendia. A força estava se esvaindo. O calor cada vez mais intenso maltratava sem dó. As subidas pareciam paredes. A baique que era leve pesava o dobro. O hodômetro do ciclo-computador parecia que estava danificado – não aumentava nunca aquela quilometragem. Os cento e cinqüenta e cinco quilômetros ainda estavam longe de serem completados. O tempo estava passando e nada de avistar, no horizonte, algum detalhe do Distrito Federal. Eu sonhava com um balde de água fria sendo derramado na minha cabeça. Seria a solução. Meu corpo pedia água fria.
Com muita demora subimos as sete-curvas. Fernando comentou e eu concordei que, graças a Deus, tínhamos vento contra. Imaginamos subir aquela ladeira interminável sem vento para aliviar um pouco do calor intenso. Já não fazia efeito tomar bebida. Ela estava quente. Parecia que o corpo não agradecia. A boca secava, e eu, em períodos curtos, voltava à caramanhola. Nessa agonia entramos no Distrito Federal e paramos em um mercado no povoado Engenho das Velhas.
Tirei o capacete, as luvas e as sapatilhas. Sentei-me no chão com as pernas estendidas. Escorei as costas na parede.
Fernando comprou uma coca-cola de um litro e meio. Tomamos tudo e logo em seguida preparamos para sair. Não podíamos deixar o corpo esfriar. Faltava pouco para concluir, o que para mim, estava sendo um suplício. Um vexame para mim mesmo e para a segunda pessoa que mais conhece de mim – meu filho; meu treinador. Ele me animava, o que, naquela altura do campeonato adiantou pouco. Como sempre, ele estava à frente e eu tentava seguir no vácuo, o que não conseguia mais, nem nas decidas. Com isso ele foi distanciando, visto que aproximava a chegada.
Na reta final, que é longa e plana, com vento leve, eu não conseguia passar de vinte quilômetros por hora em uma speed. Sem comentário!
Avistei primeiro a rede de alta tensão, e depois, o posto da Polícia Rodoviária Federal. O posto de combustível era logo depois.
Cheguei arrastando. Muito mal. Sem forças. Debilitado. Um vexame para a família Vilela.
Fernando, que chegara primeiro, já havia comprado dois litros e meio de coca-cola e me esperava à porta da lanchonete, onde estava nosso carro.
Sentei-me na calçada. Tirei tudo que podia. Permaneceu a bermuda. À sombra do prédio tomei um litro de refrigerante quase numa virada. Fernando me apressou para sairmos. Atendi o reclamo e fomos. Menos de quinze minutos minha boca estava seca que nem língua de papagaio. Fiquei preocupadíssimo com o que ocorria. Quando passamos pelo Núcleo Bandeirante, uns vinte quilômetros do posto de abastecimento, parei para comprar água. Tomei meio litro. Dessa forma cheguei em casa.
Fazendo as contas, depois de me pesar na saída e na chegada, considerando a bebida consumida, descobri que, ao total, perdi oito quilos de líquido e só consegui repor quatro. Esse déficit foi suficiente para me nocautear.

Chácara Betânia, 13 de novembro de 2008
Flecha Afiada

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Dois Mundos

Sexta-feira, trinta e um de outubro de dois mil e oito da era cristã, dois dias antes do dia dos finados, eu vi uma mulher sem vida. Era uma senhora de uns trinta anos de  idade, que desgastada pela vida, aparentava uma velha. Um metro e cinqüenta e cinco de altura; morena; esquálida. Vestia um longuete de pano escuro, sem detalhes, de manda curta, e  estava sujo. Calçava sandálias tipo havaiana, que pelo uso tinha, na posição dos calcanhares, dois furos. Seu corpo era magro. Suas pernas muito finas. Seus braços – dois palitos. Seus cabelos, escuros e lisos, estavam amarrados em coque. Seus lábios eram finos e descarnados. Sua boca tinha poucos e cariados dentes. Desviava o olhar quando alguém se aproximava. Falava baixo e sem força. Pronunciava substantivos, verbos e alguns pronomes pessoais, porém sem concordância, fazendo o ouvinte exercitar no entendimento.

              Estava no ponto de ônibus abaixo do Palácio do Planalto, em frente a um órgão do governo federal, construído em tábuas.

              Tinha na cabeça um suporte de pano, como aqueles que as mulheres nordestinas poem para carregar lata d'água. Aos pés, tinha um tambor de plástico azul, cheio de água. Como não conseguia ergue-lo para sua cabeça, pedia ajuda a alguém.

              Tinha vindo buscar água para manutenção da sua casa. Morava logo ali, no meio do cerrado, “onde não mora ninguém, onde não passa ninguém, onde não vive ninguém”.

 

              Segunda-feira, três de novembro de dois mil e oito da era cristã, um dia depois de domingo, eu vi um senhor vívido. Era um senhor de uns quarenta anos de idade. Um metro e sessenta e cinco de altura; claro; pele lustrosa. Vestia camisa de algodão fino,  bermuda, e calçava sapatos esportivo, sem meias. Tinha sobre a cabeça óculos de lentes escuras e aro prateado – um legítimo Armani – disse ele. Tinha uma barriga proeminente e estava acima do peso ideal. Seus cabelos eram grisalhos, bem cortados, e tinha a barba raspada. Era falante. Pronunciava palavras claras e com bom Português. Voz forte e solta. Desinibido e de olhar atento.

              Entrou numa ferragista para comprar cadeados com segredo – um para cada porta de quarto da sua pousada, onde descansava.

              Era conhecido do proprietário da loja. Comentou sobre os óculos dizendo que se ele quisesse um semelhante, seria capaz de conseguir-lhe, a preço de custo -  por volta de mil reais. Eu tenho uma revista com a fotografia do Kaká com um desse – disse ele. Você sabe que eu gosto de óculos, tenho mais de oitenta – completou.

              Paguei minha conta e saí.

              Tinha tido a oportunidade de ver dois mundos: o da senhora do ponto de ônibus e o do senhor dos óculos.

              Estou inquieto, até então, quando escrevo sobre os fatos. Já se passaram cinco dias desde que vi a senhora do ponto de ônibus. Ela não me sai da cabeça. Seu fácies me impressiona. Da mesma forma, o senhor dos óculos me perturba profundamente.

              Ela mora, no meio do cerrado, há um quilômetro do Palácio do Planalto. Sem terra, sem teto, sem dinheiro, sem trabalho, sem perspectiva de melhora, sem dignidade, sem plano de saúde, nem saúde, sem futuro, sem educação, sem oportunidade, sem assistência, com mil sens. Pertence a uma “casta inferior”.

              Ele mora em condomínio fechado de classe média alta. Com casa, com área verde, com piscina, com suíte, com banheira, com água quente, com carro de sessenta mil reais, com família, com dinheiro, com renda, com plano de saúde, com perspectiva de vida boa, com dignidade, com futuro, com educação, com oportunidade, com assistência, com seguro, com mil cons. Pertence a uma “casca superior”.

              E daí, de quem é a culpa? Ou, onde está o erro? Muita coisa se pode dizer. Uma delas eu digo: em países onde quase não tem pobreza, o salário do doutor é pouco maior do que o do técnico. O governo assiste a população – tem respeito por ela. Os impostos são gastos devidamente. Há Ubuntu  - humanidade para os outros.

              É assim que se pensa lá. É assim que se procede lá.


                               Chácara Betânia, 5 de novembro de 2008

                                            Flecha Afiada

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

FINAL DE DIA

Era mês de outubro, época de preparação da terra para o plantio da roça. Naquele dia, a capina tinha sido cansativa. O sol fora inclemente. Lá pelas cinco da tarde papai deu o trabalho por encerrado. Voltamos ao rancho de palha, construído no meio da roça, onde guardamos as enxadas e a cabaça com água. Era hora de voltar para casa. Papai pegou um saco de pano, que tinha dentro, uma bacia de alumínio com tampa, que eu trouxera com o almoço. Manoel “Meleta” apanhou o bornal que viera com a merenda, e eu, como era menino, levava simplesmente um corpo cansado. Piloto, nosso cão vira-lata, que estava dormindo debaixo do banco de varas, entendendo tudo, se pôs de pé pronto para a partida.

A roça ficava uns três quilômetros de casa, rio abaixo.
A estrada era estreita, na largura das rodas do carro de bois. Ora tinha muita areia, ora era de terra batida. Dos lados, alguns pés de gabiroba e de caju do campo apareciam às mãos, oferecendo seus frutos. As árvores eram retorcidas e de altura mediana como é característica do cerrado brasileiro.

Eu caminhava atrás de papai, com a cabeça baixa, olhando para meus pés, calçados com botinas surradas, que, ao pisar na areia, afundavam, dificultando os passos. Ninguém se falava. Só se ouvia o barulho dos panos das calças que esfregavam uma perna na outra ao mudar a passada. Manoel “Meleta” tragava seu cigarro de palha e fumo de rolo, soltando fumaça de cheiro forte no ar.
Ao aproximar da sede da fazenda, antes do córrego, a estrada aprofundava em um corte, feito a enxadão, para vencer uma rampa forte. Nos taludes, os teiús e as lagartixas faziam buracos circulares, onde botavam e chocavam seus ovos. Ao aproximarmos foi uma correria geral. Cada um procurando se proteger daqueles enormes seres passantes.
O córrego era pequeno. Sua água era mineral. Cristalina e fria. Corria por dentro da pindaíba até próximo à nossa passagem. Depois da passagem a grama rasteira cobria toda a terra até topar na cerca do quintal.
Pulamos a cerca de madeira roliça, em forma de caixão, ao lado do paiol de milho. Dentro do quintal passamos debaixo de duas mangueiras, um abacateiro, e ao lado de uma moita de bananeira, onde, atrás dela, escondíamos para defecar e urinar. Passando à direita da casa do monjolo, chegamos ao terreiro da casa, onde tinha um varal que mamãe estendia as roupas para secar ao sol. O terreiro estava limpo, como de costume. Mamãe o varia sempre que caíam folhas.
Chegamos pela bica d'água, que passava dentro da varanda. Depois da varanda estava a cozinha. Todas cobertas pelo mesmo telhado. A cozinha era construída de pau-a-pique; telhado de telha colonial que papai comprara do senhor Antenor e trouxera no carro de bois, e piso de terra batida, de formigueiro. O fogão era a lenha. Dentro da cozinha tinha a despensa, onde se guardava, numa prateleira, latas de banha de porco com carne frita imersa nela, latas de arroz, de feijão e algumas panelas vazias. Nada mais.
Cumprimentamos mamãe que já estava com o jantar preparado. Nos assentamos nos bancos de madeira, colocados próximos à parede que dava para o pasto dos cavalos.
Depois de lavar as mãos na bica d'água, cada um, começando por papai, se dirigiu à mesa, no centro da cozinha, onde pegou seu prato e garfo, e, colocando farinha de mandioca, foi ao fogão. Serviu-se de feijão preto, arroz e carne de porco frita. Sentou-se no banco, e sem nenhuma palavra, segurando o prato na mão esquerda, com os dedos bem aberto para sustentá-lo, comeu o quanto quis.
O calor era muito. Motivado por isso, saímos da cozinha e fomos nos assentar no banco de ripas, do lado de fora, encostado na parede, voltado para o terreiro. Piloto já estava deitado no seu buraco costumeiro, feito para passar a noite.
Se fazia lusco-fusco quando nos assentamos no banco. Descalços, com as pernas cruzadas ou estendidas, iniciou-se as conversas sobre coisas da vida. Papai falava do trabalho da fazenda. Da roça. Da plantação. Dos animais. Dos porcos que engordavam no chiqueiro. Das vacas que estavam amojando e dariam à luz antes do final do ano. Se tudo corresse bem seriam vinte vacas paridas até lá. Eu me lembrava do leite espumado que iria tomar, no dia seguinte, dentro do curral.
Eu só ouvia as conversas. “Menino não entra em assunto dos mais velhos” - me ensinara papai.
A noite tomou conta do lugar. Era lua nova. Ninguém via nada. Só se ouvia a voz de quem falava. Um falava, o outro escutava. De quando em vez, fazia silêncio por completo. Só se ouvia o barulho da água da bica, caindo na gamela do monjolo, lá no calabouço.
Passado um tempo, mamãe nos chamou para lavar os pés. Era sexta-feira. Só se banhava no sábado e na quarta, lá no calabouço. A água do balde já estava quente no fogão. Voltando para a cozinha, nos assentamos no banco. Mamãe pegando a bacia, colocava-a em frente de cada um, por sua vez. Colocava água fria e mornava com a água quente. Assim, cada um se preparava para dormir.
Quando chegou minha vez, arregaçando as calças, coloquei os pés dentro da bacia e esfreguei um no outro até dar por limpos. Enxuguei-os com a toalha e calcei os chinelos.
Minha cama, um catre com colchão de palha de milho, me esperava. Tirando a roupa de trabalho, me deitei. Me cobri com a coberta de algodão, tecida no tear da vovó Maria Jerônima. Dormi sono profundo.
- Deitado na rede da varanda do Multi-uso, aqui na chácara, às nove horas da noite, sozinho, ouvindo os grilos, os sapos e nada mais, numa escuridão de fazer gosto, me lembrei daquele dia, há cinqüenta anos, quando tinha oito anos de idade.
Tempo bom que não volta mais.

Chácara Betânia, 26 de outubro de 2008


Flecha Afiada

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O Velho e a Granola

De féria na fazenda dos meus avós paternos, em junho de mil novecentos e sessenta e três, sentado em um dos bancos da cozinha, eu adolescente e várias pessoas adultas, à noite, à luz de candeia, esperando a minha vez de lavar os pés para dormir, ouvi do meu avô, uma história que nunca me esqueci.

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- Um senhor amigo meu, chamado Bregildo, já passado dos cinquenta anos de idade, iniciou-se no pedal, por incentivo de um amigo.

Comprou sua primeira bicicleta à prestação, pois era homem de poucas posses.

Foi tomando gosto pela baique e, sempre que podia, investia algum dinheiro em equipamento, fazendo, com isso, uma melhora gradativa e constante.

Depois de algum tempo pedalando, se meteu em competições, junto com outros ciclistas. O que foi chamando sua atenção foi que quando olhava ao redor, notava ser o mais velho no pedaço. Isso, aparentemente, não lhe intimidou. Se teve efeito negativo foi só com ele mesmo. Eu nunca vi nada.

Veja só o que é experiência: na primeira competição que participou, parou no meio da estrada, no ponto de apoio, para comer pão com goiabada. Bem que poderia ter levado às costas, mas a falta de conhecimento não lhe proporcionou isso. Um tal Abraão tinha passado vazado no mesmo lugar. Nem parou para comer nada – disse-me ele depois. O cara era campeão.

Com o tempo, foi adquirindo mais conhecimento e os treinos em cima da magrela lhe deu melhor condicionamento físico. Emagreceu oito quilos. Afinou. Quem não o via há muito tempo achou que estava doente, tal era a diferença. Sua tia, preocupada, perguntou à filha dele em certa ocasião: seu pai está bem? Está tão magro! A filha explicou que era a bicicleta. Agora, depois de velho, tinha inventado esse negócio de pedalar.

Os anos foram passando, e Bregildo, cada vez mais gostando do esporte. Num tempo desse, largou tudo e foi pras Minas Gerais competir entre gente de todo o Brasil, com coisa que era bom ciclista. Levou uma surra que até hoje se lembra. Caiu no meio do mato com a cara numa terra preta que chegou de pele trocada. Só o conheceram pelo número da placa. Virou africano puro. Alguns dos seus parentes, quando viram o retrato, tirado não se sabe por quem, suspeitaram que era maldição de Saci Pererê. Ainda bem que depois de um bom banho sua cor foi restaurada. Sua consciência também o foi. Entendeu que não passava de um ciclista mais-ou-menos e que tinha que ficar quieto na roça, de onde saíra.

Não conformando com a situação, foi treinando mais forte. De vez em quando chegava com a bunda ferida de tanto pedalar. Sua esposa, dona Zezé, ficava preocupada com aquilo, mas falar não resolvia. Era teimoso; cabeça dura. Quando virava a cara numa direção não adiantava conversa. Ia até o fim. Ainda bem que nunca se estrumbicou. Deus tem tido misericórdia dele.

Há pouco tempo, faltou vender os porcos do chiqueiro para, de novo, ir competir longe. Dessa vez foi lá no sul. Num estado que nem conhecia de nome, chamado Paraná. É bem longe daqui. À cavalo, gasta uma vida para chegar lá. Mas, obstinado como sempre foi, fez dívida, empenhou os filhos, vendeu leitão e conseguiu com um amigo seu, que mora na currutela (povoado à dez quilômetros da fazenda), um tal de cartão de crédito, com o qual se pode comprar as coisas para pagar depois. Resumindo – conseguiu ir para a tal competição – campeonato brasileiro de bicicleta.

No hotel, no café da manhã, tinha um produto que lhe chamou a atenção. O colega de quarto lhe disse que aquilo se chamava granola e era bom para dar força na hora da prova. Colocou uma porção no prato e amassou banana por cima. Comeu com jeito, pois parecia cascalho. O sabor era bom. Comeu mais um pouco. Sentiu fortalecido.

Compra-se o produto em sacos de um quilo. Custa caro pra caramba. Três dúzias de ovos por um quilo de granola.

Não é de ver que o danado ganhou a competição! Mas também tinha que ter alguma coisa por trás disso. Um competidor estava gripado, o outro furou o pneu e o outro se perdeu pelo mato. Era uma turma de velhos que fazia dó. Tudo isso ele me contou depois que chegou. Eu fiquei calado para não lhe desmotivar, mas esse negócio de matuto se meter com coisa de gente de cidade não dá certo. Uma hora dessas a gente vai encontrá-lo caído na estrada; morto, com formiga na boca. Tudo por causa dessa invenção de andar de bicicleta.

Bregildo, nesses dias, estava, de novo, comendo granola misturada com banana. Ele gosta muito. Quando sentiu uma dor na gengiva, foi verificar o que tinha acontecido. Olhou no espelho e viu o estrago. Um dos dentes molares havia rachado ao meio. Com a ponta dos dedos segurou o dente e constatou que a lasca era grande. Pesquisou com a ajuda de um alfinete e concluiu que não evitaria o trabalho do dentista. Não bastasse a dívida com a viagem para o sul, agora era a vez da dívida com o dentista.

Mandou recado pelo leiteiro para acertar o dia em que iria consultar com o dr. Pedro, o dentista. Na terça-feira, às quatro e meia da tarde, disse o leiteiro, ao retornar no dia seguinte.

No dia acertado, pegou carona no caminhão do leite e foi para a cidade. Na hora certa dr. Pedro o atendeu.

Como vai seu Bregildo, tudo bem?

Tudo bem, nem tanto. Com o que aconteceu estou comendo só de um lado.

Vamos lá ver esse dente.

Deitou-se na cadeira com a boca para cima, arreganhada como boca de hipopótamo. Com uma seringa e uma agulha muito fina dr. Pedro começou a injetar anestesia na gengiva. Cada picada Bregildo segurava com mais força a cadeira. Quase arrancou os braços do gabinete. Por fim, depois de várias aplicações, dr. Pedro levantou para esperar o remédio fazer efeito.

Ligando o equipamento, o motorzinho começou a zunir nos seus ouvidos. Depois de algum tempo concluiu-se que não tinha outro jeito. Tinha que extrair o dente. A rachadura tinha sido de cima abaixo.

Podemos marcar a extração para outro dia, disse dr. Pedro.

Pode ser agora? Perguntou Bregildo.

Pode, disse dr. Pedro.

Enquanto assa, frita – diz o ditado – disse Bregildo.

Com isso dr. Pedro preparou para extrair o dente. O motorzinho, de novo, começou a zunir. Foram trinta minutos intermináveis até que se deu por concluído o trabalho. O dente tinha resistido bravamente em seu alojamento, mas depois de muita luta saiu aos pedaços.

Agora, Bregildo está mais leve um dente e pensa seriamente em parar de comer granola.

Se não tivesse conhecido gente de cidade, não teria conhecido bicicleta nem granola. Estaria na roça cuidando das coisas e teria seu dente inteiro. Agora, desdentado, tem dificuldade para comer rapadura e carne seca.

É nisso que dá a tal de evolução, disse meu avô.

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Depois de lavar os pés, fui dormir pensando no que tinha ouvido. Sonhei com meus dentes todos quebrados e eu desesperado não sabia o que fazer. Acordei suando frio. Depois do susto adormeci. Acordei de novo, na madrugada, com meu avô me chamando, para irmos moer cana-de-açúcar no engenho.

Chácara Betânia, 14 de outubro de 2008


Flecha Afiada